O trabalho avaliou se uma dieta cetogênica estruturada seria viável, aceitável e potencialmente útil como intervenção adjunta em adultos com transtorno de compulsão alimentar periódica e sobrepeso ou obesidade. O manuscrito foi aceito para publicação em 2026, mas ainda aparece como article in press, ou seja, em versão não editada final. O estudo foi conduzido em braço único, sem grupo controle, durante 12 semanas, com adultos de 18 a 65 anos diagnosticados por critérios do DSM-5. Ao todo, 20 participantes foram incluídos, e 85% completaram a avaliação da semana 12.
A intervenção não foi uma “dieta cetogênica solta”. Ela foi feita com metas bem definidas: menos de 20 g de carboidratos líquidos por dia, proteína moderada e gordura como principal fonte de energia, além de acompanhamento com nutricionista, material educativo, planejamento alimentar e monitoramento de beta-hidroxibutirato no sangue para confirmar cetose nutricional. Esse detalhe importa porque os resultados observados se referem a um protocolo supervisionado, não a qualquer versão informal de restrição de carboidratos.
O que foi observado
Os achados chamam atenção porque a frequência média de dias com compulsão caiu de 4,2 para 1,1 por semana. Também houve redução importante na gravidade do transtorno medida pela escala Y-BOCS-BE, que passou de 28,9 para 11,8 pontos. A pontuação global do EDE-Q, que avalia psicopatologia relacionada ao transtorno alimentar, caiu de 4,3 para 2,4. Em paralelo, os sintomas depressivos medidos pelo PHQ-9 diminuíram de 16,5 para 8,2.
O estudo ainda relatou que 55% dos participantes atingiram remissão da compulsão alimentar, definida como menos de um episódio por semana ao final de 12 semanas. Além disso, 75% tiveram melhora clinicamente significativa na escala Y-BOCS-BE. O peso corporal médio caiu de 102,4 kg para 95,8 kg, e houve melhora em marcadores exploratórios como glicemia de jejum e triglicerídeos. Como sinal adicional, níveis médios mais altos de cetose se correlacionaram com maior redução de episódios de compulsão, maior melhora na gravidade do transtorno e maior perda de peso.
Adesão e tolerabilidade
Em viabilidade prática, o protocolo teve adesão razoável. A taxa média de leituras em cetose foi de 76%, com beta-hidroxibutirato médio de 1,3 mmol/L. Na pesquisa de satisfação, 80% relataram estar satisfeitos ou muito satisfeitos com a intervenção, e o apoio do nutricionista foi o item mais bem avaliado. Esses dados sugerem que, pelo menos nesse pequeno grupo, a estratégia foi executável em curto prazo quando houve suporte intensivo.
Em segurança de curto prazo, não foram relatados eventos adversos graves relacionados à intervenção. Os efeitos mais comuns foram constipação, dor de cabeça, fadiga, cãibras musculares e náusea, em geral leves ou moderados, concentrados nas primeiras semanas e transitórios. Isso não significa ausência de risco em prazo maior, mas indica que, nesse piloto, a tolerabilidade imediata foi considerada aceitável.
Como interpretar sem exageros
O ponto central deste estudo não é provar que a dieta cetogênica “trata” compulsão alimentar. Os próprios autores são explícitos ao afirmar que o trabalho foi desenhado para testar viabilidade, aceitabilidade e sinais clínicos preliminares, e não para demonstrar eficácia terapêutica. Sem grupo controle, não é possível separar o efeito potencial da cetose de outros fatores relevantes, como apoio frequente do nutricionista, monitoramento intensivo, expectativa de melhora e maior estrutura comportamental ao longo das 12 semanas.
Ainda assim, o estudo tem valor porque contraria a ideia de que uma dieta cetogênica necessariamente pioraria a compulsão alimentar em todos os contextos. Em vez disso, ele mostra que, em um pequeno grupo de adultos com transtorno de compulsão alimentar e excesso de peso, um protocolo cetogênico supervisionado foi viável e veio acompanhado de melhora importante em desfechos clínicos relevantes. Isso não encerra a discussão, mas fornece uma evidência inicial que justifica ensaios clínicos randomizados com comparadores ativos e seguimento mais longo.
Limitações
As limitações são grandes e impedem conclusões fortes. A amostra foi pequena. O estudo durou apenas 12 semanas. Não houve randomização nem grupo comparador. O seguimento posterior não foi avaliado, então não se sabe se os resultados se mantêm, se há recaída ou como fica a sustentabilidade da estratégia no longo prazo. Além disso, os participantes tinham sobrepeso ou obesidade e foram recrutados em contexto clínico com risco metabólico aumentado, o que significa que os achados não devem ser extrapolados automaticamente para todas as pessoas com compulsão alimentar.
Conclusão
Este estudo piloto sugere que uma dieta cetogênica supervisionada por nutricionista pode ser factível e aceitável em adultos com transtorno de compulsão alimentar e excesso de peso, com melhora observada em frequência de compulsão, gravidade do transtorno, sintomas depressivos, peso e alguns marcadores metabólicos ao longo de 12 semanas. A leitura correta, porém, exige cautela: trata-se de evidência preliminar, útil para gerar hipótese, não para afirmar tratamento estabelecido.
