O horário em que uma pessoa começa um jejum de 24 horas pode alterar de forma significativa a resposta glicêmica durante o jejum e também na realimentação. Essa é a conclusão central de um ensaio cruzado randomizado conduzido por pesquisadores da Brigham Young University, nos Estados Unidos, publicado na revista Frontiers in Nutrition em abril de 2026.
O estudo reuniu 24 adultos com sobrepeso ou obesidade (13 mulheres e 11 homens), com média de idade de 33 anos e índice de massa corporal médio de 31,7 kg/m². Cada participante completou três jejuns de 24 horas com ingestão apenas de água, iniciados em horários distintos: às 8h (manhã), às 13h (tarde) e às 18h (noite). A ordem das condições foi aleatorizada e houve um intervalo de cinco dias entre cada jejum. Antes de iniciar cada período de jejum, os participantes consumiram uma refeição padronizada equivalente a 25% de suas necessidades energéticas diárias estimadas, com composição de 60% de carboidratos, 25% de gordura e 15% de proteína.
A glicose intersticial foi monitorada a cada 15 minutos por monitores contínuos de glicose (CGM) durante todo o jejum e nas duas horas seguintes a um teste oral de tolerância à glicose (TOTG) com 75 g de dextrose, aplicado ao final de cada jejum. Amostras de sangue venoso foram coletadas para dosagem de insulina e glucagon no início e no fim de cada jejum, e 30 minutos após o TOTG. O beta-hidroxibutirato (BHB), um marcador de cetogênese, foi medido por amostra capilar apenas ao final do jejum.
Glicose mais baixa no jejum iniciado à tarde
O resultado mais marcante foi que o jejum iniciado à tarde apresentou níveis médios de glicose ao longo das 24 horas significativamente mais baixos do que os jejuns iniciados de manhã ou à noite, que não diferiram entre si (p < 0,0001). Essa diferença se manifestou já nas duas primeiras horas após a refeição padronizada: a resposta pós-prandial à refeição consumida às 13h produziu menor área sob a curva (ASC) de glicose do que as refeições consumidas às 8h ou às 18h.
Os pesquisadores dividem o jejum de 24 horas em quatro janelas — manhã, tarde, noite e madrugada — para analisar o comportamento glicêmico por período do dia. Em cada janela, o padrão esperado se confirmou: a glicose era mais alta no período correspondente ao pico pós-prandial de cada condição. Contudo, durante a madrugada, a glicose foi mais alta no jejum iniciado à noite e mais baixa no jejum iniciado à tarde. Notavelmente, a glicose noturna no jejum iniciado de manhã foi mais alta do que no jejum iniciado à tarde, o que os autores atribuem a uma possível depleção dos estoques hepáticos de glicogênio após cerca de 12 horas de jejum, coincidindo com a elevação noturna natural do hormônio de crescimento e favorecendo a gliconeogênese hepática.
Tolerância à glicose na realimentação: vantagem para o jejum matinal
Se durante o jejum a tarde foi o melhor horário para manter a glicose baixa, na realimentação o cenário se inverteu parcialmente. A ASC relativa de glicose (acima da linha de base) durante o TOTG foi menor no jejum iniciado de manhã do que no jejum iniciado à noite (p = 0,0128). O jejum da tarde ficou em posição intermediária, sem diferença estatística em relação às outras duas condições. Esses dados indicam que a tolerância à glicose após o jejum é mais favorável quando o jejum termina pela manhã, o que está alinhado com pesquisas anteriores mostrando melhor resposta à glicose no período matinal.
Cetose alcançada apenas nos jejuns da tarde e da noite
Os níveis de BHB ao final do jejum revelaram diferença significativa entre as condições (p = 0,0166). A concentração média de BHB após o jejum matinal foi de 0,36 mmol/L — abaixo do limiar de cetose de 0,5 mmol/L. Já os jejuns iniciados à tarde e à noite produziram concentrações médias de 0,54 e 0,52 mmol/L, respectivamente, ultrapassando esse limiar e sem diferença significativa entre si. Na análise individual, 13 participantes atingiram cetose ao final do jejum noturno, 10 ao final do jejum vespertino e apenas 2 ao final do jejum matinal.
Essa diferença é coerente com ritmos circadianos de cetogênese descritos na literatura, que mostram pico de BHB no período da noite, por volta da meia-noite, com declínio progressivo até as primeiras horas da manhã. A glicose mais elevada ao final do jejum matinal — possivelmente impulsionada pelo cortisol, pelo hormônio de crescimento e por hormônios adrenérgicos típicos do fenômeno do amanhecer — pode ter suprimido a produção de cetonas nesse horário.
Insulina e glucagon: sem variação entre as condições
Um achado relevante foi a ausência de diferença nas concentrações de insulina e glucagon entre as três condições de jejum em qualquer ponto de coleta — início do jejum, fim do jejum ou 30 minutos após o TOTG (p > 0,05 para o efeito de condição em ambos os hormônios). Houve, como esperado, aumento significativo de insulina e glucagon após o TOTG em comparação com os níveis pré e pós-jejum, mas esse aumento não variou conforme o horário do jejum.
Os autores sugerem que a obesidade pode atenuar a ritmicidade circadiana da insulina e reduzir a supressão esperada do glucagon após carga oral de glicose, o que ajudaria a explicar a ausência de variação hormonal entre as condições. Isso implica que as diferenças observadas no controle glicêmico provavelmente se devem a variações na sensibilidade à insulina ao longo do dia, e não a mudanças nos níveis circulantes desses hormônios.
Efeito da segunda refeição como possível explicação
Um aspecto discutido pelos pesquisadores é o chamado efeito da segunda refeição, no qual a ingestão alimentar pela manhã atenua a resposta glicêmica a uma refeição subsequente consumida à tarde. Esse mecanismo poderia explicar por que a refeição padronizada consumida às 13h gerou menor excursão glicêmica do que as consumidas às 8h ou às 18h, mesmo com a sensibilidade à insulina teoricamente mais baixa à tarde do que pela manhã.
Pontos fortes e limitações
O desenho cruzado randomizado é um ponto forte relevante, pois cada participante serviu como seu próprio controle, reduzindo a variabilidade interindividual. A monitorização contínua de glicose a cada 15 minutos forneceu resolução temporal detalhada ao longo de todo o jejum. Além disso, o estudo é um dos primeiros a eliminar o efeito confundidor da alimentação sobre os hormônios glicêmicos ao avaliar variações circadianas após 24 horas de jejum.
Entre as limitações, destaca-se que o estudo foi conduzido em ambiente de vida livre, sem controle rigoroso de atividade física, sono ou dia da semana. A fase do ciclo menstrual das participantes não foi padronizada. Dados de CGM estavam ausentes em 18 das 73 condições de jejum durante o TOTG devido à remoção prematura dos monitores. As dosagens hormonais foram limitadas a apenas três pontos por condição, o que impede captar flutuações dinâmicas de insulina e glucagon durante o jejum.
Implicações práticas
Os resultados sugerem que, para quem pratica jejum de 24 horas em dias alternados, iniciar o jejum à tarde pode oferecer a combinação mais favorável de benefícios metabólicos: glicose média mais baixa durante o jejum e entrada em cetose. Embora a extrapolação direta para alimentação com restrição de tempo seja limitada pela janela prolongada de jejum deste estudo, os autores indicam que iniciar uma janela alimentar com restrição de tempo à tarde, em vez de à noite, pode igualmente melhorar os desfechos glicêmicos ao longo do restante do dia. Mesmo reduções modestas na glicemia de jejum, dentro da faixa normal, podem reduzir o risco cardiovascular, que aumenta de forma linear mesmo em níveis considerados normoglicêmicos.
