Autismo: o papel do colesterol no tratamento


Em 2008, Aneja e Tierney revisaram evidências e hipóteses biológicas sugerindo que um déficit de colesterol pode contribuir para alguns quadros do transtorno do espectro do autismo (TEA), especialmente quando há alterações genéticas do metabolismo do colesterol, como na síndrome de Smith–Lemli–Opitz (SLOS).

O artigo parte de um ponto central: colesterol não é apenas um “número de exame”. Ele é descrito como essencial para:

  • produção de esteroides neuroativos,
  • crescimento de membranas de mielina,
  • desenvolvimento embrionário e fetal,
  • além de influenciar a função de receptores ligados à sociabilidade e ao comportamento (como o receptor de oxitocina e o receptor serotoninérgico 5-HT1A).

Por que a SLOS é tão importante nessa discussão

A SLOS é apresentada como um modelo natural para entender a relação entre colesterol e fenótipos semelhantes ao TEA. Trata-se de um erro inato do metabolismo causado por mutações no gene DHCR7, que compromete a conversão de 7-dehidrocolesterol (7DHC) em colesterol, levando a baixa produção de colesterol e acúmulo de 7DHC.

O artigo descreve que, na SLOS, quanto menor o colesterol plasmático, maior tende a ser a gravidade das alterações fenotípicas, incluindo malformações e alterações do neurodesenvolvimento.

Além de características físicas, a SLOS pode apresentar um perfil comportamental com muitos traços vistos no TEA, como dificuldades sociais e de linguagem e comportamentos repetitivos. Em um estudo citado, 53% de 17 indivíduos com SLOS preencheram critérios diagnósticos de autismo por instrumentos padronizados; outro trabalho citado reportou que cerca de três quartos das crianças com SLOS tinham alguma variante de TEA.

E no TEA “típico”: o que aparece de diferente?

Um ponto relevante trazido pelas autoras é que, em uma amostra de 100 crianças com TEA de famílias com mais de um afetado (repositório AGRE), nenhuma teve perfil laboratorial compatível com SLOS, mas 19/100 apresentaram colesterol total abaixo de 100 mg/dL (abaixo do 5º percentil para crianças acima de 2 anos, segundo o artigo).

O texto discute que, nesses casos, a hipótese não seria “apenas dieta” ou perda intestinal, mas possivelmente redução intrínseca da síntese de colesterol, sugerida por marcadores de precursores (como lathosterol) mais baixos quando comparados a situações de baixa ingestão/absorção.

Mecanismos biológicos propostos (o “como” isso poderia influenciar comportamento)

O artigo organiza algumas vias que poderiam conectar colesterol e fenótipos do TEA, com base em estudos e modelos (incluindo modelos animais de SLOS):

  1. Desenvolvimento embrionário/fetal e sinalização “hedgehog”. As autoras citam que colesterol é necessário para etapas do desenvolvimento e que sua insuficiência pode afetar vias de padronização, com alterações do SNC observadas na SLOS.
  2. Esteroides neuroativos e modulação de receptores. Defeito na síntese de colesterol pode levar a produção anormal de esteroides neuroativos, que modulam receptores e podem se relacionar a sintomas como ansiedade e alterações de humor (o artigo cita também achados de DHEA/DHEA-S em adultos com TEA).
  3. Mielinização. O texto destaca evidências experimentais sugerindo que colesterol pode ser fator limitante para maturação cerebral quando a síntese é prejudicada em células formadoras de mielina.
  4. Oxitocina e sociabilidade. As autoras mencionam que colesterol pode modular a função do receptor de oxitocina, e que oxitocina se relaciona a cognição/socialização.
  5. Serotonina, transportadores e “lipid rafts”. O artigo descreve colesterol como modulador de ligação e acoplamento do receptor 5-HT1A e como componente estrutural importante em microdomínios de membrana (“lipid rafts”) associados ao transporte de neurotransmissores.

O ponto em comum dessas vias é simples de entender: se o cérebro em desenvolvimento depende de membranas, mielina, receptores e esteroides, e se colesterol participa diretamente disso, um déficit relevante poderia desorganizar etapas críticas do neurodesenvolvimento em subgrupos específicos.

Avaliação clínica: quando pensar em SLOS e o que pedir

O artigo ressalta que sociedades profissionais recomendam triagens para causas reconhecidas de TEA e destaca, especificamente para SLOS, que:

  • o diagnóstico bioquímico é confirmado por 7DHC plasmático elevado em relação ao colesterol,
  • colesterol total normal não exclui SLOS, porque pode haver casos com colesterol total normal e 7DHC apenas discretamente elevado,
  • portanto, o exame-chave é a razão 7DHC/colesterol.

Tratamento descrito para SLOS: suplementação de colesterol

Para SLOS, o artigo descreve como padrão a suplementação dietética de colesterol assim que o diagnóstico é feito, usando fontes naturais (como gema de ovo, creme, fígado) ou colesterol purificado. Para colesterol purificado, o texto indica dose inicial de 40–50 mg/kg/dia, chegando a 150 mg/kg/dia para manutenção.

As autoras relatam que estudos abertos e relatos indicaram, em SLOS, melhora de:

  • comportamentos autísticos e infecções,
  • crescimento/ganho de peso e sono,
  • irritabilidade/hiperatividade e atenção,
  • sociabilidade (mais interação),
  • além de agressividade, autoagressão, crises de temperamento, tricotilomania e defensividade tátil.

O artigo também menciona um achado preliminar: entre indivíduos que iniciaram suplementação antes dos 5 anos, a proporção que preenchia critérios para autismo aos 4–5 anos foi menor do que entre os que não haviam sido suplementados até essa idade (dados descritos como preliminares).

Um detalhe importante e “contraintuitivo”: estatinas na SLOS

O texto cita linhas de evidência sugerindo que, em casos leves de deficiência de DHCR7, estatinas (medicamentos usados para reduzir colesterol em outros contextos) poderiam paradoxalmente aumentar colesterol por efeitos sobre expressão/atividade residual da enzima, apoiados por experimentos in vitro e modelos animais.
Isso aparece como uma possibilidade mecanística discutida no artigo — não como recomendação generalizada.

Conclusão

A revisão conclui que:

  • vale investigar SLOS em pessoas com TEA que tenham características físicas ou comportamentais sugestivas, porque há teste específico e há abordagem terapêutica descrita;
  • e levanta a pergunta científica mais ampla: será que existem alterações do metabolismo do colesterol, fora da SLOS, em uma parcela do TEA “típico”?

Em outras palavras, o artigo não afirma que colesterol “explica” TEA como um todo. Ele defende que em subgrupos bem definidos — especialmente em erros inatos do metabolismo — colesterol pode ser uma peça central, tanto para diagnóstico quanto para manejo.

Fonte: https://doi.org/10.1080/09540260801889062

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