Por que uma xícara de café desperta quem o consome todos os dias? A resposta mais intuitiva aponta para a cafeína. Um estudo publicado na revista Heliyon em 2025 sugere, porém, que o quadro é mais sutil: boa parte do efeito independe da presença da substância.
O desenho do experimento
Pesquisadores de instituições da Eslovênia e dos Países Baixos recrutaram vinte consumidores habituais de café, todos jovens adultos, saudáveis e com consumo diário de uma a três xícaras. Em um protocolo duplo-cego randomizado, metade recebeu café descafeinado com adição de cafeína pura, na dose de seis miligramas por quilo de peso corporal, até o limite de 550 miligramas. A outra metade recebeu o mesmo café descafeinado, sem qualquer adição. As bebidas eram visualmente idênticas e indistinguíveis no sabor. Nenhum participante desconfiou do conteúdo recebido.
Antes e depois da ingestão, foram avaliadas três dimensões: parâmetros cardiovasculares (pressão arterial e frequência cardíaca), desempenho cognitivo (teste aritmético e tarefa auditiva de atenção) e atividade cerebral registrada por eletroencefalograma de trinta e dois canais, tanto em repouso quanto durante a tarefa cognitiva.
O que mudou em ambos os grupos
A ingestão, independentemente do conteúdo, produziu efeitos semelhantes em quase todas as medidas. A pressão arterial aumentou tanto no grupo cafeína quanto no grupo placebo. A frequência cardíaca diminuiu nos dois grupos. O tempo de reação na tarefa auditiva também caiu de modo equivalente, com redução média de 21 milissegundos após o café com cafeína e de 22 milissegundos após o descafeinado.
No teste aritmético, que exigia subtrações seriadas em voz alta, não houve efeito significativo em nenhum dos grupos. Nem a cafeína nem o placebo alteraram de forma consistente a quantidade de respostas corretas ou de erros.
O ponto em que a cafeína se destacou
A única medida em que a cafeína se diferenciou do placebo de forma estatisticamente robusta foi a atividade cerebral em repouso, especificamente a potência da banda alfa (oscilações na faixa próxima de nove a dez hertz) registrada no eletrodo FC2, localizado na região frontal direita. Nesse parâmetro, a ingestão de cafeína reduziu a potência da banda alfa — um achado compatível com maior prontidão cortical para processar estímulos. Essa redução não ocorreu no grupo que recebeu descafeinado.
Também se observou aumento do componente P3 do potencial evocado no eletrodo Cz após a ingestão de cafeína. O P3 é uma resposta elétrica associada à atenção e à tomada de decisão diante de um estímulo. Ainda assim, quando os dois grupos foram comparados diretamente, a diferença não atingiu significância estatística.
O peso do ritual
Os autores interpretam os resultados como evidência de que, para consumidores habituais, o ritual de beber café — o aroma, o sabor, o gesto e a expectativa — produz boa parte das respostas fisiológicas e cognitivas habitualmente atribuídas à bebida. A cafeína atua, mas seu efeito isolado tende a ser menor do que se costuma presumir, ao menos em curto prazo e em consumidores adaptados.
O fenômeno se encaixa em achados prévios sobre condicionamento em bebedores regulares, nos quais até o cheiro do café reduz o tempo de reação em magnitude comparável à da própria ingestão.
Limitações reconhecidas pelos autores
O estudo traz limitações que os próprios autores explicitam. A amostra é pequena (vinte participantes), o que eleva a probabilidade de erros do tipo II — ou seja, de não detectar efeitos que realmente existem. A análise de sensibilidade indica que apenas efeitos de grande magnitude poderiam ser captados com esse tamanho amostral. Alguns padrões sugestivos, como possíveis interações entre grupo e condição, apareceram nos dados brutos, mas não resistiram à correção estatística.
Além disso, todos os voluntários eram consumidores habituais. Nada se pode inferir, a partir desse experimento, sobre pessoas que consomem café esporadicamente ou que nunca consumiram. A escolha do descafeinado como placebo também tem consequências: embora imite bem o café, o descafeinado contém traços residuais de cafeína e diversos compostos bioativos, como polifenóis, ácidos hidroxicinâmicos e flavonoides, cujo papel não foi isolado no experimento.
O que fica para o leitor
Para quem bebe café diariamente, o achado mais relevante é que a resposta corporal à xícara matinal não depende exclusivamente da cafeína. O estímulo sensorial, a expectativa e o hábito participam de modo substancial. Isso não significa que a cafeína seja irrelevante — o estudo confirmou que ela altera padrões específicos de atividade cerebral — mas indica que o organismo de um consumidor habitual já incorpora o café como um sinal e responde a esse sinal mesmo na ausência do ingrediente farmacológico.
