Dieta carnívora é uma abordagem alimentar baseada principalmente em alimentos de origem animal. No Estilo de Vida Carnívoro, o leitor encontra artigos, guias e análises de estudos sobre saúde metabólica, emagrecimento e alimentação baseada em animais.

Alta ingestão de fibra alimentar e baixo consumo de gordura saturada entre universitárias com oligomenorreia

Ilustração conceitual sobre saúde hormonal feminina com ciclo menstrual, vegetais fibrosos e fontes de gordura em composição minimalista

O estudo publicado em 1990 na revista Fertility and Sterility analisou um tema que costuma receber pouca atenção fora da endocrinologia reprodutiva: a possível relação entre composição da dieta e irregularidade menstrual em mulheres jovens não atletas. O foco não foi amenorreia completa, isto é, ausência de ciclos por vários meses, mas oligomenorreia, definida no estudo como ciclos menstruais mais longos, especialmente acima de 50 dias.

A pergunta central era simples: entre universitárias saudáveis, sem prática intensa de exercício, sem tabagismo, sem uso recente de anticoncepcional oral e sem grande mudança de peso, haveria diferenças alimentares associadas ao padrão menstrual?

O que os pesquisadores avaliaram

Os autores recrutaram universitárias de Harvard e chegaram a uma amostra final de 56 mulheres. Elas foram divididas em três grupos: 35 com ciclos considerados regulares, entre 24 e 34 dias; 11 com oligomenorreia leve, com ciclos acima de 34 dias e abaixo de 50 dias; e 10 com oligomenorreia, com ciclos acima de 50 dias.

Essa separação é importante porque o estudo tentou isolar fatores que poderiam confundir a interpretação. As participantes eram nulíparas, não fumantes, não tinham apresentado mudança de peso superior a 10% no ano anterior, não haviam usado anticoncepcional oral nos seis meses anteriores e não tinham feito mais do que exercício leve nos dois anos anteriores.

Além da dieta, os pesquisadores avaliaram composição corporal, estresse psicológico percebido, cortisol urinário de 24 horas e peptídeo C urinário, marcador relacionado à produção de insulina. A ingestão alimentar foi estimada por questionário de frequência alimentar validado, considerando o consumo nos 12 meses anteriores.

O principal achado

As universitárias com oligomenorreia relataram maior ingestão de fibra alimentar, maior ingestão de fibra bruta, maior proporção de gordura poli-insaturada e menor proporção de gordura saturada na dieta quando comparadas às colegas com ciclos regulares.

Na tabela nutricional do artigo, o grupo com ciclos regulares consumia, em média, 20,3 g de fibra alimentar por dia. Já o grupo com oligomenorreia consumia 28,2 g por dia. A ingestão de fibra bruta também foi maior: 7,3 g por dia no grupo com oligomenorreia contra 5,3 g por dia no grupo com ciclos regulares.

A diferença também apareceu no tipo de gordura. A gordura saturada representava 12,7% das calorias no grupo com ciclos regulares, contra 10,0% no grupo com oligomenorreia. A gordura poli-insaturada, por outro lado, foi maior no grupo com oligomenorreia: 6,3% das calorias contra 5,1% no grupo com ciclos regulares.

O ponto mais relevante é que não houve diferença significativa na ingestão calórica total, na proporção de proteína, carboidratos ou gordura total entre os grupos. Ou seja, a diferença observada não foi simplesmente “comer menos” ou “comer menos gordura total”. O padrão apareceu na qualidade da gordura e na maior presença de fibras.

O que não mudou entre os grupos

O estudo também avaliou fatores frequentemente associados a alterações menstruais, como peso corporal, composição corporal e estresse psicológico. Esses fatores não diferiram significativamente entre as participantes com ciclos regulares, oligomenorreia leve ou oligomenorreia.

A idade média, a idade da menarca, o número de anos após a menarca, o peso, a altura, a água corporal total e o percentual de gordura corporal também foram semelhantes. Isso torna o achado alimentar mais interessante, porque a diferença menstrual não foi explicada, dentro dessa amostra, por mulheres mais magras, mais jovens, mais estressadas ou com menor gordura corporal.

O cortisol urinário de 24 horas também não diferiu entre os grupos. Os autores observaram, porém, que o número pequeno de participantes reduzia o poder estatístico para detectar diferenças pequenas ou moderadas nesse marcador.

Peptídeo C, insulina e função ovariana

Outro achado observado foi a menor excreção urinária de peptídeo C em 24 horas no grupo com oligomenorreia em comparação ao grupo com oligomenorreia leve. O peptídeo C urinário foi medido porque pode refletir produção de insulina, e a insulina participa de processos relacionados à função ovariana.

Os próprios autores foram cautelosos. Quando o peptídeo C foi ajustado pela creatinina urinária, a diferença entre os grupos não permaneceu significativa. Portanto, o resultado não permite afirmar que baixa produção de insulina causou oligomenorreia. Ele apenas sugere uma possível pista metabólica que, segundo os autores, mereceria investigação adicional.

Como a fibra poderia entrar nessa história

A discussão do artigo propõe uma hipótese biológica: dietas mais ricas em fibras podem aumentar o volume fecal e a excreção fecal de estrogênios, reduzindo sua recirculação entero-hepática. Isso poderia contribuir para menores níveis circulantes de estrona e estradiol, hormônios envolvidos na regulação do eixo hipotálamo-hipófise-ovário.

O artigo cita pesquisas anteriores comparando mulheres vegetarianas e não vegetarianas, nas quais dietas mais ricas em fibras e com menor percentual de gordura foram associadas a maior excreção fecal de estrogênios e menores níveis circulantes de estrona e estradiol.

Essa explicação, porém, deve ser lida como mecanismo plausível, não como prova definitiva. O estudo principal foi observacional e pequeno. Ele identifica associação, não causalidade.

A nuance sobre gordura saturada

A leitura comum de saúde pública costuma tratar maior fibra e menor gordura saturada como sinais automáticos de uma dieta mais favorável. Este estudo adiciona uma nuance: em mulheres jovens, saudáveis e não atletas, um padrão com mais fibras, mais gordura poli-insaturada e menos gordura saturada apareceu associado a ciclos menstruais mais longos.

Isso não significa que gordura saturada seja uma intervenção hormonal, nem que fibra alimentar seja prejudicial para todas as mulheres. Também não significa que mulheres com ciclos irregulares devam fazer mudanças alimentares sem avaliação clínica. O estudo mostra apenas que, nessa amostra específica, a composição da dieta diferiu de modo consistente entre os grupos.

A conclusão dos autores foi prudente: uma dieta rica em fibras e pobre em gordura saturada pode exercer um efeito independente sobre a função menstrual e merece investigação adicional.

O que o estudo permite concluir

O estudo permite concluir que houve associação entre oligomenorreia e maior ingestão de fibras, maior ingestão de gordura poli-insaturada e menor ingestão de gordura saturada em universitárias não atletas. A associação foi observada sem diferenças relevantes em peso, composição corporal, idade da menarca, estresse percebido ou cortisol urinário.

O estudo não permite concluir que fibras causam irregularidade menstrual. Também não permite afirmar que reduzir fibras ou aumentar gordura saturada normalizaria ciclos menstruais. A amostra foi pequena, a dieta foi estimada por questionário e o desenho não foi experimental.

Ainda assim, o trabalho é útil porque desafia uma leitura simplista da alimentação. Em saúde hormonal feminina, a pergunta não é apenas se um alimento ou nutriente parece “saudável” isoladamente. O contexto metabólico, o estado energético, a composição geral da dieta e a resposta individual também importam.

A principal mensagem é que ciclos menstruais longos não devem ser interpretados apenas como um problema ginecológico isolado. Em alguns casos, podem refletir sinais do eixo hormonal e metabólico. A dieta pode fazer parte desse contexto, mas a interpretação precisa ser cuidadosa, clínica e baseada no conjunto de dados disponíveis.

Fonte: https://doi.org/10.1016/S0015-0282(16)53820-5

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