Na segunda edição de Cases of the Diabetes Mellitus (1798), John Rollo inclui o relato de três casos de diabetes em mulheres descritos pelo médico Gerard, de Liverpool. Em um desses casos, o registro menciona que a paciente recebeu uma combinação de alimentos de origem animal, laxantes, eméticos e “amônia hepatizada”, e que, após várias semanas, encontrava-se bem o suficiente para ser considerada curada e prestes a receber alta do tratamento.
Esse trecho ilustra, em poucas linhas, vários elementos centrais da terapêutica do diabetes no fim do século XVIII:
- a ênfase em dieta predominantemente animal;
- o uso de medicamentos evacuantes (laxantes e eméticos);
- a tentativa de empregar substâncias químicas específicas, como a amônia hepatizada, na expectativa de modular a doença.
Do ponto de vista histórico, trata-se de um momento em que o diabetes ainda era entendido sobretudo como um problema de “excesso de matéria sacarina” eliminada na urina, supostamente derivada dos alimentos vegetais, e em que se buscava reduzir essa carga por meio de forte restrição alimentar e de intervenções químicas e evacuantes.
2. Dieta “animal” como eixo terapêutico
Nos relatos compilados por Rollo, a orientação dietética segue um padrão relativamente consistente: substituição quase total dos vegetais por alimentos de origem animal, frequentemente descrita como “dieta inteiramente animal” ou “principalmente de substâncias animais”.
A lógica dessa abordagem, repetida em resumos históricos posteriores, baseava-se em três ideias principais:
- O açúcar encontrado na urina diabética seria de origem “vegetal”, isto é, derivado de carboidratos consumidos em frutas, cereais e outros vegetais.
- A eliminação ou redução extrema desses alimentos poderia diminuir a produção de açúcar e, consequentemente, sua perda pela urina.
- A proteína e a gordura de origem animal seriam, nesse contexto, “mais seguras” por não serem vistas como fontes diretas daquele açúcar urinário.
No caso descrito por Gerard, o uso simultâneo de alimentos animais e de outras medidas (laxantes, eméticos, amônia hepatizada) é apresentado como parte de um mesmo plano terapêutico, mas, na interpretação histórica, a restrição de vegetais e de amidos/sacarídeos aparece repetidamente como o componente mais estruturado e sistemático do tratamento de Rollo.
3. Laxantes e eméticos: a lógica evacuante da época
O trecho destaca ainda que a paciente recebeu laxantes e eméticos em conjunto com a dieta e a amônia hepatizada. Esse tipo de conduta era coerente com a prática médica do período, na qual:
- purgantes, laxantes e eméticos eram amplamente usados para “corrigir desequilíbrios” internos;
- acreditava-se que a remoção de humores ou conteúdos gástricos e intestinais poderia modular o curso de doenças crônicas, incluindo o diabetes.
Revisões históricas da terapêutica pré-insulina mostram que, ao longo do século XIX, diversos clínicos testaram combinações de dietas restritivas, sangrias, purgantes e agentes químicos na tentativa de controlar o diabetes, sempre com resultados muito variáveis e, muitas vezes, apenas temporários.
No caso citado por Rollo, o fato de a paciente ter sido considerada “praticamente curada” após várias semanas deve ser entendido à luz dos critérios clínicos disponíveis na época: melhora dos sintomas, redução do volume de urina e diminuição (ou desaparecimento) do sabor doce percebido empiricamente na urina, e não dados laboratoriais padronizados como se utilizam hoje.
4. O que era a “amônia hepatizada”
O trecho menciona que a paciente recebeu “hepatised ammonia” (amônia hepatizada). Fontes históricas posteriores esclarecem que se tratava de uma preparação farmacêutica à base de sulfeto de amônio (amônio sulfídrico), contendo componentes como sulfeto de hidrogênio e hidrossulfeto de amônio.
Essa substância foi proposta por médicos próximos a Rollo (como William Cruickshank) como um possível agente “mais certo e ativo” na tentativa de modificar o estado metabólico do paciente diabético, embora os registros disponíveis indiquem resultados inconsistentes e ausência de comprovação robusta, mesmo dentro dos padrões metodológicos da época.
Do ponto de vista da fisiologia moderna, sabe-se que amônia e compostos amoniacais em excesso são tóxicos para o organismo, especialmente para o sistema nervoso central e para pacientes com disfunção hepática, sendo centrais na patogênese da encefalopatia hepática. Por esse motivo, preparações como a amônia hepatizada não têm qualquer papel na terapêutica contemporânea do diabetes, nem constam em diretrizes modernas.
5. “Alta como curada”: limites dessa conclusão
Quando o relato afirma que a paciente estava “tão bem que estava prestes a ser dispensada como curada”, é importante considerar alguns pontos à luz das evidências disponíveis:
- No fim do século XVIII, não existiam métodos padronizados para medir glicemia nem critérios modernos de remissão de diabetes.
- O acompanhamento era feito, principalmente, por observação clínica de sintomas e por testes empíricos da urina (volume, aspecto, sabor e, em alguns casos, tentativa de cristalizar o açúcar).
- Vários relatos da época, incluindo os compilados por Allen, mostram que melhoras temporárias podiam ocorrer com dietas muito restritivas, mas recaídas eram frequentes quando o regime era relaxado.
Assim, a expressão “curada” deve ser entendida como remissão clínica observada naquele período específico, e não como prova, no sentido atual, de reversão permanente da doença. As fontes disponíveis não documentam seguimento prolongado dessas três mulheres capazes de demonstrar remissão sustentada.
6. Comparação com o tratamento atual do diabetes em mulheres
A comparação entre essa conduta histórica e as recomendações atuais ressalta o quanto a terapêutica do diabetes evoluiu. As principais diretrizes contemporâneas, como os Standards of Care da American Diabetes Association (ADA) e documentos da Organização Mundial da Saúde (OMS), descrevem que o manejo do diabetes baseia-se em:
- mudanças estruturadas de estilo de vida, com alimentação saudável e atividade física regular;
- uso de medicações com eficácia e segurança demonstradas em ensaios clínicos, como metformina, análogos de GLP-1, inibidores de SGLT-2, insulina e outros fármacos, conforme o caso;
- controle de fatores de risco associados (pressão arterial, perfil lipídico, tabagismo);
- rastreamento sistemático e tratamento das complicações microvasculares e macrovasculares.
No caso específico de mulheres, há recomendações adicionais para:
- planejamento reprodutivo e manejo do diabetes na gestação;
- rastreamento e manejo de diabetes após diabetes mellitus gestacional (DMG);
- avaliação de risco cardiovascular ao longo da vida.
Nenhuma dessas diretrizes menciona amônia hepatizada, eméticos ou purgantes como componentes aceitáveis do tratamento. Pelo contrário, o foco recai sobre intervenções cuja eficácia e segurança foram estabelecidas por estudos clínicos controlados.
7. Como interpretar hoje o relato de Gerard
A partir das evidências disponíveis, o trecho sobre as três mulheres tratadas por Gerard pode ser interpretado, de forma documentada, da seguinte maneira:
- Ele representa um exemplo concreto da fase “dietético-química” pré-insulina da história do diabetes, em que médicos como Rollo e seus colaboradores buscavam controlar a doença por meio de dietas de quase exclusivamente alimentos animais e de agentes químicos como a amônia hepatizada.
- A combinação de dieta animal, laxantes, eméticos e amônia hepatizada é relatada como tendo produzido melhora clínica suficiente para dar alta a pelo menos uma das pacientes, mas não há dados de seguimento de longo prazo que permitam afirmar remissão sustentada.
- O conhecimento fisiopatológico acumulado posteriormente mostra que amônia e seus derivados em excesso são potencialmente tóxicos, o que reforça que esse tipo de terapia não é compatível com a prática baseada em evidências atual.
Em síntese, o registro de Gerard, citado por Rollo, é uma fonte histórica valiosa para entender como o diabetes em mulheres foi tratado no fim do século XVIII. A utilidade atual desse relato está em documentar a evolução do conhecimento.
Fonte: https://amzn.to/3JclsBn*Íntegra disponível na newsletter
