O fator neurotrófico derivado do cérebro, conhecido pela sigla em inglês BDNF, tem sido descrito como um dos principais mediadores entre hábitos de vida e saúde cerebral. Trata-se de uma proteína envolvida na sobrevivência, no crescimento e na diferenciação de neurônios, com atuação central em processos como formação de novas sinapses, memória e aprendizado. Uma revisão publicada em 2026 na revista Aging and Disease, assinada por pesquisadores das universidades de Pádua, Verona e Tallinn, reuniu evidências sobre como diferentes tipos de exercício físico e duas estratégias alimentares específicas, a dieta cetogênica e o jejum intermitente, influenciam os níveis de BDNF e, por consequência, o desempenho cognitivo, especialmente em adultos de meia-idade e idosos.
BDNF, envelhecimento e cognição
Os autores lembram que os níveis de BDNF tendem a cair com o avanço da idade. Em adultos jovens, entre 20 e 33 anos, a mediana plasmática observada em estudos de referência gira em torno de 100 pg/mL, enquanto em pessoas de 48 a 60 anos cai para cerca de 50 pg/mL. Um estudo com mais de cinco mil idosos entre 65 e 97 anos registrou média de 21 ng/mL no soro. Esse declínio ocorre em paralelo ao início do prejuízo cognitivo, que pode começar já na meia-idade, entre 40 e 65 anos, afetando memória, velocidade de processamento e funções executivas. Pacientes com doença de Alzheimer e doença de Parkinson apresentam BDNF periférico reduzido em comparação com controles saudáveis, e, na doença de Parkinson, níveis mais baixos estão associados a pior desempenho cognitivo.
Exercício aeróbico
O exercício aeróbico, caracterizado por atividades contínuas e rítmicas como caminhar, correr, pedalar ou nadar, é o mais estudado em relação ao BDNF. A revisão descreve múltiplos mecanismos envolvidos, entre eles o aumento do fluxo sanguíneo cerebral, a liberação de plaquetas pelo baço, a resposta à hipóxia leve e a produção muscular de irisina e catepsina B, substâncias capazes de atravessar a barreira hematoencefálica e estimular a síntese de BDNF no cérebro.
Entre os estudos citados, um ensaio clínico com adultos de 55 a 80 anos submetidos a um ano de caminhada de intensidade moderada três vezes por semana observou aumento de 2% no volume do hipocampo, região crítica para memória, com correlação positiva com melhora da memória espacial. Outro estudo, com idosos acima de 65 anos, registrou elevação de aproximadamente 25% no BDNF sérico após um ano de caminhadas de 40 minutos, mudança associada a ganhos em função executiva. Os efeitos pareceram ainda mais relevantes em participantes acima de 71 anos.
Treinamento intervalado de alta intensidade
O treinamento intervalado de alta intensidade, conhecido pela sigla em inglês HIIT, alterna períodos curtos de esforço intenso, entre 80% e 90% da frequência cardíaca máxima, com períodos de recuperação em intensidade leve. Esse padrão parece ser particularmente eficaz em elevar o BDNF, possivelmente por conta do aumento do lactato circulante, que atua como sinalizador metabólico ativando a via SIRT1–PGC-1α–FNDC5, e pela ativação plaquetária mais intensa.
Em atletas jovens, comparações diretas mostraram concentrações séricas de BDNF imediatamente após o esforço significativamente maiores no grupo HIIT, com 5,65 ng/mL, do que nos grupos controle, com 1,24 ng/mL, e de exercício contínuo moderado, com 3,38 ng/mL. Em idosos saudáveis entre 65 e 85 anos, um estudo longitudinal de seis meses identificou que apenas o grupo que realizou HIIT apresentou melhora significativa em tarefas dependentes do hipocampo, com correlação entre o aumento de BDNF e o ganho cognitivo, benefício que se sustentou por até cinco anos. Ainda assim, os autores ressaltam que parte dos estudos em adultos de meia-idade e idosos encontra aumento do BDNF sem ganho cognitivo mensurável, o que pode refletir limitações dos testes utilizados.
Treinamento resistido
O treinamento resistido envolve a produção de força muscular contra uma resistência externa, com o objetivo de aumentar força, hipertrofia ou resistência local. Seus efeitos sobre o BDNF ainda são menos compreendidos, mas a revisão aponta duas vias principais: o lactato, que funciona como combustível alternativo para o cérebro em situações de alta demanda, e o fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1, ou IGF-1, produzido principalmente no fígado e capaz de atravessar a barreira hematoencefálica para estimular a expressão de BDNF no hipocampo.
Protocolos voltados à hipertrofia, com mais repetições e menor intervalo entre séries, aumentaram o BDNF sérico em cerca de 13% imediatamente após a sessão, enquanto protocolos de força pura, com cargas mais altas e maior descanso, não produziram o mesmo efeito, apesar de volume e trabalho equivalentes. Em idosos, um programa de 16 semanas que combinou treinamento resistido com tarefas cognitivas simultâneas elevou o BDNF plasmático e melhorou fluência verbal, memória de curto prazo e função executiva, ganho que não ocorreu com o treinamento resistido isolado.
Dieta cetogênica
A dieta cetogênica é caracterizada por alta ingestão de gorduras, aporte proteico adequado e restrição severa de carboidratos, geralmente abaixo de 20 a 30 gramas por dia. Nessas condições, o fígado passa a produzir corpos cetônicos, principalmente o beta-hidroxibutirato, que se tornam o principal combustível do sistema nervoso central quando a glicose é escassa.
O beta-hidroxibutirato atua também como molécula sinalizadora, estimulando diretamente a expressão de BDNF em neurônios. Em um estudo com adultos de 30 a 45 anos, duas semanas de dieta cetogênica elevaram o BDNF sérico médio de 78 pg/mL para 92 pg/mL, com retorno ao nível basal após 12 semanas, sugerindo que o estímulo é transitório. A variação do beta-hidroxibutirato mostrou correlação positiva com a variação do BDNF, mesmo após ajuste para ingestão energética, e o protocolo foi associado a melhora em parâmetros cognitivos.
Jejum intermitente
O jejum intermitente, que alterna janelas de alimentação e de abstinência alimentar ao longo do dia, pode induzir cetose de forma semelhante à dieta cetogênica, ativando as mesmas vias associadas ao BDNF. Em modelos animais, um ciclo de 16 horas de jejum seguido por 8 horas de alimentação aumentou a neurogênese no hipocampo, aparentemente mediada pela via de sinalização Notch 1.
Nos estudos em humanos, os resultados ainda são heterogêneos. Revisões sistemáticas apontam efeitos cognitivos variáveis conforme o formato adotado, seja jejum em dias alternados ou alimentação com janela restrita, e grande parte desses trabalhos não dosou BDNF, o que limita conclusões mais firmes.
Limitações e caminhos futuros
Os autores enfatizam que, apesar da consistência das evidências mecanísticas, traduzir o aumento do BDNF periférico em benefício cognitivo de longo prazo segue sendo um desafio. Variações no desenho dos estudos, nas populações avaliadas, no tipo de protocolo, no material biológico analisado, soro ou plasma, e no momento da coleta dificultam comparações diretas. Além disso, o BDNF sanguíneo não reflete de forma universal o BDNF cerebral, especialmente em comparações entre espécies. A combinação de neuroimagem funcional, biomarcadores moleculares e testes neuropsicológicos padronizados aparece como caminho mais promissor para aprofundar o entendimento desses mecanismos.
No conjunto, a revisão reforça que intervenções simples e combinadas, envolvendo exercício físico regular e ajustes dietéticos específicos, representam uma estratégia acessível e biologicamente plausível para preservar a saúde cerebral ao longo da vida.
