A alimentação de origem animal ocupava papel central em várias recomendações médicas do século XIX. No livro The Principles and Practice of Medicine, publicado em 1892, William Osler citou carnes, peixes, ovos, leite, manteiga, caldos, sucos de carne e óleo de fígado de bacalhau em diferentes condições, como diabetes, tuberculose, dispepsia, febre tifoide, gota, obesidade, raquitismo, escorbuto e doenças renais.
Essa observação não significa que Osler recomendasse uma dieta carnívora estrita para todas essas doenças. O ponto histórico mais importante é outro: alimentos de origem animal eram tratados como recursos terapêuticos legítimos, seja para reduzir carboidratos, facilitar a digestão, sustentar pacientes debilitados, aumentar a nutrição ou permitir alimentação em estados graves.
O que foi analisado
A análise parte de trechos dietéticos do livro The Principles and Practice of Medicine, de William Osler, uma das obras médicas mais influentes do fim do século XIX. O objetivo não é transformar recomendações de 1892 em prescrição atual, mas mostrar como a medicina clássica usava alimentos de origem animal em contextos clínicos variados.
Naquele período, a medicina ainda não contava com antibióticos, insulina moderna, nutrição enteral industrializada, exames laboratoriais amplos ou ensaios clínicos como os atuais. Por isso, dieta, repouso, higiene, clima, banhos, caldos, leite, ovos e carnes ocupavam espaço muito maior no tratamento.
Diabetes mellitus: reduzir carboidratos ao mínimo
No capítulo sobre diabetes mellitus, Osler foi direto: os carboidratos da alimentação deveriam ser reduzidos ao mínimo. Ele citou Sydenham, que recomendava alimentos de fácil digestão, como vitela e carneiro, enquanto frutas e vegetais deveriam ser evitados.
A dieta permitida incluía peixes, carnes de açougue, aves, caça, ovos, manteiga, leitelho, coalhada e queijo cremoso. Também eram permitidos caldos claros, como bouillon e sopa de rabo de boi, além de leite em moderação.
Ao mesmo tempo, a dieta não era uma alimentação animal estrita no sentido moderno. Osler permitia alguns vegetais pobres em amido, frutas específicas, nozes e substitutos de pão, além de admitir que talvez fosse melhor não tentar a exclusão absoluta dos carboidratos. Portanto, a formulação mais fiel é: dieta muito baixa em carboidratos, de base predominantemente animal, mas não exclusivamente animal.
A lista de alimentos proibidos reforça a lógica: pães comuns, cereais, arroz, tapioca, semolina, araruta, sagu, vermicelli, batatas, milho, beterrabas, bebidas doces, cerveja e vinhos espumantes deveriam ser evitados. Para o diabetes, açúcar e amido eram vistos como problemas alimentares centrais.
Dispepsia com hiperacidez: a “dieta estritamente de carne”
O trecho mais próximo de uma dieta carnívora aparece no tratamento de dispepsia associada à hiperacidez. Osler escreveu que limitar o paciente a uma “dieta estritamente de carne” era um procedimento valioso em muitos casos.
A carne deveria ser consumida crua ou muito pouco cozida, finamente picada ou ralada. O plano era usado por cerca de um mês a seis semanas, com reintrodução gradual de outros alimentos depois.
No entanto, mesmo esse exemplo exige precisão. O cardápio descrito incluía carne, mas também pão amanhecido e manteiga. Portanto, a expressão “strictly meat diet” aparece no livro, mas o exemplo prático não corresponde exatamente a uma dieta carnívora moderna de carne e água. Ainda assim, o trecho mostra que uma intervenção fortemente centrada em carne era considerada recurso médico válido para certos quadros digestivos.
Tuberculose: leite, ovos, carne e gordura para sustentar o paciente
Na tuberculose, o foco dietético era melhorar o estado nutricional. Osler afirmava que o prognóstico dependia muito da digestão. Quando havia febre, náusea e perda de apetite, o paciente deveria permanecer em repouso, ficar ao ar livre e receber pequenas quantidades de leite, leitelho ou koumiss, alternadas, quando necessário, com suco de carne e albumina de ovo.
Em casos difíceis, Osler mencionava a alimentação forçada pelo método de Debove, com uma mistura de leite, ovo e carne finamente pulverizada. O objetivo era fornecer nutrição quando o paciente não conseguia comer adequadamente.
O óleo de fígado de bacalhau também aparecia como recurso para melhorar a nutrição, especialmente em tuberculose glandular e óssea. Quando não era tolerado, creme rico era citado como substituto. Aqui, novamente, o alimento de origem animal não aparece como ideologia dietética, mas como ferramenta para sustentar um organismo debilitado.
Febre tifoide: leite como base, caldos e ovos como suporte
No tratamento da febre tifoide, Osler dizia que a profissão havia demorado a aprender que a doença não deveria ser tratada principalmente por medicamentos. Cuidados de enfermagem e dieta regulada eram essenciais.
O leite era descrito como o alimento mais adequado, geralmente diluído. Quando não era bem tolerado, poderiam entrar caldos de carneiro ou frango, suco de carne, consommé, soro de leite, leitelho e ovos. A albumina de ovo misturada com água era especialmente útil para pacientes incapazes de tomar leite.
Mas havia cautela. Durante a convalescença, Osler preferia evitar alimentos sólidos por alguns dias após a normalização da febre. Ele relatou um caso em que costeletas de carneiro foram seguidas por colapso em um paciente ainda vulnerável. Assim, a febre tifoide mostra os dois lados da abordagem: alimentos animais eram úteis, mas a forma, o tempo e a tolerância importavam.
Diarreias infantis e cholera infantum: ovo, caldo e suco de carne
Em diarreias dispépticas de crianças alimentadas artificialmente, Osler recomendava, em muitos casos, retirar o leite temporariamente e alimentar a criança com albumina de ovo, caldos e suco de carne.
Ele descrevia a albumina de ovo como alimento estimulante e nutritivo, e o suco de carne como uma opção obtida de bife fresco, cru ou levemente grelhado. Caldos de carneiro, frango ou boi também eram mencionados.
O ponto central era digestibilidade. O alimento de origem animal era usado porque, na visão da época, poderia ser assimilado com menos perturbação intestinal em determinados quadros. As mesmas orientações gerais eram aplicadas também ao cholera infantum.
Úlcera péptica: leite, solução de carne, albumina de ovo e frango
No tratamento da úlcera gástrica e duodenal, Osler recomendava repouso absoluto e dieta cuidadosamente regulada. Entre os alimentos citados estavam a solução de carne de Leube, leite peptonizado, leitelho, albumina de ovo, carne raspada, frango jovem e sweetbread, termo usado para glândulas comestíveis como timo ou pâncreas.
A lógica era poupar o estômago, oferecer alimentos brandos e manter nutrição suficiente durante um tratamento prolongado. Não se tratava de dieta animal estrita, mas de uso clínico de leite, carne e ovos como alimentos de fácil manejo no contexto digestivo.
Gota: menos amido e açúcar, com carnes, ovos e peixes
No capítulo sobre gota, Osler defendia uma dieta nitrogenada modificada. Ele citava a ideia de que reduzir carboidratos seria uma das melhores formas de evitar o acúmulo de ácido lítico, antigo termo relacionado ao ácido úrico.
Carnes de vários tipos eram permitidas, com exceção de opções mais grosseiras, como porco, vitela e carnes salgadas. Ovos, ostras e peixes também podiam ser consumidos. Açúcar, frutas muito doces, alimentos muito ricos em amido e preparações de milho deveriam ser reduzidos ou evitados.
Curiosamente, Osler também afirmava que, em casos obstinados, grande benefício poderia ser obtido com uma dieta exclusivamente à base de leite. Portanto, na gota, a recomendação animal aparecia tanto como dieta nitrogenada moderada quanto como dieta láctea em casos selecionados.
Obesidade: menos açúcar e amido, com uso controlado de alimentos animais
No capítulo sobre obesidade, Osler discutia métodos como os de Banting, Ebstein e Oertel. Ele reconhecia a importância da redução alimentar, da restrição de líquidos em alguns métodos, da redução de carboidratos e do exercício.
Ao citar Ebstein, Osler descreveu uma dieta com manteiga, sopa feita com medula bovina, carne gorda, molho gorduroso, ovo e pequena quantidade de carne assada. Já no resumo de Yeo, a orientação era mais restritiva: os alimentos animais deveriam ser limitados, mas carnes magras, aves, caça, peixes e ovos eram permitidos.
Esse trecho é importante porque evita simplificações. Osler não dizia simplesmente “coma carne à vontade” para obesidade. A recomendação combinava redução de açúcar e amido, controle de quantidade e uso selecionado de alimentos animais.
Doença renal: leite e leitelho como base
Nas doenças renais chamadas à época de doença de Bright, a dieta tinha outro objetivo. Na nefrite aguda, Osler recomendava leite ou leitelho, mingaus, água de cevada e, se necessário, chá de carne e caldo de frango. Sempre que possível, o paciente deveria ficar em uma dieta estritamente láctea.
Na nefrite parenquimatosa crônica, leite ou leitelho também deveriam constituir o principal alimento. Esse é um exemplo em que o alimento de origem animal recomendado não era carne, mas laticínio.
O contraste é instrutivo. No diabetes e na gota, a redução de carboidratos era central. Na doença renal, o leite aparecia como alimento principal por outro motivo: simplicidade, tolerância e controle dietético em um quadro considerado delicado.
Raquitismo: leite e óleo de fígado de bacalhau
No tratamento do raquitismo, Osler dava prioridade à alimentação infantil. Quando a mãe não podia amamentar, ele recomendava uma ama de leite ou alimentação artificial adequada. O leite de vaca, diluído conforme a idade da criança, deveria constituir o principal alimento.
Além disso, o óleo de fígado de bacalhau era descrito como muito vantajoso. Do ponto de vista histórico, esse detalhe é relevante: antes da identificação formal da vitamina D, a medicina já utilizava um alimento de origem animal rico nesse nutriente em uma doença hoje reconhecida por sua relação com mineralização óssea inadequada.
Escorbuto: vegetais eram centrais, mas carne e leite tinham papel auxiliar
No escorbuto, a recomendação principal de Osler era suco de limão e uma dieta variada com muitos vegetais frescos. Portanto, esse não é um exemplo de tratamento baseado em carne.
Ainda assim, quando o estômago estava muito desordenado, Osler recomendava pequenas quantidades de carne raspada e leite em intervalos curtos, junto com aumento gradual do suco de limão. Aqui, alimentos animais tinham papel auxiliar: sustentar o paciente enquanto o tratamento antiescorbútico principal era introduzido.
Histeria, anorexia nervosa e neurasthenia: leite no método de Weir Mitchell
Em quadros de histeria, anorexia nervosa e neurasthenia, Osler citava o método de Weir Mitchell, que combinava isolamento, repouso, dieta, massagem e eletricidade. A dieta podia começar inteiramente com leite, em pequenas doses repetidas. Depois de uma semana ou dez dias, alimentos sólidos eram acrescentados, como costeleta, café ou cacau, pão, manteiga e biscoito.
Esse trecho deve ser lido com cautela, pois pertence a uma classificação psiquiátrica antiga e a um contexto médico muito diferente do atual. Ainda assim, ele mostra que o leite era visto como elemento dietético essencial em estratégias de recuperação nutricional.
O padrão geral nas recomendações
Ao reunir esses trechos, aparece um padrão claro. Os alimentos de origem animal eram usados em pelo menos quatro funções:
Primeiro, como base de uma dieta baixa em carboidratos, especialmente em diabetes e gota. Segundo, como alimento de digestão fácil em quadros gastrointestinais, como dispepsia, úlcera péptica e diarreias infantis. Terceiro, como suporte nutricional em doenças debilitantes, como tuberculose, febre tifoide e convalescença. Quarto, como intervenção específica ou auxiliar em condições como raquitismo, doença renal, escorbuto e anorexia nervosa.
Isso não transforma Osler em defensor de uma dieta carnívora universal. O livro traz recomendações diferentes para doenças diferentes. Em alguns casos, a carne aparece no centro. Em outros, o leite é o principal alimento. Em outros, ovos, caldos e sucos de carne funcionam como suporte temporário. Em alguns quadros, vegetais e frutas eram essenciais.
O que isso significa na prática
A leitura histórica derruba uma ideia comum: a de que dietas com forte presença de alimentos animais seriam apenas uma invenção recente. No fim do século XIX, carnes, ovos, leite, manteiga, caldos e óleo de fígado de bacalhau já apareciam em recomendações médicas formais.
A conclusão mais fiel é que Osler via a dieta como ferramenta clínica. Para diabetes, a prioridade era reduzir açúcar e amido. Para hiperacidez, uma dieta centrada em carne podia ser útil por algumas semanas. Para tuberculose, febres e convalescença, alimentos animais ajudavam a sustentar o paciente. Para doenças renais, o leite era a base. Para raquitismo, leite e óleo de fígado de bacalhau tinham papel destacado.
O valor do texto não está em copiar prescrições de 1892. O valor está em perceber que a medicina já reconhecia, muito antes da era moderna dos ultraprocessados e dos medicamentos crônicos, que comida podia ser uma intervenção terapêutica poderosa.
Em resumo
No livro de Osler, alimentos de origem animal foram recomendados em várias condições de saúde: diabetes mellitus, dispepsia com hiperacidez, tuberculose, febre tifoide, diarreias infantis, cholera infantum, úlcera péptica, gota, obesidade, doença de Bright, raquitismo, escorbuto e quadros de histeria, anorexia nervosa e neurasthenia.
As recomendações variavam conforme a doença. Às vezes, o objetivo era reduzir carboidratos. Às vezes, era facilitar a digestão. Às vezes, era evitar perda de peso, recuperar força ou oferecer alimento tolerável em situações graves.
A mensagem histórica é direta: alimentos de origem animal não eram vistos como inimigos da saúde. Em muitos contextos, eram usados como parte do tratamento.
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