Um estudo clínico controlado e randomizado acompanhou, por 8 semanas, homens recreacionalmente ativos que realizaram o mesmo programa de treinamento de corrida, mas com estratégias diferentes de carboidratos na dieta. A pergunta central era simples: mudar o teor de carboidratos melhora o desempenho?
Os participantes foram distribuídos em três grupos:
- PER (periodizado): 4 semanas com ≤ 50 g/dia de carboidratos, seguidas de 4 semanas com alta ingestão de carboidratos (50–60% da energia).
- LCHF: 8 semanas com ≤ 50 g/dia de carboidratos e alto teor de gorduras.
- CHO: 8 semanas com alta ingestão de carboidratos (50–60% da energia).
O ponto principal: o desempenho melhorou, mas não por causa do carboidrato
Ao final, os marcadores de desempenho melhoraram ao longo do tempo, mas não houve diferenças significativas entre os grupos. Em outras palavras, quem ficou com alto carboidrato, quem ficou com baixo carboidrato e quem alternou fases melhorou de forma semelhante em testes laboratoriais de corrida.
O estudo mediu desempenho por meio de um teste incremental em esteira até a exaustão, incluindo:
- Velocidade máxima alcançada (peak running speed)
- Tempo até a exaustão (time to exhaustion)
- VO₂pico (relativo e absoluto)
Em todos esses desfechos, não apareceu uma vantagem clara de uma dieta alta em carboidratos sobre uma dieta com restrição de carboidratos, nem do periodizado sobre os outros. O ganho observado foi interpretado como consequência do treinamento realizado ao longo das 8 semanas, e não do “tipo de combustível” escolhido.
Então carboidrato “não faz diferença”?
O estudo não diz que carboidratos são irrelevantes em todo contexto. O que ele mostra, com os dados testados, é algo mais específico:
- A forma como o corpo usa energia muda bastante conforme a dieta.
- O desempenho medido naquele protocolo não mudou entre dietas.
Isso ficou claro nos resultados metabólicos. Nas primeiras 4 semanas, os grupos com baixo carboidrato (PER e LCHF) aumentaram a oxidação de gordura e reduziram o uso de carboidratos durante o exercício. Depois, quando o grupo PER reintroduziu carboidratos, esse padrão voltou na direção do basal, indicando flexibilidade metabólica reversível. Já o LCHF manteve o padrão de maior uso de gordura até o fim.
Um detalhe importante: “mudou a fisiologia”, não o placar
O artigo é explícito ao concluir que a periodização de carboidratos afetou principalmente variáveis metabólicas e fisiológicas, sem produzir melhora clara nos desfechos de desempenho avaliados no teste incremental.
Além disso, os autores ressaltam limitações relevantes:
- O estudo avaliou respostas em teste laboratorial (incremental), e não em provas mais “reais” (como contrarrelógio).
- O tamanho amostral foi modesto, e análises de poder estatístico sugerem cautela na interpretação de alguns desfechos (possibilidade de não detectar pequenas diferenças).
- A dieta foi acompanhada com registros alimentares, que podem ter subnotificação, algo reconhecido pelos autores.
Conclusão
Dentro deste desenho (8 semanas, corredores recreacionais, mesmo treino, teste incremental), a comparação foi direta: dietas com alto e baixo teor de carboidratos não produziram diferença relevante no desempenho atlético medido. O que muda de forma mais consistente é como o organismo escolhe o combustível durante o esforço — gordura ou carboidrato — e isso pode ser reversível quando os carboidratos voltam.
