Os números que as propagandas não mostram — e que todo paciente deveria conhecer antes de tomar uma decisão.
Você provavelmente já ouviu que as estatinas “reduzem o risco de infarto em até 50%” ou que são “medicamentos salvadores de vidas”. São frases repetidas em consultórios, manchetes de jornal e até bulas. Mas existe uma outra forma — igualmente válida e cientificamente correta — de expressar o mesmo benefício, e ela conta uma história bem diferente.
É exatamente isso que estudos publicados em periódicos de alto impacto, como o JAMA Internal Medicine e o BMJ Open, mostram: quando os dados dos ensaios clínicos são traduzidos em tempo real de vida ganho, o resultado é surpreendentemente modesto.
Resumo em números
- 3,2 dias de ganho médio de sobrevida em cerca de 5 anos na prevenção primária
- 4,1 dias de ganho médio de sobrevida em cerca de 5 anos na prevenção secundária
- Cerca de 18 horas por ano de aumento médio na expectativa de vida por ano de uso
Antes que alguém pense que isso vem de fontes duvidosas, vale deixar claro: esses números foram extraídos de meta-análises de ensaios clínicos randomizados — o padrão-ouro da medicina baseada em evidências.
“Reduz o risco pela metade” versus “adiciona 18 horas por ano”
As duas afirmações podem estar corretas ao mesmo tempo. A diferença está na forma como os dados são apresentados, e isso muda completamente a percepção do paciente.
Existem duas maneiras principais de comunicar o benefício de um tratamento:
Risco relativo: compara a proporção de eventos entre dois grupos. Se 2 em cada 100 pessoas no grupo placebo tiveram um infarto, e 1 em cada 100 no grupo da estatina, pode-se dizer que houve uma “redução de 50% no risco”. Parece enorme.
Risco absoluto: mostra a diferença real entre os grupos. Nesse mesmo exemplo, a chance de não ter infarto passou de 98% para 99% — uma diferença de apenas 1 ponto percentual.
As duas formas são matematicamente corretas. O problema é que o risco relativo costuma soar muito mais impressionante do que o benefício real em termos absolutos.
Uma meta-análise publicada em 2022 no JAMA Internal Medicine, avaliando 21 ensaios clínicos, encontrou as seguintes reduções com estatinas ao longo de aproximadamente 4,4 anos:
- Mortalidade geral: redução relativa de 9% e redução absoluta de 0,8%
- Infarto do miocárdio: redução relativa de 29% e redução absoluta de 1,3%
- AVC: redução relativa de 14% e redução absoluta de 0,4%
Em outras palavras: para mortalidade geral, seria necessário tratar cerca de 125 pessoas com estatinas por aproximadamente 4,4 anos para evitar uma morte adicional.
Como se chega a “3 dias” e “18 horas”?
Aqui está o ponto central. Um estudo publicado no BMJ Open em 2015 fez algo diferente: em vez de apenas contar quantas pessoas estavam vivas ao final dos estudos, estimou quanto tempo de vida, em média, o tratamento realmente adicionou.
O raciocínio pode ser entendido com base no Heart Protection Study (HPS), um dos maiores e mais favoráveis ensaios clínicos com estatinas:
- Dados de partida: após 5 anos, 92,6% do grupo estatina e 90,8% do grupo placebo estavam vivos. Diferença: 1,8 ponto percentual.
- A pergunta importante: esse pequeno grupo adicional que sobreviveu viveu quanto tempo a mais? Um dia? Um mês? Anos?
- O método: analisando as curvas de sobrevivência, os autores estimaram que a diferença correspondia a cerca de 9 meses de adiamento da morte — mas apenas para a pequena parcela que efetivamente se beneficiou.
- O cálculo populacional: 274 dias multiplicados por 1,3% da população beneficiada resultam em cerca de 3,5 dias de ganho médio em 4 anos.
- Por ano de tratamento: isso equivale a aproximadamente 18 a 19 horas por ano.
Ao analisar 11 ensaios clínicos, o estudo encontrou medianas de 3,2 dias de ganho de sobrevida na prevenção primária e 4,1 dias na prevenção secundária, ao longo de cerca de 5 anos de uso.
Uma analogia simples
Imagine a seguinte proposta: alguém oferece um comprimido diário, todos os dias, durante 5 anos. Em troca, ao final desse período, você terá vivido, em média, cerca de 4 dias a mais.
Agora imagine a mesma proposta sendo apresentada assim: “Este medicamento reduz seu risco de infarto em quase 30%!”
É a mesma evidência. A diferença está apenas na forma de apresentar os números.
O que mostram os estudos
A meta-análise de Byrne e colaboradores, publicada em 2022 no JAMA Internal Medicine, concluiu que as reduções absolutas de risco com estatinas são modestas quando comparadas às reduções relativas normalmente divulgadas.
Além disso, a meta-regressão foi inconclusiva quanto à associação entre maior redução do LDL-colesterol e melhores desfechos clínicos individuais. Em termos simples: reduzir mais o colesterol não significou, de forma clara, viver mais.
Já Diamond e Ravnskov, em artigo publicado em 2015 no Expert Review of Clinical Pharmacology, argumentaram que a apresentação quase exclusiva dos dados em formato de risco relativo ajudou a exagerar a percepção de benefício das estatinas.
E os efeitos colaterais?
A discussão não fica completa sem considerar os possíveis efeitos adversos. Um trabalho mais recente do grupo CTT, publicado no The Lancet em 2025, revisou dados de mais de 150 mil participantes em 23 ensaios clínicos e concluiu que muitos sintomas atribuídos às estatinas não parecem ser causados diretamente pelo medicamento.
Ainda assim, alguns efeitos confirmados permanecem relevantes para a decisão individual, como:
- sintomas musculares
- pequeno aumento no risco de diabetes
- alterações em enzimas hepáticas
O ponto principal não é dizer que estatinas são inúteis. O ponto é que a decisão de usá-las deveria ser feita com informação clara, incluindo risco relativo, risco absoluto e impacto real na expectativa de vida.
A pergunta que todo paciente deveria fazer
Quando uma estatina for recomendada, talvez a pergunta mais honesta seja esta:
“Qual é a redução absoluta do meu risco? Em termos de expectativa de vida, quanto tempo a mais, em média, esse tratamento pode me dar?”
Isso não é negar a ciência. É exigir transparência na forma como os dados são comunicados.
Conclusão
As estatinas são medicamentos reais, com benefícios reais — mas modestos. Em pessoas com risco cardiovascular elevado, podem fazer sentido como parte de uma estratégia mais ampla. Já na prevenção primária, em indivíduos saudáveis ou de menor risco, o ganho absoluto tende a ser pequeno e deve ser ponderado com mais cuidado.
O que não se justifica é transformar a recusa da estatina em sinônimo de sentença de morte. Os números mostram outra coisa: benefícios reais, porém bem mais modestos do que muita propaganda sugere.
Informe-se. Pergunte. Decida com dados, não com medo.
Referências científicas
- Byrne P, Demasi M, Jones M, et al. Evaluating the Association Between LDL-C Reduction and Relative and Absolute Effects of Statin Treatment. JAMA Intern Med. 2022;182(5):474-481.
- Kristensen ML, Christensen PM, Hallas J. The effect of statins on average survival in randomised trials, an analysis of end point postponement. BMJ Open. 2015;5:e007118.
- Diamond DM, Ravnskov U. How statistical deception created the appearance that statins are safe and effective. Expert Rev Clin Pharmacol. 2015;8(2):201-210.
- Reith C, et al. (CTT Collaboration). Assessment of adverse effects attributed to statin therapy in product labels: a meta-analysis of double-blind randomised controlled trials. The Lancet. 2025.
