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Cetose como tratamento para transtornos mentais graves: uma revisão crítica de dados pré-clínicos e clínicos

Capa do estudo sobre cetose e dieta cetogênica no tratamento de transtornos mentais graves

A cetose e a dieta cetogênica estão sendo investigadas como possíveis estratégias complementares para transtornos mentais graves, incluindo depressão, transtorno bipolar e esquizofrenia. Uma revisão crítica publicada em 2026 avaliou não apenas as dietas cetogênicas, mas também outras formas de elevar os corpos cetônicos, como cetonas exógenas, triglicerídeos de cadeia média, jejum e alimentação com restrição de tempo.

A questão central era especialmente importante: os possíveis benefícios psiquiátricos observados com dietas cetogênicas seriam realmente provocados pela cetose ou poderiam resultar de outros efeitos da intervenção alimentar?

Os autores destacam que alterações no metabolismo energético, função mitocondrial, inflamação, estresse oxidativo e neurotransmissão são encontradas em diferentes transtornos psiquiátricos. Esse contexto fornece uma justificativa biológica para investigar intervenções metabólicas, mas uma justificativa mecanística não equivale a demonstrar eficácia clínica. :contentReference[oaicite:0]{index=0}

Como a revisão foi feita

Os pesquisadores realizaram uma busca no PubMed desde o início da base até 15 de abril de 2026. Foram procurados estudos envolvendo cetose, dieta cetogênica, cetonas exógenas, triglicerídeos de cadeia média e alimentação com restrição de tempo relacionados a esquizofrenia, transtorno bipolar e depressão maior.

A busca identificou 540 artigos, dos quais apenas 20 estudos preencheram os critérios da revisão. Relatos de caso e séries de casos foram excluídos, dando prioridade a estudos experimentais e ensaios clínicos com protocolos mais estruturados.

O que os estudos com dieta cetogênica encontraram

Os experimentos em animais produziram vários sinais favoráveis. Modelos de esquizofrenia apresentaram melhora de alterações relacionadas ao processamento de estímulos, comportamento social, memória de trabalho e hiperatividade. Em modelos de depressão também foram observadas mudanças compatíveis com efeito antidepressivo, além de redução de alguns marcadores inflamatórios.

Entretanto, esses resultados não demonstram que o mesmo efeito ocorra em seres humanos. Os estudos pré-clínicos utilizaram principalmente animais machos, apresentaram amostras relativamente pequenas e raramente investigaram adequadamente uma relação dose-resposta entre a concentração de corpos cetônicos e a melhora comportamental.

Nos estudos clínicos, a situação é mais interessante, mas também mais incerta.

Um estudo piloto envolvendo pessoas com esquizofrenia, transtorno esquizoafetivo ou transtorno bipolar encontrou melhora em medidas psiquiátricas e metabólicas após quatro meses de dieta contendo aproximadamente 60% das calorias provenientes de gordura, 30% de proteína e 10% de carboidratos. Também ocorreram reduções em peso corporal, triglicerídeos, hemoglobina glicada e estimativas de resistência à insulina.

O problema é que o estudo não possuía grupo controle. Dessa forma, não é possível determinar quanto da melhora foi consequência da dieta, da perda de peso, do acompanhamento clínico, de mudanças simultâneas no tratamento ou do efeito de expectativa dos participantes.

O único ensaio clínico randomizado trouxe um resultado mais cauteloso

Até a publicação da revisão, havia apenas um ensaio clínico randomizado avaliando uma dieta cetogênica em uma população com transtorno mental grave. O estudo incluiu 88 pessoas com depressão resistente ao tratamento e comparou uma dieta cetogênica com uma dieta-controle rica em fitoquímicos.

A dieta cetogênica produziu uma melhora adicional de aproximadamente 2,18 pontos no questionário PHQ-9 em relação ao grupo controle. No entanto, a diferença entre os grupos não atingiu significância estatística: p=0,05 em seis semanas e p=0,10 em 12 semanas.

Outro detalhe chama atenção. O próprio grupo controle apresentou redução média de aproximadamente 8,3 pontos no PHQ-9. Isso sugere que grande parte da melhora observada durante o estudo poderia estar relacionada a fatores compartilhados pelos dois grupos, como acompanhamento frequente, apoio nutricional e participação estruturada em uma intervenção clínica.

Mais cetose não significou necessariamente maior melhora

Um dos pontos mais importantes da revisão foi justamente a dificuldade de demonstrar que a concentração de corpos cetônicos explica a melhora psiquiátrica.

No ensaio randomizado de depressão resistente, as concentrações de cetonas não apresentaram associação significativa com as mudanças no PHQ-9. De maneira inesperada, participantes com níveis médios de cetonas abaixo de 1,5 mmol/L apresentaram melhora maior do que aqueles acima desse valor. Um padrão semelhante apareceu quando os pesquisadores utilizaram 4 mmol/L como ponto de comparação.

Outro estudo piloto de depressão também não encontrou relação entre o grau de cetose e a magnitude do benefício clínico.

Por outro lado, um pequeno estudo em pessoas com transtorno bipolar encontrou associação entre concentrações maiores de cetonas e melhores avaliações de humor e energia, além de menor impulsividade e ansiedade. Os participantes, porém, estavam eutímicos no início do estudo, e muitos também perderam peso durante a intervenção.

Assim, os resultados clínicos disponíveis são inconsistentes quanto a uma possível relação entre mais corpos cetônicos e maior benefício psiquiátrico.

A dieta pode agir por mecanismos além da cetose

A ausência de uma relação consistente entre cetonas e sintomas não significa que a dieta cetogênica necessariamente seja ineficaz. Ela sugere que seus possíveis efeitos podem envolver mecanismos adicionais.

Entre as possibilidades discutidas pelos autores estão alterações na inflamação, neurotransmissão, metabolismo cerebral e microbioma intestinal. Estudos experimentais mostram, por exemplo, que a dieta cetogênica modifica a microbiota intestinal. Em um modelo animal de esquizofrenia, a transferência da microbiota de animais alimentados com dieta cetogênica para outros animais melhorou alterações relacionadas ao processamento sensorial.

Esse tipo de resultado levanta uma questão importante: a dieta cetogênica produz diversas mudanças metabólicas simultaneamente, tornando difícil atribuir eventuais benefícios exclusivamente ao beta-hidroxibutirato ou à cetose.

E cetonas exógenas e triglicerídeos de cadeia média?

Cetonas exógenas conseguem elevar rapidamente o beta-hidroxibutirato no sangue, e estudos experimentais encontraram efeitos antidepressivos e anti-inflamatórios em animais. Apesar disso, a revisão não encontrou ensaios clínicos testando suplementos de cetonas em pessoas com transtornos mentais graves.

A situação é semelhante para os triglicerídeos de cadeia média. Eles podem favorecer a produção de corpos cetônicos e existem estudos indicando possíveis efeitos cognitivos em outras populações, mas não havia estudos clínicos adequados em esquizofrenia, depressão grave ou transtorno bipolar.

Portanto, não existe base clínica suficiente para considerar esses suplementos substitutos comprovados de uma dieta cetogênica em psiquiatria.

Jejum e alimentação com restrição de tempo

O jejum também aumenta a produção de corpos cetônicos, mas a revisão não identificou ensaios clínicos avaliando diretamente seus efeitos em pessoas com transtornos mentais graves.

Estudos conduzidos em outras populações produziram resultados mistos. Um protocolo de jejum de 24 horas por semana durante oito semanas não melhorou significativamente ansiedade, depressão ou bem-estar em comparação com o grupo controle. Em outro experimento, um jejum diurno de dez horas chegou a piorar o humor entre mulheres com obesidade.

A alimentação com restrição de tempo pode produzir cetose modesta e apresenta efeitos metabólicos interessantes, mas ainda não foi demonstrado que a cetose seja responsável por eventuais benefícios sobre saúde mental.

O que isso significa na prática

A revisão mostra um campo de pesquisa em rápido desenvolvimento, mas ainda muito distante de uma conclusão definitiva. Existem sinais clínicos e pré-clínicos favoráveis à terapia cetogênica, especialmente em estudos pequenos e não controlados, porém a qualidade da evidência permanece limitada.

Também não está demonstrado que a cetose seja o principal mecanismo responsável pelos resultados observados. Perda de peso, melhora metabólica, mudanças no microbioma, alterações inflamatórias, suporte clínico intensivo e efeito de expectativa são potenciais fatores de confusão.

Os próprios autores ressaltam que nenhuma intervenção destinada a induzir cetose estava, naquele momento, aprovada ou recomendada especificamente como tratamento para transtornos mentais graves.

Limitações da evidência atual

A principal limitação é a escassez de ensaios clínicos randomizados. Grande parte dos resultados favoráveis vem de estudos piloto sem grupo controle, com poucos participantes e possibilidade relevante de viés de expectativa.

Os protocolos de dieta cetogênica também variam bastante entre os estudos, dificultando comparações. Alguns alteraram a proporção de macronutrientes durante a intervenção, enquanto outros utilizaram formulações próprias que não correspondem exatamente às versões clássicas da dieta cetogênica.

Outro problema é a adesão. No ensaio randomizado de depressão, as refeições eram fornecidas aos participantes para facilitar o cumprimento da dieta. Depois que essa estrutura foi retirada, a adesão à alimentação cetogênica caiu rapidamente.

Futuros estudos precisarão avaliar não apenas se a intervenção funciona em condições altamente controladas, mas também se consegue ser mantida na vida cotidiana.

Em resumo

A evidência disponível em 2026 sugere que dietas cetogênicas podem produzir benefícios psiquiátricos e metabólicos em alguns pacientes, mas ainda não existe evidência clínica robusta suficiente para estabelecer sua eficácia como tratamento dos transtornos mentais graves avaliados.

Mais importante, a hipótese de que a cetose seja o mecanismo central desses efeitos permanece sem comprovação. O ensaio clínico randomizado disponível não encontrou associação entre concentrações maiores de cetonas e maior melhora da depressão, enquanto estudos não controlados produziram resultados heterogêneos.

Conclusão

A revisão não descarta a psiquiatria metabólica nem a dieta cetogênica. Pelo contrário, identifica sinais suficientemente interessantes para justificar estudos maiores e melhor controlados. Entretanto, também mostra que a distância entre resultados preliminares promissores e uma terapia psiquiátrica estabelecida ainda é considerável.

Ensaios randomizados maiores deverão esclarecer se a dieta cetogênica realmente oferece benefício adicional ao tratamento convencional, quais pacientes respondem melhor, quanto tempo os efeitos persistem e, principalmente, se é a própria cetose ou alguma das muitas alterações metabólicas produzidas pela dieta que explica os resultados.

Fonte: https://doi.org/10.1007/s40501-026-00394-z
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