Folato ativo x ácido fólico na gravidez


Este estudo analisou uma questão cada vez mais presente no mercado de suplementos pré-natais: substituir o ácido fólico pela forma biologicamente ativa 6S-5-metiltetrahidrofolato (5-MTHF) manteria o estado de folato da mãe e do feto sem aumentar a exposição ao chamado ácido fólico não metabolizado, conhecido pela sigla UMFA? O trabalho acompanhou gestantes durante 24 semanas e comparou dois multivitamínicos pré-natais: um contendo 5-MTHF e outro contendo ácido fólico.

A importância da pergunta é clara. O ácido fólico continua sendo a forma mais usada e recomendada na suplementação periconcepcional por causa de seu papel na prevenção de defeitos do tubo neural. Ao mesmo tempo, cresce o interesse por fórmulas com 5-MTHF, especialmente pela hipótese de que essa forma poderia manter o folato adequado com menor acúmulo de UMFA na circulação. O próprio artigo destaca que as implicações clínicas exatas do UMFA ainda não estão plenamente esclarecidas, mas esse marcador tem despertado atenção na literatura.

Como o estudo foi conduzido

Foram recrutadas 80 gestantes no primeiro trimestre, mas a intervenção começou entre 12 e 16 semanas de gestação, portanto já a partir do segundo trimestre. As participantes foram randomizadas para receber diariamente um multivitamínico com 1.000 μg DFE de 6S-5-MTHF ou outro com 1.330 μg DFE de ácido fólico durante 24 semanas. Ao final, 62 mulheres completaram o protocolo, com 31 em cada grupo. Amostras de sangue materno foram coletadas ao longo do estudo, e sangue de cordão e tecido placentário foram obtidos no parto.

Esse desenho dá ao estudo um mérito importante: ele não ficou restrito ao sangue materno, mas também avaliou placenta e sangue do cordão. Isso permitiu observar melhor o comportamento do folato na chamada díade mãe-feto. Por outro lado, o próprio artigo reconhece que os dois multivitamínicos não diferiam apenas na forma do folato. Havia também diferenças em outros nutrientes, como vitaminas do complexo B, colina e vitamina D. Isso torna a comparação mais parecida com a vida real, mas reduz a capacidade de atribuir todos os efeitos exclusivamente à troca entre ácido fólico e 5-MTHF.

O que os autores encontraram

O resultado central foi bastante direto: o grupo que usou 5-MTHF manteve concentrações semelhantes de folato total e de 5-MTHF no sangue materno, no sangue do cordão e na placenta, quando comparado ao grupo que usou ácido fólico. Em termos práticos, isso significa que a substituição não prejudicou o estado global de folato durante o segundo e o terceiro trimestres.

Ao mesmo tempo, o grupo que recebeu 5-MTHF apresentou menos UMFA detectável e menores concentrações médias de UMFA no sangue materno. Na semana 24, apenas 7% das participantes do grupo 5-MTHF tinham UMFA detectável, contra 31% no grupo ácido fólico. Na placenta, a diferença também foi clara: o UMFA foi menor no grupo 5-MTHF. No sangue do cordão, poucas amostras apresentaram UMFA detectável, e as duas identificadas pertenciam ao grupo que recebeu ácido fólico.

Outro dado relevante foi o consumo total de folatos. Mesmo com todos os participantes acima da ingestão recomendada para a gestação, o estudo mostrou que, ao final das 24 semanas, 29% do grupo ácido fólico ultrapassavam o limite superior tolerável, enquanto isso não ocorreu no grupo 5-MTHF, segundo a interpretação usada pelos autores com base na EFSA. Ainda assim, apesar dessa diferença de exposição, o estado total de folato permaneceu semelhante entre os grupos.

O que isso significa na prática

A leitura mais equilibrada do estudo é a seguinte: o 5-MTHF pareceu funcionar como uma alternativa eficaz ao ácido fólico para manter o estado de folato na segunda metade da gestação, com a vantagem bioquímica de reduzir o UMFA em compartimentos maternos e placentários. Esse é um achado relevante, porque sugere que a forma ativa do folato pode cumprir a função esperada sem elevar tanto esse marcador de exposição ao ácido fólico sintético não metabolizado.

Mas o estudo também impõe limites claros à interpretação. Ele não avaliou desfechos clínicos robustos, como defeitos do tubo neural, desenvolvimento neurológico da criança, complicações obstétricas ou benefícios clínicos diretos para mãe e bebê. Em outras palavras, os resultados são fortes para marcadores bioquímicos, mas ainda não autorizam afirmar que o 5-MTHF seja clinicamente superior ao ácido fólico em desfechos finais relevantes.

As principais limitações

O próprio artigo reconhece limitações importantes. A primeira é que a intervenção não incluiu o período periconcepcional nem o início do primeiro trimestre, que é justamente a fase mais crítica para a prevenção dos defeitos do tubo neural. A segunda é o tamanho relativamente pequeno da amostra. A terceira é que os suplementos comparados tinham diferenças em outros nutrientes, o que dificulta isolar completamente o efeito da forma de folato. Além disso, o estudo foi financiado pela Ritual, e alguns autores eram funcionários da empresa, o que exige leitura cuidadosa, mesmo sem invalidar automaticamente os resultados.

Conclusão

Este ensaio clínico acrescenta uma informação útil e relativamente sólida ao debate sobre suplementação pré-natal: durante o segundo e o terceiro trimestres, um multivitamínico com 6S-5-MTHF manteve o folato materno e fetal em níveis comparáveis aos do ácido fólico, mas com menor presença de ácido fólico não metabolizado no sangue materno e na placenta. Trata-se de um resultado relevante, mas ainda restrito ao campo bioquímico. A literatura ainda precisa de estudos maiores, mais longos e com desfechos clínicos diretos antes que se possa defender uma superioridade clínica ampla de uma forma sobre a outra.

Fonte: https://doi.org/10.3389/fnut.2026.1679067

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