Na dispepsia funcional, a alimentação pode melhorar ou piorar bastante os sintomas, mas as evidências não apontam uma dieta única que funcione para todos. O conjunto dos estudos sugere que reduzir gatilhos individuais e, em alguns pacientes, diminuir a carga de alimentos fermentáveis pode aliviar plenitude, inchaço e desconforto depois das refeições. Em sentido contrário, aumentar muito fibras ou consumir padrões alimentares que favoreçam distensão pode piorar os sintomas em pessoas suscetíveis.
Isso ajuda a entender por que uma alimentação considerada saudável para pressão arterial, coração ou controle de peso não é necessariamente a alimentação mais confortável para uma pessoa com dispepsia. Saúde nutricional e tolerância digestiva são questões relacionadas, mas não idênticas.
A dispepsia funcional é atualmente classificada como um distúrbio da interação intestino-cérebro. Entre os sintomas mais característicos estão sensação de estômago cheio depois de comer, saciedade precoce, dor ou queimação na região superior do abdômen, náusea e inchaço. Em muitos pacientes, comer é justamente o principal gatilho.
Um estudo publicado em 2026 por Peter Liptak e colaboradores acrescentou uma informação importante a essa discussão: pacientes que continuavam sintomáticos mesmo usando medicamentos apresentaram melhora expressiva depois que seis grupos de alimentos foram retirados da dieta.
O estudo de 2026: seis grupos de alimentos foram retirados por quatro semanas
O estudo publicado no Clinical Nutrition ESPEN foi prospectivo, intervencionista, exploratório e realizado em um único centro. Os pesquisadores incluíram adultos diagnosticados com dispepsia funcional pelos critérios de Roma IV que não haviam respondido adequadamente a pelo menos oito semanas de tratamento com inibidor da bomba de prótons, ou IBP.
Dezoito pacientes com dispepsia funcional e 18 participantes saudáveis completaram o protocolo.
Durante quatro semanas, a alimentação excluiu simultaneamente:
- leite;
- trigo;
- soja;
- ovos;
- oleaginosas;
- pescados e frutos do mar.
Os pacientes com dispepsia continuaram tomando o IBP. Portanto, o estudo não comparou a dieta contra o medicamento, nem avaliou a dieta isoladamente. O que foi testado foi a combinação da dieta de eliminação com o tratamento que já vinha sendo utilizado.
Os sintomas diminuíram bastante
O principal questionário de sintomas gastrointestinais superiores, o PAGI-SYM, apresentou redução da mediana de 1,77 para 0,77.
A qualidade de vida relacionada aos sintomas gastrointestinais, avaliada pelo PAGI-QoL, melhorou de 1,83 para 0,95. Já a carga de sintomas somáticos medida pelo PHQ-15 caiu de 9,5 para 6 pontos.
As três mudanças foram estatisticamente significativas e apresentaram grandes tamanhos de efeito.
Também foi realizada uma análise metabolômica do sangue. Apesar da grande mudança alimentar, os pesquisadores não encontraram alterações significativas no conjunto de metabólitos avaliados durante aquelas quatro semanas.
Mas qual dos seis alimentos estava causando os sintomas?
O estudo não consegue responder.
Leite, trigo, soja, ovos, oleaginosas e frutos do mar foram retirados ao mesmo tempo. Portanto, não há como saber se a melhora ocorreu pela exclusão de apenas um deles, de dois ou três, de todos, ou simplesmente pela mudança geral da alimentação.
Também não houve uma fase de reintrodução controlada em que cada alimento fosse devolvido separadamente para verificar se os sintomas reapareciam.
Essa é uma limitação importante, porque melhorar depois de retirar seis alimentos não significa ser intolerante aos seis.
Outra limitação é ainda mais relevante: não existia um grupo comparador formado por pacientes com dispepsia funcional que permanecessem apenas com o tratamento habitual. Os controles eram pessoas saudáveis. Assim, expectativa, regressão à média e flutuação natural dos sintomas não podem ser excluídas.
Por isso, os próprios autores afirmam que a intervenção precisa ser testada em ensaios clínicos randomizados antes de ser incorporada rotineiramente ao tratamento.
O que uma revisão sistemática de 2025 encontrou sobre alimentação e dispepsia?
O estudo de 2026 não apareceu do nada. Um ano antes, Ashoorion e colaboradores haviam publicado a revisão sistemática Effect of dietary patterns on functional dyspepsia in adults, procurando justamente responder quais padrões alimentares estavam relacionados à dispepsia e a sintomas como plenitude e inchaço.
Foram encontrados apenas sete estudos elegíveis: três ensaios clínicos randomizados e quatro estudos observacionais.
Isso, por si só, já revela o tamanho da lacuna. Para uma condição em que a comida é frequentemente apontada pelos próprios pacientes como desencadeadora dos sintomas, existem surpreendentemente poucos estudos comparando dietas completas.
A revisão avaliou principalmente dietas DASH, padrão mediterrâneo, vegetarianismo e veganismo.
Mais fibras aumentaram inchaço e sensação de estômago cheio
Um dos experimentos analisados foi o DASH-Sodium Trial, que incluiu 412 participantes.
A dieta DASH fornecia aproximadamente 32 gramas de fibras por dia, enquanto a dieta de controle fornecia cerca de 11 gramas.
A alimentação com maior quantidade de fibras aumentou a ocorrência de inchaço e sensação desconfortável de plenitude. O risco relativo foi de 1,41.
Na interpretação da revisão sistemática, isso correspondeu a aproximadamente 151 casos adicionais desses sintomas para cada mil pessoas.
A certeza dessa evidência foi classificada como moderada.
Isso não demonstra que fibra seja prejudicial para todas as pessoas e muito menos que deva ser eliminada indiscriminadamente. Mostra algo mais específico e clinicamente relevante: uma grande carga de fibras pode aumentar inchaço e plenitude em pessoas suscetíveis.
Há ainda uma ressalva importante. Os participantes desse ensaio não eram uma população selecionada por diagnóstico de dispepsia funcional. Eram adultos estudados originalmente em um experimento sobre pressão arterial. Portanto, o dado é especialmente útil para entender tolerância gastrointestinal, e não para afirmar que a DASH provoque dispepsia funcional.
Quatro versões da DASH também aumentaram o inchaço
O ensaio OmniCarb avaliou 163 adultos e comparou quatro versões de uma alimentação no estilo DASH, variando a quantidade de carboidratos e o índice glicêmico.
Quando consideradas em conjunto e comparadas à alimentação inicial dos participantes, essas dietas foram associadas a maior ocorrência de inchaço. Na revisão sistemática, o risco relativo foi de 1,59, correspondendo a aproximadamente 137 casos adicionais para cada mil pessoas.
Mais uma vez, isso não significa que carboidrato isoladamente explique o problema. As dietas continham diversas mudanças simultâneas.
A dieta "rica em proteína" piorou o inchaço, mas há um detalhe importante
Outro resultado da revisão pode facilmente ser interpretado de forma errada.
No ensaio OmniHeart, 164 participantes consumiram três versões de uma dieta DASH: uma mais rica em carboidratos, outra mais rica em proteína e outra mais rica em gordura insaturada.
Em comparação à alimentação basal, a versão rica em proteína apresentou risco relativo de 1,78 para inchaço, equivalente a aproximadamente 140 casos adicionais para cada mil pessoas.
A versão rica em gordura insaturada também aumentou o inchaço, com risco relativo de 1,63, correspondendo a aproximadamente 113 casos adicionais por mil.
Uma interpretação apressada seria concluir que "proteína piora a dispepsia". Mas a composição da dieta muda completamente essa leitura.
A própria revisão chama atenção para o fato de que grande parte da proteína adicional vinha de feijões, leguminosas, oleaginosas, sementes, trigo e produtos de soja. Esses alimentos também fornecem carboidratos fermentáveis, incluindo FODMAPs.
Os autores levantam explicitamente a possibilidade de que o maior inchaço não tenha ocorrido por causa da proteína em si, mas pela composição dos alimentos usados para aumentar seu consumo.
Consequentemente, esse experimento não demonstra que carne, ovos ou proteína animal provoquem dispepsia.
FODMAPs ajudam a explicar por que alimentos nutritivos podem provocar sintomas
FODMAPs são carboidratos de cadeia curta que podem ser absorvidos de maneira incompleta e rapidamente utilizados por microrganismos intestinais. Em pessoas sensíveis, podem favorecer aumento do conteúdo de água no intestino e produção de gases.
O resultado pode ser justamente aquilo que incomoda muitos pacientes com dispepsia: distensão, inchaço e sensação de plenitude.
Isso cria uma situação aparentemente paradoxal.
Uma pessoa pode aumentar feijões, grãos integrais, frutas, determinados vegetais, sementes e outros alimentos considerados nutricionalmente adequados e, ao mesmo tempo, passar a sentir mais desconforto.
O alimento não precisa ser "ruim". Ele pode simplesmente estar sendo mal tolerado naquele contexto e naquela quantidade.
Uma dieta com baixo teor de FODMAPs já foi testada diretamente na dispepsia funcional
Em 2022, Goyal e colaboradores realizaram um ensaio clínico randomizado comparando uma dieta com baixo teor de FODMAPs a orientações alimentares tradicionais.
Foram randomizados 105 pacientes com dispepsia funcional pelos critérios de Roma IV.
Depois de quatro semanas, os dois grupos apresentaram melhora global dos sintomas. A diferença geral entre as duas estratégias não foi estatisticamente significativa: aproximadamente 67% responderam à dieta de baixo teor de FODMAPs e 57% às orientações tradicionais.
Entretanto, pacientes com síndrome do desconforto pós-prandial ou inchaço apresentaram resposta mais favorável à abordagem de baixo teor de FODMAPs.
Isso ajuda a definir um perfil em que a intervenção pode fazer mais sentido: o paciente cuja queixa predominante é ficar estufado e excessivamente cheio depois de comer.
Também reforça um princípio importante: uma intervenção alimentar não precisa ser superior para todos para ser útil em um subgrupo específico.
Trigo e glúten também entraram na discussão
A revisão sistemática de 2025 também destaca estudos que investigaram trigo e glúten em pacientes com sintomas dispépticos.
Essa questão é complexa porque o trigo fornece mais do que glúten. Ele também contém frutanos, que pertencem aos FODMAPs. Portanto, quando uma pessoa melhora retirando trigo, não é automaticamente possível saber se o componente problemático era o glúten, os frutanos ou outra característica da alimentação.
Esse mesmo problema aparece no estudo de eliminação de 2026: retirar trigo melhorou o conjunto de pacientes, mas trigo foi retirado junto com outros cinco grupos alimentares.
E a dieta mediterrânea?
A revisão de 2025 encontrou um dos sinais mais favoráveis no padrão mediterrâneo.
Em um estudo observacional italiano com 1.134 participantes, alta adesão à dieta mediterrânea foi associada a menor probabilidade de dispepsia funcional.
A razão de chances foi de 0,41. Na análise da revisão, a diferença correspondeu a aproximadamente 151 casos a menos para cada mil pessoas comparando maior e menor adesão.
Entre os estudos observacionais da revisão, esse foi o único considerado de baixo risco de viés, e a certeza do resultado foi classificada como moderada.
Mas os dados não são totalmente uniformes.
Outro estudo sobre adesão à dieta mediterrânea e características gastrointestinais encontrou pequenas associações com maior pontuação de dor abdominal e inchaço. Nesse caso, porém, a certeza da evidência foi considerada muito baixa.
Assim, existe um sinal razoavelmente favorável ao padrão mediterrâneo, mas ainda não é possível classificá-lo como tratamento comprovado para dispepsia funcional.
Vegetarianismo e veganismo: estudos apontam em direções opostas
A situação fica ainda mais clara quando são analisadas dietas vegetarianas.
Um estudo observacional de 2018 encontrou redução de plenitude e inchaço entre pessoas que haviam migrado para dietas vegetarianas ou veganas.
Os números pareciam grandes, mas a revisão classificou a certeza dessa evidência como muito baixa.
Em sentido contrário, um estudo realizado em uma comunidade rural da Índia encontrou maior probabilidade de dispepsia entre vegetarianos quando comparados aos não vegetarianos.
A razão de chances ajustada foi de 5,8, mas com intervalo de confiança amplo e, novamente, evidência classificada como de certeza muito baixa.
Esses dois resultados praticamente opostos mostram por que seria inadequado afirmar simplesmente que "comer plantas melhora a dispepsia" ou que "comer plantas causa dispepsia".
Em 2024, dispepsia apareceu numericamente mais entre vegetarianos e veganos
Outro estudo ajuda a colocar essa questão em perspectiva.
Em 2024, Liptak e colaboradores publicaram no European Journal of Gastroenterology & Hepatology o estudo Symptoms of functional dyspepsia and irritable bowel syndrome among medical students in Slovakia and their relation to diet and exercise.
Foram avaliados 1.061 estudantes de medicina, com idade média de aproximadamente 23 anos. Sintomas compatíveis com dispepsia funcional apareceram em 13% da amostra.
A prevalência relativa de dispepsia foi visualmente maior entre vegetarianos e veganos do que entre aqueles que não seguiam uma dieta específica.
Mas há um detalhe decisivo: essa diferença não foi estatisticamente significativa.
Portanto, o estudo não demonstra que vegetarianismo ou veganismo causem dispepsia.
Curiosamente, maior frequência de atividade física apresentou uma associação mais consistente com menor prevalência de sintomas de dispepsia funcional.
E uma alimentação praticamente sem carboidratos fermentáveis?
Existe uma observação preliminar interessante, mas muito distante do nível de evidência necessário para uma recomendação.
Um relato de seis pacientes com supercrescimento bacteriano do intestino delgado, ou SIBO, avaliou uma dieta sem carboidratos e sem fibras, composta por alimentos de origem animal, durante duas a seis semanas.
Cinco pacientes que permaneceram na intervenção durante pelo menos quatro semanas apresentaram posteriormente teste respiratório negativo para SIBO. A sexta participante, que realizou apenas duas semanas, apresentou redução quase completa da elevação de hidrogênio.
Os autores também relataram melhora dos problemas gastrointestinais.
O resultado é interessante porque reduzindo praticamente todo carboidrato e toda fibra também se reduz drasticamente a quantidade de substrato fermentável disponível para as bactérias.
Mas há várias razões para não extrapolar:
- eram apenas seis pacientes;
- não havia grupo de controle;
- o diagnóstico estudado era SIBO, não dispepsia funcional;
- o trabalho foi disponibilizado como preprint, sem revisão por pares;
- não responde sobre segurança ou eficácia de longo prazo.
Portanto, esse relato não demonstra que dieta carnívora trate dispepsia funcional. Ele apenas fornece uma observação preliminar coerente com a hipótese de que, em alguns quadros dominados por fermentação, reduzir fortemente o substrato fermentável pode alterar sintomas e produção de gases.
A discussão sobre comida, fermentação e dispepsia é muito mais antiga
A relação entre alimentação e sintomas dispépticos não começou com os FODMAPs.
No século XIX, médicos já descreviam plenitude, distensão, gases e desconforto depois das refeições e tentavam compreender por que determinados alimentos eram tolerados por algumas pessoas e mal tolerados por outras.
Essas obras têm valor histórico, mas não devem ser confundidas com evidência clínica moderna. Os conceitos de microbiologia, imunologia, motilidade e doenças gastrointestinais eram muito diferentes dos atuais.
Em 1885, a retenção de amidos e açúcares já era relacionada a fermentação e gases
No A System of Practical Medicine, editado por William Pepper, Samuel G. Armor escreveu um capítulo sobre doenças funcionais e inflamatórias do estômago.
A descrição daquilo que chamava de dispepsia funcional incluía sintomas que continuam familiares: sensação de plenitude e distensão depois das refeições, desconforto durante a digestão, alteração do apetite, eructações ácidas, flatulência, regurgitação, náusea e, às vezes, vômito.
Armor relacionava alguns quadros à redução da movimentação gastrointestinal e à permanência prolongada do alimento no estômago. Dentro da fisiologia disponível na época, acreditava que alimentos açucarados e ricos em amido retidos por muito tempo poderiam entrar em fermentação e produzir eructações ácidas e gosto azedo.
A explicação não corresponde integralmente à fisiologia moderna, mas chama atenção a associação clínica entre retenção, carboidratos, fermentação, gases e sintomas.
Em determinados tipos de dispepsia descritos naquele tratado, aparecia inclusive a recomendação de uma alimentação animal bem selecionada. Isso não deve ser transformado em prova de eficácia; mostra apenas que dietas com maior participação de alimentos de origem animal já faziam parte das estratégias médicas utilizadas em alguns pacientes dispépticos.
Salisbury levou a hipótese alimentar a um extremo
Em 1888, James Henry Salisbury publicou The Relation of Alimentation and Disease.
Salisbury realizou experimentos alimentares que seriam considerados metodologicamente inadequados pelos padrões atuais. Pequenos grupos de pessoas passavam períodos ingerindo dietas extremamente restritas, muitas vezes centradas em um único alimento.
Em experimentos com aveia, feijões e biscoitos de farinha utilizados em rações militares, Salisbury registrou sintomas como distensão, flatulência, constipação, desconforto abdominal e mal-estar.
Esses experimentos não demonstram que aveia, feijão ou trigo provoquem dispepsia na população. Não havia randomização adequada, cegamento, controles modernos ou uma dieta comparável ao consumo habitual.
O interesse histórico está na pergunta que Salisbury tentava responder: alimentos diferentes produziriam graus diferentes de fermentação e desconforto digestivo?
Carne bovina ocupava uma posição diferente no sistema de Salisbury
Aqui existe um detalhe importante que impede uma leitura superficial de sua obra.
Salisbury afirmou que seus experimentos com carne mostravam que carne bovina e carneiro poderiam ser consumidos exclusivamente durante muito mais tempo do que os produtos vegetais que havia testado.
Ele relatou pacientes que, segundo sua própria experiência clínica, teriam permanecido essencialmente com carne bovina durante três a quatro anos antes que pães e vegetais voltassem à alimentação.
Salisbury chegou a colocar carne bovina fresca e carneiro no topo de sua classificação de alimentos favoráveis à saúde.
Essas afirmações são relatos de 1888 e não equivalem a estudos clínicos controlados. Ainda assim, são importantes para compreender corretamente o que ele escreveu.
O que Salisbury realmente chamava de "meat dyspepsia"
Logo depois de elogiar carne bovina e carneiro, Salisbury fazia uma distinção.
Ele colocava ovos, peixe, carne suína, vitela, frango, peru e caça em uma categoria secundária, descrevendo-os como alimentos que poderiam ser consumidos isoladamente durante um período limitado.
Segundo Salisbury, quando esses alimentos fossem mantidos sozinhos por tempo excessivo ou continuamente em proporção exagerada, poderiam eventualmente provocar aquilo que chamou de meat dyspepsia, ou "dispepsia da carne".
Portanto, seria impreciso resumir sua posição dizendo simplesmente que "Salisbury descobriu que carne causa dispepsia".
Na própria passagem em que define a chamada meat dyspepsia, carne bovina e carneiro haviam acabado de ser tratados separadamente e elogiados para uso prolongado. O alerta vinha depois, especificamente na discussão sobre ovos, peixes, porco, vitela, aves e caça.
Como Salisbury descrevia a "dispepsia da carne"
A descrição dos sintomas era bastante detalhada.
Ela incluía:
- desconforto na região do estômago;
- pressão e sensação de peso;
- sensação semelhante a uma "bola na garganta";
- eructações e expulsão de gases;
- gás com gosto ou odor que ele comparava a "ovos podres";
- náusea ou mal-estar;
- fraqueza;
- perda do apetite;
- sensação intensa de calor e confusão na cabeça.
Em linguagem atual, parte dessa descrição lembra sintomas que podem acompanhar distúrbios gastrointestinais superiores: plenitude, pressão epigástrica, eructação, náusea e perda de apetite.
Mas a expressão meat dyspepsia de Salisbury não corresponde a um diagnóstico moderno de dispepsia funcional. Os critérios atuais, a fisiopatologia e os métodos diagnósticos simplesmente não existiam em 1888.
O próprio tratamento proposto por Salisbury mostra a distância entre as duas épocas. Ele recomendava suspender temporariamente toda alimentação oral, utilizar alimentação retal enquanto o estômago era "lavado" e depois reiniciar pequenas quantidades de polpa de carne bovina e alimentos à base de pão.
Esse protocolo pertence à medicina do século XIX e não corresponde ao tratamento atual.
William Osler também defendia olhar para quantidade e tolerância individual
Na primeira edição de 1892 de The Principles and Practice of Medicine, William Osler também dedicou atenção importante à alimentação nos quadros então classificados como gastrite crônica e dispepsia.
Osler citava entre os problemas alimentares comer depressa, mastigar mal, comer em excesso, fazer refeições irregulares e consumir alimentos inadequados à capacidade digestiva do indivíduo.
Nos pacientes com eructações ácidas e flatulência, orientava reduzir alguns alimentos farináceos e desaconselhava produtos como pães muito quentes, panquecas, doces pesados, frituras e excesso de alimentos muito gordurosos.
Mais importante do que a lista, porém, era sua ressalva: não seria possível criar regras alimentares rígidas aplicáveis a todos porque a capacidade de digestão e tolerância variava entre indivíduos.
Essa ideia sobrevive muito melhor ao teste do tempo do que várias explicações fisiológicas da época.
Então qual perfil alimentar parece piorar a dispepsia?
Quando evidências modernas e observações históricas são colocadas em seus devidos níveis de importância, alguns padrões começam a aparecer.
1. Grande carga de fibras pode piorar plenitude e inchaço
O dado mais direto vem dos ensaios DASH: aumentar substancialmente fibras foi acompanhado por mais inchaço e sensação desconfortável de estômago cheio.
Isso é particularmente relevante para pacientes com síndrome do desconforto pós-prandial, nos quais plenitude e saciedade precoce já são problemas centrais.
2. Grande quantidade de alimentos fermentáveis pode ser mal tolerada
Feijões, determinadas leguminosas, trigo e vários outros alimentos vegetais podem fornecer FODMAPs. Em pessoas sensíveis, uma dieta com grande carga desses substratos pode aumentar gases e distensão.
Isso ajuda a explicar por que a versão "rica em proteína" da DASH produziu mais inchaço sem que seja possível culpar a proteína: parte importante da proteína vinha exatamente de alimentos vegetais ricos em FODMAPs.
3. Aumento abrupto de determinados alimentos pode ser diferente de consumo habitual
Uma pessoa adaptada a 10 ou 15 gramas de fibras por dia pode responder de maneira diferente quando a alimentação passa rapidamente para mais de 30 gramas.
Portanto, estudos de intervenção devem ser interpretados levando em conta não apenas o que foi consumido, mas quanto mudou em relação à alimentação anterior.
4. Alimentos específicos podem funcionar como gatilhos individuais
O estudo de 2026 é compatível com essa possibilidade. Retirar seis grupos alimentares simultaneamente melhorou os sintomas, mas ainda não se sabe qual deles era importante para cada paciente.
Por isso, uma dieta de eliminação funciona melhor como ferramenta de investigação quando é seguida por reintrodução organizada.
5. Refeições muito grandes também podem ser problemáticas
A lógica é especialmente relevante para quem sofre de plenitude pós-prandial e saciedade precoce. Quanto maior o volume consumido de uma vez, maior pode ser o desafio para um sistema gastrointestinal já sensível à distensão.
Esse princípio aparece repetidamente na literatura clínica sobre dispepsia e também nas antigas observações de Osler sobre excesso alimentar.
E qual perfil alimentar parece favorecer melhora?
As evidências disponíveis apontam menos para uma "dieta perfeita" e mais para algumas características.
1. Menos alimentos que comprovadamente desencadeiam sintomas naquele indivíduo
O estudo de 2026 mostra que uma eliminação ampla pode produzir melhora. O passo seguinte, porém, deveria ser descobrir quais restrições são realmente necessárias.
2. Menor carga fermentável quando gases e inchaço predominam
O ensaio randomizado com baixo teor de FODMAPs mostra que essa abordagem pode ser especialmente interessante no perfil dominado por síndrome do desconforto pós-prandial e inchaço.
3. Quantidade de fibras compatível com a tolerância
Mais fibra não significa automaticamente melhor digestão. Para algumas pessoas, aumentar fibras gradualmente pode ser bem tolerado; para outras, uma quantidade elevada mantém inchaço e plenitude.
4. Menos complexidade pode facilitar a identificação dos gatilhos
Quanto mais ingredientes e alimentos diferentes são consumidos simultaneamente, mais difícil se torna descobrir o que desencadeia um sintoma.
Uma fase temporária de alimentação mais simples pode servir como investigação, desde que não seja confundida com necessidade de restrição permanente.
5. O padrão mediterrâneo apresenta um sinal favorável, mas não definitivo
Entre os padrões alimentares completos estudados, maior adesão mediterrânea apresentou uma das associações mais favoráveis com menor probabilidade de dispepsia funcional. Como o principal resultado vem de dados observacionais, ainda faltam ensaios controlados que comprovem causalidade.
Animal ou vegetal: essa divisão não explica a dispepsia
O conjunto da evidência não permite resolver a questão dividindo o prato simplesmente entre alimentos de origem animal e vegetal.
No estudo de eliminação de 2026, foram retirados alimentos vegetais — trigo, soja e oleaginosas — e também alimentos de origem animal — leite, ovos e frutos do mar.
Na revisão de 2025, dietas DASH ricas em alimentos vegetais e fibras aumentaram inchaço, mas o padrão mediterrâneo apresentou uma associação potencialmente protetora.
Os estudos de vegetarianismo e veganismo são contraditórios e de baixa certeza. E o pequeno relato com dieta exclusivamente animal envolve SIBO, apenas seis pacientes e nenhuma comparação controlada.
Até Salisbury, frequentemente lembrado por sua defesa da carne bovina, não colocava todos os alimentos animais no mesmo grupo e descreveu um quadro ao qual deu o nome de meat dyspepsia.
Portanto, a divisão que parece mais útil é outra: alimentos e refeições bem tolerados versus alimentos e refeições que reproduzem os sintomas naquele paciente.
Uma tabela simples do que as evidências sugerem
| Perfil alimentar | O que foi observado | Força da evidência |
|---|---|---|
| Dieta de eliminação de seis alimentos | Grande melhora dos sintomas em pacientes com dispepsia funcional refratária ao IBP | Promissora, mas estudo pequeno e sem grupo de controle com dispepsia |
| Dieta de baixo teor de FODMAPs | Melhora dos sintomas; possível vantagem principalmente em PDS e inchaço | Ensaio clínico randomizado, mas não superior globalmente à orientação tradicional |
| DASH com alta quantidade de fibras | Mais inchaço e plenitude | Moderada para esses sintomas, mas participantes não eram selecionados por dispepsia funcional |
| DASH rica em proteína vegetal | Mais inchaço | Moderada para o sintoma; não prova que proteína seja a causa |
| DASH rica em gordura insaturada | Mais inchaço comparada à alimentação basal | Moderada no contexto específico do ensaio |
| Padrão mediterrâneo | Um estudo de melhor qualidade encontrou menor probabilidade de dispepsia | Sinal favorável, principalmente observacional |
| Vegetariana ou vegana | Resultados conflitantes entre os estudos | Muito baixa |
| Dieta carnívora em SIBO | Normalização do teste respiratório em cinco de seis casos após pelo menos quatro semanas | Muito baixa; preprint, sem controle e não estudou dispepsia funcional |
O que não se pode concluir
A literatura disponível não permite afirmar que:
- toda fibra seja ruim para dispepsia;
- todo carboidrato provoque fermentação problemática;
- gordura seja necessariamente a causa dos sintomas;
- proteína animal cause dispepsia;
- uma dieta vegetariana previna dispepsia;
- uma dieta vegetariana cause dispepsia;
- uma dieta carnívora seja tratamento comprovado para dispepsia funcional;
- os seis alimentos retirados no estudo de 2026 precisem ser excluídos permanentemente.
Essas conclusões iriam além do que os estudos demonstram.
Em resumo
A evidência mais recente reforça que a alimentação realmente importa na dispepsia funcional, mas não existe uma receita universal.
Em 2026, quatro semanas de uma dieta que eliminou leite, trigo, soja, ovos, oleaginosas e frutos do mar, associada ao tratamento com IBP, produziram uma redução expressiva dos sintomas em pacientes que não respondiam adequadamente ao medicamento. O estudo é promissor, mas pequeno e sem um grupo de pacientes com dispepsia usado como controle.
Uma revisão sistemática de 2025 mostrou que dietas DASH com grande quantidade de fibras aumentaram inchaço e plenitude. Uma versão rica em proteína também aumentou inchaço, mas a proteína adicional vinha principalmente de alimentos vegetais ricos em FODMAPs, impedindo que o efeito seja atribuído à proteína em si.
Uma dieta de baixo teor de FODMAPs apresentou resultados particularmente interessantes para pacientes com inchaço e síndrome do desconforto pós-prandial.
O padrão mediterrâneo apresenta um sinal favorável, enquanto os dados sobre vegetarianismo e veganismo permanecem contraditórios e de baixa certeza.
Dados sobre dieta carnívora são insuficientes para dispepsia funcional. O pequeno relato de SIBO é interessante para discutir redução de substratos fermentáveis, mas não pode ser convertido em evidência de tratamento da dispepsia.
As antigas observações de Armor, Salisbury e Osler não possuem o peso de ensaios clínicos modernos, mas mostram que quantidade, fermentação, simplicidade da alimentação e tolerância individual já estavam no centro da discussão sobre dispepsia há mais de um século.
Conclusão
A pergunta mais útil para a dispepsia funcional talvez não seja se uma dieta é classificada como saudável, vegetariana, mediterrânea, low carb ou carnívora. A pergunta é se aquela composição alimentar é bem tolerada pelo paciente e se seus efeitos podem ser reproduzidos quando os alimentos são retirados e reintroduzidos.
O perfil que mais tende a piorar os sintomas é aquele que, naquele indivíduo, gera excesso de plenitude, distensão e fermentação. Para algumas pessoas, isso pode acontecer com uma grande carga de fibras e FODMAPs; para outras, determinados alimentos específicos, refeições volumosas ou outras características da dieta serão mais importantes.
O perfil que parece mais promissor é uma alimentação individualizada, suficientemente simples para identificar os gatilhos, com quantidade de fibras e fermentáveis compatível com a tolerância e sem restrições além das necessárias.
Em vez de presumir que determinado alimento é culpado apenas por pertencer a um grupo, a evidência favorece testar, observar e, quando apropriado, reintroduzir. Na dispepsia, o alimento considerado saudável no papel ainda precisa passar pelo teste mais básico: ser tolerado pelo sistema digestivo.
Fonte: https://doi.org/10.1016/j.clnesp.2026.105012
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