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Asma em crianças: o papel das dietas cetogênicas e com baixo teor de carboidratos no tratamento de um grupo selecionado de pacientes

Capa do artigo histórico de 1930 sobre dieta cetogênica e asma infantil em crianças com asma crônica

A dieta cetogênica e asma infantil já eram discutidas na literatura médica em 1930. O estudo de Peshkin e Fineman avaliou crianças com asma crônica grave e observou melhora em parte dos casos, mas com limitações importantes.

O artigo “Asthma in Children: X. The Role of Ketogenic and Low Carbohydrate Diets in the Treatment of a Selected Group of Patients”, de M. Murray Peshkin e A. H. Fineman, foi publicado no American Journal of Diseases of Children em 1930. Trata-se de uma série clínica histórica, não de um ensaio clínico randomizado. O próprio título deixa claro que os autores estudaram um grupo selecionado de pacientes, e não crianças com asma em geral.

O que foi estudado

O estudo acompanhou 15 crianças com asma crônica, com idades entre 3 e 15 anos. Eram casos considerados difíceis para a época: crianças com crises intensas, frequentes e prolongadas, que continuavam sintomáticas apesar dos métodos aceitos de investigação e tratamento disponíveis naquele período.

Segundo os autores, 12 crianças apresentavam sensibilidade em testes cutâneos a proteínas e 3 não apresentavam esse padrão. Algumas também tinham histórico de eczema, urticária recorrente ou alergia intestinal. A média de duração da asma antes da intervenção dietética era de aproximadamente cinco anos.

Esse detalhe é essencial: o estudo não avaliou dieta cetogênica como prevenção geral da asma, nem como substituta universal de tratamento médico. Ele analisou uma intervenção alimentar em crianças com asma crônica refratária, dentro do contexto médico de 1930.

Como o estudo foi feito

Os autores utilizaram dietas cetogênicas e com baixo teor de carboidratos, aumentando progressivamente a proporção entre componentes cetogênicos e anticetogênicos da alimentação. Em muitos casos, a dieta chegou a uma razão de 3:1, com cerca de 10% de proteína e restrição importante de carboidratos.

A dieta não era composta apenas de carne. Os menus incluíam alimentos como leite, creme de leite, manteiga, ovos, carnes, peixe ou frango, além de pequenas quantidades de frutas, vegetais e biscoito em algumas versões. Em dietas mais restritas, os carboidratos podiam chegar a cerca de 15 a 20 gramas por dia.

Os autores relataram que não foram usados medicamentos, injeções ou mudanças ambientais como parte da intervenção. Porém, alimentos já conhecidos por provocar sintomas alérgicos em cada criança foram excluídos. Isso é uma limitação metodológica importante, porque a melhora observada não pode ser atribuída com certeza apenas à cetose ou à redução de carboidratos.

Principais resultados

Ao fim da primeira semana, 9 das 15 crianças apresentaram leve melhora. Ao fim da segunda semana, 10 crianças mostraram melhora moderada e 3 tiveram melhora acentuada ou alívio da asma. Ao fim da terceira semana, 14 das 15 crianças, ou 93% da série, apresentaram melhora moderada a acentuada ou alívio dos sintomas.

Os autores descrevem melhora da falta de ar, redução da sensação de peso no peito, menor chiado, crises mais leves e menos frequentes, melhora do sono e maior capacidade de atividade física. Uma criança relatada em detalhe ficou sete meses sem crises de asma, com apenas episódios ocasionais de chiado noturno, e ganhou peso de forma expressiva durante o acompanhamento.

No entanto, a melhora não foi permanente em todos os casos. Após os primeiros meses, parte das crianças voltou a apresentar sintomas. Até o décimo mês de acompanhamento, 53% dos pacientes ainda eram considerados moderada ou acentuadamente melhorados ou aliviados da asma.

Cetose não explicou tudo

Um ponto interessante do estudo é que os próprios autores observaram que a cetose, medida indiretamente pela presença de acetona na urina, não parecia explicar sozinha os resultados.

Algumas crianças melhoraram mesmo sem acetona detectável na urina. Outras mantiveram melhora quando a dieta foi flexibilizada para proporções menos cetogênicas, como 2:1 ou até 1,5:1. Por isso, os autores concluíram que algumas crianças estavam se beneficiando de uma dieta relativamente baixa em carboidratos e rica em gordura, mesmo abaixo do limiar claro de cetose.

Esse achado é relevante porque impede uma interpretação simplista. O estudo não prova que “cetonas curam asma”. Ele sugere que, em alguns casos selecionados, uma mudança alimentar com forte redução de carboidratos e aumento de gordura pode ter influenciado sintomas respiratórios.

O que não funcionou bem

A dieta não pareceu promissora para asma relacionada ao pólen ou rinite alérgica sazonal. Crianças sensíveis ao pólen de ambrosia voltaram a ter sintomas durante a estação de exposição, mesmo mantendo a dieta cetogênica.

Também houve piora de manifestações de pele em parte dos casos. Crianças com eczema recorrente apresentaram melhora da asma, mas algumas tiveram agravamento do eczema. Entre crianças com urticária recorrente, duas tiveram piora da coceira e das lesões cutâneas.

Os autores relataram poucos efeitos adversos gerais. Algumas crianças tiveram fome, corrigida com aumento calórico, e quatro apresentaram constipação. A dieta também foi considerada difícil e cara para aquele grupo, principalmente pelo uso frequente de creme de leite e manteiga.

Limitações do estudo

A principal limitação é que o estudo foi pequeno, com apenas 15 crianças. Também não houve grupo controle, randomização, cegamento ou comparação padronizada com outra dieta. Além disso, os critérios diagnósticos e terapêuticos da asma em 1930 eram muito diferentes dos atuais.

Outro ponto é que os autores excluíram alimentos associados a reações alérgicas individuais. Isso torna difícil separar o efeito da dieta cetogênica do efeito da remoção de alimentos gatilho.

Portanto, o estudo deve ser lido como uma observação clínica histórica interessante, não como prova definitiva de eficácia. Ele levanta uma hipótese, mas não estabelece uma recomendação moderna isolada.

O que isso significa na prática

Este estudo mostra que a relação entre metabolismo, alimentação e asma já era investigada há quase um século. Em crianças selecionadas com asma crônica grave, uma dieta cetogênica ou com baixo teor de carboidratos foi associada a melhora clínica em parte dos casos.

Ao mesmo tempo, as evidências atuais para tratamento da asma não permitem substituir medicações por dieta. A Global Initiative for Asthma recomenda que a asma não seja tratada apenas com broncodilatadores de resgate e que pacientes recebam tratamento contendo corticosteroide inalatório conforme o quadro clínico, para reduzir risco de exacerbações graves. (Global Initiative for Asthma - GINA)

Assim, a mensagem mais prudente é que a dieta pode ser estudada como abordagem complementar em contextos específicos, especialmente quando há suspeita de gatilhos alimentares ou disfunção metabólica. Mas qualquer mudança em criança com asma deve ser acompanhada por médico e nutricionista, sem suspensão de tratamento prescrito.

Em resumo

O estudo de Peshkin e Fineman, publicado em 1930, observou melhora da asma em crianças submetidas a dietas cetogênicas e low-carb. O resultado mais marcante foi a melhora em 14 de 15 crianças após três semanas, mas apenas 53% mantiveram melhora moderada a acentuada até o décimo mês.

A cetose não pareceu ser a única explicação, já que algumas crianças melhoraram com dietas apenas relativamente baixas em carboidratos. A dieta também não pareceu útil para asma ou rinite associada ao pólen e pôde piorar eczema ou urticária em alguns casos.

A conclusão mais equilibrada é que o artigo é uma peça histórica relevante sobre dieta cetogênica e asma infantil, mas sua força científica é limitada. Ele aponta uma possibilidade biológica e clínica, não uma cura comprovada.

Fonte: https://doi.org/10.1001/archpedi.1930.01930180090008

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