Proteína e rins não formam uma relação simples de causa e dano. Um estudo com dez anos de acompanhamento não encontrou perda renal acelerada com maior ingestão habitual de proteína, enquanto uma revisão aponta que a cetose pode ativar mecanismos protetores em uma doença renal específica.
Os trabalhos respondem a perguntas diferentes. O primeiro avaliou adultos da população geral, em sua maioria com função renal preservada. O segundo reuniu evidências sobre doença renal policística autossômica dominante, também chamada DRPAD. Juntos, eles ajudam a separar o efeito da proteína sobre rins saudáveis do possível efeito do beta-hidroxibutirato sobre rins com doença policística.
Maior ingestão de proteína não acelerou a perda da função renal
O estudo de Rinde e colaboradores, publicado em 2026 no Clinical Kidney Journal, acompanhou 1.324 adultos noruegueses. A idade média era de aproximadamente 64 anos, a função renal inicial média era de 89 ml/min/1,73 m² e o acompanhamento mediano chegou a dez anos.
A ingestão de proteína foi estimada por questionário alimentar. A média ficou em 1,2 grama por quilo de peso corporal ao dia. No grupo de maior consumo, a ingestão foi de pelo menos 1,4 g/kg/dia, com média próxima de 1,8 g/kg/dia.
Maior consumo de proteína não esteve associado a queda mais rápida da taxa de filtração glomerular, declínio renal acelerado ou maior ocorrência de filtração abaixo de 60 ml/min/1,73 m². O resumo gráfico da página 2 mostra trajetórias semelhantes de perda renal entre os quatro níveis de ingestão proteica.
Por que a medição com iohexol faz diferença
Grande parte da preocupação com proteína e rins vem de estudos que calculam a função renal usando creatinina no sangue. Esse marcador é útil, mas pode ser influenciado pela massa muscular, pelo consumo de carne e por fatores que não representam perda real da capacidade de filtração.
Neste estudo, a filtração glomerular foi medida repetidamente por depuração de iohexol. O método oferece uma avaliação mais direta da função renal. Dentro das faixas habitualmente consumidas pela população estudada, a proteína não apareceu como fator relevante de deterioração renal.
Isso não significa que qualquer quantidade seja segura em qualquer pessoa. O trabalho não testou dietas extremamente hiperproteicas, suplementos em grandes doses, dieta carnívora nem pessoas com doença renal crônica avançada. Também não separou proteína animal de proteína vegetal.
A cetose pode fornecer um sinal protetor aos rins
O segundo artigo, publicado por Torres, Sharpe e Weimbs em 2026, é uma revisão narrativa sobre o beta-hidroxibutirato, conhecido pela sigla BHB, na doença renal policística autossômica dominante. Nessa condição genética, células dos túbulos renais formam cistos e apresentam alterações no uso de energia.
Segundo a revisão, essas células passam a depender excessivamente da glicose, apresentam pior funcionamento das mitocôndrias e reduzem a oxidação de gordura. Esse ambiente favorece crescimento celular, inflamação, estresse oxidativo e expansão dos cistos.
A terapia metabólica cetogênica procura atingir essa fragilidade. Ela pode envolver dieta cetogênica, jejum intermitente, alimentação com horário restrito ou fornecimento de BHB. Durante a cetose fisiológica, o fígado produz BHB a partir de ácidos graxos, e os rins estão entre os órgãos capazes de utilizá-lo em grande quantidade.
O BHB não funciona apenas como combustível
A revisão propõe que o BHB seja entendido como um hormônio de sinalização com possível ação protetora renal. Além de fornecer energia, ele pode reduzir o inflamassoma NLRP3, diminuir sinais inflamatórios, inibir a via mTORC1 ligada ao crescimento dos cistos, estimular mecanismos antioxidantes mediados por Nrf2 e favorecer a função mitocondrial.
A figura 4, na página 41 da revisão, resume essas ações em quatro áreas: sistema imune, função mitocondrial, controle do estresse oxidativo e modificações epigenéticas.
Os resultados clínicos iniciais são promissores, mas não definitivos. Pequenos estudos em pessoas com doença renal policística relataram melhora de alguns marcadores de função renal e possível redução do volume dos rins em participantes com níveis mais elevados de BHB. A maior parte das evidências mecanísticas ainda vem de células e animais.
Onde entra uma dieta baseada em alimentos animais
Uma alimentação baseada em carne, ovos, peixes e gorduras animais pode produzir cetose quando mantém os carboidratos muito baixos e fornece gordura suficiente como fonte de energia. Entretanto, comer mais proteína, por si só, não garante níveis elevados de BHB.
A revisão descreve a dieta cetogênica como uma alimentação com poucos carboidratos, proteína moderada e maior participação de gordura. Portanto, uma dieta carnívora pode ser cetogênica, mas isso depende da proporção entre gordura e proteína, da frequência das refeições e da resposta metabólica individual.
Os artigos não demonstram que a dieta carnívora trate ou previna doença renal. Eles permitem uma conclusão mais específica: a ingestão habitual de proteína não foi associada à piora renal em adultos predominantemente sem doença renal, e a cetose pode ativar mecanismos potencialmente protetores na doença renal policística.
O que isso significa na prática
Para pessoas com rins preservados, o primeiro estudo não sustenta a ideia de que uma ingestão moderada ou relativamente alta de proteína necessariamente desgaste os rins. A elevação transitória da filtração após uma refeição proteica não deve ser confundida automaticamente com lesão progressiva.
Para pessoas com doença renal policística, a terapia metabólica cetogênica é uma área de pesquisa relevante, mas ainda não substitui acompanhamento médico, controle da pressão arterial, avaliação do volume renal e tratamentos indicados para cada caso.
Na doença renal crônica avançada, especialmente quando a filtração está abaixo de 30 ml/min/1,73 m², quantidade de proteína, fósforo, potássio, sódio, hidratação e medicamentos exigem avaliação individual. Resultados obtidos em pessoas com função renal preservada não podem ser transportados diretamente para esse grupo.
Limitações dos estudos
O estudo sobre proteína foi observacional e estimou a alimentação por questionário. A população era relativamente saudável, norueguesa e de meia-idade ou mais velha, o que limita a generalização dos resultados para outros grupos.
A revisão sobre BHB não foi sistemática. Os próprios autores selecionaram os estudos considerados relevantes. Além disso, dois autores declararam vínculos com uma empresa que comercializa produto nutricional voltado à doença renal policística. Essa informação não invalida a revisão, mas deve fazer parte da interpretação.
Em resumo
A proteína não apareceu como inimiga dos rins no acompanhamento de dez anos realizado com medição direta da filtração glomerular. Ao mesmo tempo, a literatura sobre doença renal policística sugere que reduzir a dependência de glicose e elevar o BHB pode atuar sobre inflamação, mitocôndrias e crescimento dos cistos.
Rins saudáveis não precisam ser tratados como órgãos frágeis diante de toda refeição proteica. Já a cetose surge como estratégia experimental promissora para situações específicas, especialmente a doença renal policística, mas ainda depende de estudos clínicos maiores e mais longos.
Fontes: https://doi.org/10.1093/ckj/sfag235 | https://doi.org/10.1152/ajpendo.00067.2026


