Uma dieta carnívora cetogênica foi associada à melhora acentuada de ansiedade, crises de pânico, compulsão alimentar, insônia, fogachos e refluxo em uma mulher de 48 anos. O resultado, porém, vem de um único relato de caso e não demonstra que a dieta tenha sido a causa das melhoras.
O caso foi publicado em 9 de setembro de 2026 no Journal of Metabolic Health, por Moira Newiss. A participante estava na perimenopausa, tinha IMC de 21 kg/m² e apresentava histórico prolongado de ansiedade, ataques de pânico, compulsão alimentar e problemas gastrointestinais, além de insônia e sintomas vasomotores da menopausa.
O que foi estudado
O artigo descreveu retrospectivamente a evolução de uma mulher de 48 anos que convivia havia anos com medo, preocupação, pensamentos intrusivos, palpitações e crises diárias de pânico. Os episódios de compulsão alimentar haviam começado ainda na adolescência e envolviam principalmente alimentos doces e ricos em carboidratos.
Também havia sintomas digestivos importantes, incluindo azia, refluxo laringofaríngeo, excesso de muco, arroto após as refeições, náusea, distensão abdominal e fezes amolecidas. Em determinado período, ela relatava não conseguir beber água por até seis horas depois de comer.
Na perimenopausa, apresentava ainda cerca de cinco fogachos durante o dia e seis durante a noite, além de insônia, alterações de humor, fadiga e sonolência diurna.
Como foi feita a intervenção
Antes da intervenção, a alimentação já era relativamente baixa em carboidratos e incluía carne bovina, ovos, salmão, queijo, saladas, abacate e azeite.
Na primeira semana, foi introduzida uma dieta carnívora cetogênica restrita, composta inicialmente por carne bovina, gordura animal, fígado, caldo de ossos e medula. O planejamento procurava alcançar aproximadamente uma proporção de 2:1 entre gordura e proteína, com cerca de 56 gramas de proteína por dia.
A dieta não foi a única mudança. A última refeição passou a ser feita pelo menos três horas antes de dormir, houve orientação para reduzir a iluminação no período noturno e a atividade física foi aumentada progressivamente. Vários suplementos também foram retirados ou modificados.
Esse detalhe é fundamental para interpretar o caso: várias intervenções ocorreram simultaneamente. Portanto, não é possível separar com segurança o efeito da dieta dos efeitos da atividade física, do horário das refeições, do sono, da meditação ou das mudanças na suplementação.
A cetose foi realmente medida
Um aspecto interessante do relato é que a adesão não foi avaliada apenas pelo que a participante dizia comer. Glicose e beta-hidroxibutirato (BHB), um dos principais corpos cetônicos circulantes, foram medidos diariamente.
Durante grande parte dos três meses, o BHB permaneceu aproximadamente entre 2 e 3,5 mmol/L, chegando em alguns momentos a 4 mmol/L. A glicemia permaneceu, em geral, em valores relativamente estáveis.
Nos primeiros dias da adaptação ocorreram piora da ansiedade e episódios intensos de pânico. Segundo o artigo, esses sintomas desapareceram após alguns dias. A explicação proposta pela autora — estresse fisiológico da adaptação metabólica — é uma hipótese, não algo comprovado pelo relato.
As mudanças apareceram rapidamente
Já na segunda semana, a participante relatou redução do refluxo, melhora da energia, menor sonolência e uma mudança que considerou particularmente importante: a mente estava mais calma e haviam desaparecido a fome constante e o desejo frequente por alimentos doces.
Os fogachos também diminuíram consideravelmente durante o dia.
Na sexta semana ocorreu uma espécie de experimento não planejado. Durante uma viagem para visitar familiares, foram reintroduzidos alimentos vegetais como alface, abacate, abobrinha e pimentão. O BHB caiu para aproximadamente 0,4–0,5 mmol/L, enquanto a glicose permaneceu semelhante.
Nesse período, ansiedade e sintomas de refluxo retornaram. Ao voltar para casa e retomar a dieta carnívora cetogênica, os sintomas novamente melhoraram.
Essa sequência chama atenção, mas não funciona como um ensaio controlado. A própria autora reconhece que a viagem, mudanças ambientais e interações psicossociais poderiam ter influenciado o resultado.
O que aconteceu após 12 semanas
Ao final de 12 semanas, a dieta havia sido ampliada para carne bovina, cordeiro, sardinha, salmão, manteiga, fígado, coração, pulmão e medula óssea.
As mudanças relatadas foram expressivas. Os ataques de pânico passaram de diários para nenhum. Os fogachos, inicialmente cerca de cinco durante o dia e seis durante a noite, desapareceram durante o dia e passaram a ocorrer apenas ocasionalmente à noite.
Não havia mais episódios de compulsão alimentar nem alimentação durante a madrugada. O sono melhorou substancialmente, a energia aumentou e a participante voltou a conseguir caminhar aproximadamente uma hora por dia.
Os sintomas digestivos também diminuíram. Ela voltou a conseguir beber água imediatamente depois das refeições e relatou desaparecimento do gotejamento pós-nasal, distensão abdominal e náusea, além de grande redução dos sintomas de refluxo.
Nas escalas subjetivas utilizadas pelo artigo, em que 10 representava a melhor condição, a pontuação da insônia passou de 1 para 9, a dos fogachos de 2 para 9 e a do refluxo de 5 para 7.
Existe alguma explicação metabólica?
A autora interpreta o caso utilizando o chamado Energy Resistance Principle, um modelo teórico publicado em 2025 que procura relacionar transformação de energia celular, função mitocondrial, estresse oxidativo, inflamação e doença.
Essa interpretação deve ser separada dos resultados observados. O modelo de “resistência energética” é uma estrutura teórica recente, e o relato não demonstrou que alterações mitocondriais tenham produzido os sintomas nem que sua correção explique as melhoras.
Há, entretanto, literatura investigando dietas cetogênicas em transtornos psiquiátricos. Uma revisão sobre dieta cetogênica e transtornos neuropsiquiátricos discute mecanismos envolvendo metabolismo energético, função mitocondrial, inflamação e neurotransmissão. Pequenos estudos e relatos também descreveram melhora de sintomas psiquiátricos durante cetose nutricional, incluindo uma série de casos envolvendo depressão e ansiedade.
Para compulsão alimentar, também existem dados preliminares. Um estudo piloto com dieta cetogênica de muito baixa caloria observou melhora de sintomas relacionados à compulsão alimentar e dependência alimentar. Esses resultados ainda não permitem extrapolar o efeito para uma dieta carnívora.
Um resultado importante apareceu no colesterol
A melhora dos sintomas veio acompanhada de uma alteração laboratorial que merece atenção. Após aproximadamente sete semanas, o LDL-C era de 345 mg/dL, o HDL-C de 118 mg/dL e os triglicerídeos de 64 mg/dL.
Esse padrão preencheu os critérios usados no artigo para o fenótipo denominado lean mass hyper-responder (LMHR), descrito em algumas pessoas magras que seguem dietas muito pobres em carboidratos. O fenômeno vem sendo estudado, inclusive no KETO Trial.
Entretanto, não existiam exames lipídicos anteriores ao início da intervenção. Dessa forma, nem sequer é possível afirmar que a dieta tenha provocado essa elevação do LDL-C.
Mais importante: o significado cardiovascular de longo prazo desse fenótipo permanece incerto. O próprio artigo reconhece que as diretrizes cardiovasculares consideram LDL-C elevado um fator de risco para doença cardiovascular aterosclerótica. A participante recusou investigação adicional por imagem e avaliação cardiológica.
Limitações do estudo
Este é o ponto mais importante antes de transformar o caso em recomendação geral. Trata-se de uma única pessoa, sem grupo de controle. Não foram utilizadas escalas clínicas validadas para ansiedade, compulsão alimentar ou sintomas da menopausa, e grande parte dos desfechos foi autorrelatada.
Além disso, alimentação, atividade física, horário das refeições, higiene do sono e suplementação mudaram praticamente ao mesmo tempo. Expectativa, efeito placebo, flutuação natural dos sintomas e outros fatores também não podem ser excluídos.
A própria publicação afirma que a literatura específica sobre dieta carnívora cetogênica ainda é pequena e que não existem ensaios clínicos controlados capazes de confirmar os efeitos observados neste relato.
Em resumo
O caso é interessante porque documenta uma melhora temporalmente associada a uma dieta carnívora cetogênica e confirma a manutenção da cetose por medições sanguíneas durante três meses. Ansiedade, crises de pânico, compulsão alimentar, insônia, fogachos e sintomas digestivos diminuíram de maneira marcante.
Ao mesmo tempo, o estudo não demonstra que retirar vegetais, aumentar gordura animal ou alcançar determinada concentração de cetonas seja responsável pelos resultados. Ele oferece uma observação clínica que pode servir para gerar hipóteses e justificar estudos controlados.
Conclusão
Após 12 semanas de uma intervenção centrada em dieta carnívora cetogênica, uma mulher de 48 anos em perimenopausa apresentou remissão das crises de pânico e da compulsão alimentar, desaparecimento dos fogachos diurnos e melhora importante do sono, refluxo, energia e capacidade física.
É um resultado incomum e relevante para investigação, mas continua sendo um relato de caso. A principal mensagem científica não é que a dieta carnívora esteja comprovada como tratamento para esses problemas, e sim que a magnitude e a diversidade das mudanças observadas justificam pesquisas clínicas mais rigorosas.
Fonte: https://doi.org/10.4102/jmh.v9i1.153