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Dieta cetogênica na psoríase e nas artrites inflamatórias: o que a evidência mostra

Ilustração sobre dieta cetogênica, psoríase e inflamação articular, representando as evidências avaliadas pela revisão

Uma dieta cetogênica pode ajudar na psoríase e na artrite psoriásica, especialmente quando essas condições estão acompanhadas de obesidade ou alterações metabólicas. Entretanto, os estudos clínicos ainda são pequenos, curtos e não conseguem separar adequadamente os efeitos da cetose daqueles provocados pela perda de peso.

Essa é a principal conclusão de uma revisão de escopo aceita em 2026 pela revista científica Autoimmunity Reviews. O trabalho avaliou evidências clínicas e mecanísticas sobre dieta cetogênica na artrite reumatoide, na psoríase e na artrite psoriásica.

O que foi estudado

A revisão analisou dietas cetogênicas convencionais e dietas cetogênicas de muito baixa caloria, conhecidas pela sigla VLCKD.

Essas estratégias reduzem intensamente o consumo de carboidratos e induzem a produção de corpos cetônicos, principalmente o beta-hidroxibutirato. Além de fornecer energia, essa molécula participa de mecanismos celulares relacionados à inflamação, ao estresse oxidativo e ao funcionamento do sistema imunológico.

Os pesquisadores realizaram buscas no MEDLINE/PubMed, Embase, ClinicalTrials.gov e no registro internacional de ensaios clínicos da Organização Mundial da Saúde. Foram considerados estudos publicados desde o início das bases até 30 de julho de 2025.

A revisão procurou separar três tipos de evidência:

  • estudos clínicos com dieta cetogênica propriamente dita;
  • pesquisas mecanísticas realizadas em células, animais ou tecidos;
  • estudos próximos da cetose, como jejum ou uso de triglicerídeos de cadeia média, mas que não representavam uma dieta cetogênica completa.

Essa separação é importante porque jejum, restrição calórica e alimentação com poucos carboidratos podem produzir alterações metabólicas semelhantes sem necessariamente constituírem uma intervenção cetogênica bem definida.

Os resultados mais consistentes apareceram na doença psoriásica

A evidência clínica mais favorável foi encontrada em pessoas com psoríase ou artrite psoriásica, sobretudo quando também apresentavam excesso de peso, resistência à insulina ou maior risco cardiovascular.

Em um ensaio cruzado randomizado, 16 pessoas com obesidade, psoríase e artrite psoriásica seguiram uma dieta cetogênica durante oito semanas e uma dieta mediterrânea durante outras oito semanas, com intervalo de seis semanas entre as intervenções.

Durante a fase cetogênica, ocorreram reduções nos índices de atividade da artrite psoriásica e de gravidade da psoríase. Também diminuíram as concentrações de interleucina-6, interleucina-17 e interleucina-23, moléculas envolvidas nos processos inflamatórios dessas doenças.

Ao mesmo tempo, houve redução de peso, circunferência abdominal e massa de gordura. Como o estudo incluiu apenas 16 participantes, durou poucas semanas e não foi mascarado, não é possível atribuir os resultados exclusivamente à cetose.

Outro estudo acompanhou 20 pessoas com artrite psoriásica e excesso de peso durante nove semanas de dieta cetogênica de muito baixa caloria.

A pontuação mediana de atividade da doença caiu 6,1 pontos. Também foram observadas melhoras em diferentes manifestações da artrite psoriásica, com exceção da entesite, inflamação que ocorre no ponto de ligação entre tendões ou ligamentos e os ossos.

Os participantes perderam aproximadamente 10 quilos e apresentaram melhora na resistência à insulina, nos lipídios sanguíneos e no risco cardiovascular calculado. A própria redução do índice de massa corporal esteve correlacionada com a diminuição da atividade da doença.

Esse resultado sugere que parte relevante do benefício pode ter vindo da perda de gordura corporal, e não necessariamente de um efeito específico dos corpos cetônicos.

Dieta cetogênica e psoríase

Um estudo aberto acompanhou 37 pessoas com psoríase em placas, sobrepeso ou obesidade, que ainda não utilizavam medicamentos sistêmicos.

A intervenção começou com quatro semanas de dieta cetogênica de muito baixa caloria e prosseguiu com uma fase hipocalórica semelhante à dieta mediterrânea.

Foram relatadas reduções expressivas na gravidade da psoríase e melhora na qualidade de vida. Também diminuíram a interleucina-1 beta e a interleucina-2.

O estudo, porém, não possuía grupo de controle. Além disso, a dieta combinava restrição de carboidratos com forte redução calórica e perda de peso. Portanto, não há como determinar qual componente produziu a melhora.

Uma pesquisa preliminar adicional comparou dieta cetogênica e mediterrânea durante quatro semanas em pessoas com doença psoriásica. Os resultados foram considerados exploratórios porque a amostra era pequena e as informações disponíveis eram limitadas.

Por que a cetose poderia reduzir a inflamação

O mecanismo mais discutido envolve o beta-hidroxibutirato, principal corpo cetônico presente no sangue durante a cetose nutricional.

Experimentos indicam que essa molécula pode inibir o inflamassoma NLRP3, um complexo celular envolvido na produção das citocinas inflamatórias interleucina-1 beta e interleucina-18.

A cetose também pode influenciar:

  • as vias do fator de necrose tumoral alfa e da interleucina-6;
  • o eixo interleucina-23 e células Th17, importante na psoríase;
  • o metabolismo energético dos linfócitos e macrófagos;
  • a produção de espécies reativas de oxigênio;
  • a função das mitocôndrias;
  • a comunicação entre microbiota intestinal, pele e articulações.

Esses mecanismos são biologicamente plausíveis, mas não demonstram, por si mesmos, que a dieta cetogênica trate doenças autoimunes em seres humanos. Grande parte dessas informações vem de estudos celulares, animais ou pesquisas realizadas em outras condições clínicas.

A perda de peso dificulta a interpretação

Obesidade, resistência à insulina e alterações metabólicas são frequentes na psoríase e na artrite psoriásica. O tecido adiposo produz substâncias inflamatórias, enquanto o excesso de peso aumenta a carga mecânica sobre articulações e estruturas como tendões e enteses.

Por esse motivo, a perda de gordura corporal pode reduzir a inflamação sistêmica, melhorar a resposta aos medicamentos e diminuir sintomas articulares independentemente da cetose.

Nos estudos avaliados, a dieta cetogênica quase sempre produziu perda rápida de peso. Isso transforma o emagrecimento simultaneamente em possível benefício e importante fator de confusão.

Para identificar um efeito específico dos corpos cetônicos, seriam necessários estudos que comparassem dietas com o mesmo déficit calórico e perdas de peso semelhantes, mantendo como principal diferença a presença ou ausência de cetose.

E quanto à artrite reumatoide?

Na artrite reumatoide, a evidência é consideravelmente mais fraca.

Um estudo publicado em 2000 avaliou jejum e exposição cetogênica por curto período, encontrando alterações em interleucina-6 e sintomas. Entretanto, a duração foi insuficiente para representar uma intervenção cetogênica prolongada.

O estudo MIKARA investigou cetose induzida por triglicerídeos de cadeia média combinados com fibras. Os resultados iniciais sugeriram possíveis mudanças na atividade da artrite reumatoide, mas a intervenção não equivale a uma dieta cetogênica completa.

Existe ainda um ensaio clínico registrado chamado KETORA, destinado a avaliar uma dieta cetogênica em pessoas com artrite reumatoide. A revisão não apresentou resultados concluídos desse estudo.

Assim, não há base clínica suficiente para afirmar que a dieta cetogênica reduza a atividade da artrite reumatoide.

Limitações da revisão

O trabalho é uma revisão de escopo, utilizada principalmente para mapear a literatura disponível. Não se trata de uma revisão sistemática com meta-análise.

Os autores não realizaram avaliação formal do risco de viés nem classificaram a certeza das evidências. Os estudos incluídos também apresentam amostras pequenas, intervenções curtas, protocolos diferentes e monitoramento incompleto da cetose.

A revisão informa ter retido 29 estudos humanos diretos. Entretanto, as tabelas clínicas específicas detalham apenas poucos estudos centrais sobre psoríase, artrite psoriásica e artrite reumatoide. Essa diferença dificulta interpretar a contagem de 29 estudos como se representasse 29 ensaios clínicos robustos e independentes.

Além disso, o artigo consultado é uma versão de pré-publicação aceita pela revista, ainda sujeita a revisão editorial, diagramação e possíveis correções antes da versão definitiva.

O que isso significa na prática

A dieta cetogênica apresenta um sinal clínico interessante para pessoas com psoríase ou artrite psoriásica associadas a obesidade e alterações metabólicas.

Ainda assim, ela deve ser considerada uma possível estratégia complementar, e não um tratamento comprovado ou um substituto para medicamentos modificadores da doença, terapias biológicas ou acompanhamento dermatológico e reumatológico.

A evidência atual permite formular uma hipótese promissora, mas não estabelecer eficácia. Estudos futuros precisam ter maior número de participantes, duração mínima de 24 semanas, confirmação da cetose por beta-hidroxibutirato e grupos de comparação com ingestão calórica e perda de peso equivalentes.

Somente esse tipo de desenho poderá esclarecer quanto da melhora decorre da redução de carboidratos, da produção de corpos cetônicos, da perda de gordura corporal ou da combinação desses fatores.

Fonte: https://doi.org/10.1016/j.autrev.2026.104137

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