Este ensaio clínico procurou responder a uma pergunta prática: adicionar 30 gramas por dia de um mix de oleaginosas a uma dieta cardioprotetora brasileira ajudaria a reduzir inflamação em pessoas que já tiveram infarto? A hipótese fazia sentido no papel, porque a inflamação sistêmica é um fator importante na progressão da doença cardiovascular, e castanhas costumam ser incluídas em padrões alimentares considerados cardioprotetores. Ainda assim, os próprios autores destacaram que, na prevenção secundária, ou seja, depois de um evento cardiovascular já estabelecido, os resultados anteriores ainda eram inconsistentes.
Como o estudo foi feito
A análise reuniu 170 adultos com histórico recente de infarto do miocárdio, distribuídos em dois grupos com 85 participantes cada. Todos receberam a Dieta Cardioprotetora Brasileira, a DICA Br. A diferença foi que um dos grupos também recebeu 30 g por dia de um mix com 10 g de amendoim, 10 g de castanha-de-caju e 10 g de castanha-do-brasil, por 16 semanas. As oleaginosas eram fornecidas cruas, sem sal e em porções diárias. Os pesquisadores avaliaram marcadores inflamatórios no sangue, como interleucinas, TNF-alfa, interferon-gama e proteína C-reativa, além de estimar o potencial inflamatório da dieta por dois índices alimentares, o DII e o E-DII.
Esse ponto é importante para a interpretação dos achados: o estudo não comparou “comer castanhas” contra “não fazer dieta”, mas sim uma dieta cardioprotetora isolada contra a mesma dieta acrescida de mix de oleaginosas. Em outras palavras, a pergunta real foi se a adição desse mix, nessa dose e nesse período, traria benefício inflamatório extra sobre uma intervenção alimentar já estruturada.
O que os autores encontraram
O resultado principal foi negativo. Ao final de 16 semanas, não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos em nenhum dos biomarcadores inflamatórios avaliados. Também não houve melhora significativa no potencial inflamatório da dieta medido pelos índices DII e E-DII. Na prática, isso significa que acrescentar esse mix de oleaginosas não mudou de forma detectável o perfil inflamatório desses pacientes quando comparado com a dieta cardioprotetora sem suplementação.
Houve alguns achados isolados. No grupo sem suplementação com oleaginosas, os níveis de IL-4 caíram e a razão IFN-γ/IL-4 aumentou. Já no grupo com suplementação, apareceram diferenças em alguns micronutrientes, como redução de cálcio e vitamina B2 e aumento de vitamina B7. No entanto, os autores trataram esses resultados com cautela. Eles lembraram que não foi feita correção para múltiplas comparações nos desfechos secundários, o que aumenta a chance de surgirem associações ocasionais sem significado clínico robusto.
Também apareceu uma associação fraca entre um menor escore de potencial inflamatório da dieta e níveis mais altos de interferon-gama. Mesmo assim, os autores afirmaram que esse achado pode ter ocorrido ao acaso e não deve ser interpretado como evidência definitiva.
O que esses resultados significam
A leitura correta do estudo é restrita ao contexto testado. Ele não mostra que oleaginosas sejam “inúteis” para a saúde cardiovascular de forma geral. O que ele mostra é algo mais específico: em pacientes no período pós-infarto, já submetidos a uma dieta cardioprotetora, a inclusão de 30 g por dia desse mix de oleaginosas por 16 semanas não produziu melhora mensurável nos marcadores inflamatórios avaliados.
Os próprios autores discutiram possíveis motivos para esse resultado. A dose pode ter sido pequena para gerar efeito detectável. O tempo de acompanhamento pode ter sido curto. O tipo de oleaginosa usado pode não ter sido o mais favorável para esse desfecho específico. Além disso, tratava-se de uma população de alto risco, com inflamação residual persistente e uso muito frequente de estatinas, o que pode ter reduzido a capacidade de detectar um efeito adicional da dieta. Mais de 96% dos participantes usavam estatina, e cerca de um terço estava em terapia de alta intensidade.
Limitações e pontos fortes
O estudo tem limitações relevantes. A ingestão alimentar foi estimada por recordatórios de 24 horas, método sujeito a variação do dia e dependente da memória do participante. Apenas um recordatório foi coletado por visita. Houve ainda alguma “contaminação” no grupo controle, com parte dos participantes consumindo oleaginosas mesmo sem fazer parte da intervenção. A pandemia de COVID-19 também atrapalhou logística, seguimento e disponibilidade de amostras biológicas, o que pode ter afetado o poder estatístico da análise.
Por outro lado, o trabalho tem méritos claros. Foi um ensaio multicêntrico, pragmático, com alimentos acessíveis no contexto brasileiro e focado em uma população pouco estudada: pacientes após infarto recente. Isso dá valor ao estudo porque ele testa uma estratégia concreta em condições mais próximas da prática clínica real.
Conclusão
A mensagem central do artigo é objetiva: neste ensaio, suplementar a Dieta Cardioprotetora Brasileira com 30 g por dia de um mix de amendoim, castanha-de-caju e castanha-do-brasil não melhorou marcadores inflamatórios nem tornou a dieta mais anti-inflamatória ao longo de 16 semanas em pacientes após infarto. O estudo acrescenta nuance a uma área em que recomendações gerais nem sempre se confirmam da mesma forma em contextos clínicos específicos.
Fonte: https://doi.org/10.1016/j.numecd.2026.104625
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