Por que “calorias que entram vs. calorias que saem” não explica tudo


Por Michael Eades,

1. A ideia simples que não dá conta do problema

Por muitos anos, a explicação dominante para o ganho de peso foi o modelo CICO (Calories In, Calories Out): “calorias que entram, calorias que saem”. Nesse raciocínio, se uma pessoa está acima do peso, a causa seria direta: come demais, gasta de menos. A solução, portanto, seria apenas comer menos e se exercitar mais.

Esse modelo parte de um ponto verdadeiro: a energia não desaparece. Tudo o que entra no corpo precisa ser usado, armazenado ou eliminado. O problema é transformar essa verdade física numa explicação completa da obesidade. A experiência de milhões de pessoas mostra que, muitas vezes, reduzir calorias e aumentar exercício não produz o resultado esperado, ou produz apenas por pouco tempo.

Ao mesmo tempo, nas últimas décadas, a obesidade aumentou de forma marcante em vários países, mesmo com grande parte da população ouvindo, repetidamente, recomendações para “comer menos gordura” e “fazer mais atividade física”. Isso sugere que faltam peças importantes quando o tema é explicado apenas como uma conta de calorias.

É nesse ponto que entra o conceito de partição de nutrientes.

2. O que é “partição de nutrientes”

Em vez de olhar apenas para quantas calorias entram e saem, a partição de nutrientes pergunta para onde essas calorias vão dentro do corpo. Em termos simples, cada refeição pode ser direcionada principalmente para:

  • produção imediata de energia (queima);
  • armazenamento como gordura;
  • construção e manutenção de tecidos (por exemplo, músculo).

Esse “destino” não é aleatório. Ele é influenciado por:

  • hormônios (especialmente insulina);
  • estado metabólico (sensibilidade à insulina, inflamação, função mitocondrial);
  • tipo de alimento ingerido (qualidade e combinação de nutrientes).

Uma síntese ampla dessa visão foi publicada em 2024 por Mark I. Friedman e colaboradores, em uma revisão de 80 anos de estudos experimentais em animais e humanos sobre como o corpo redireciona combustíveis em direção ao armazenamento de gordura ou à oxidação. Nesse trabalho, os autores mostram que animais obesos podem acumular gordura mesmo comendo a mesma quantidade de calorias – ou menos – do que animais magros, porque a forma como o organismo reparte o combustível é diferente.

Em outras palavras: não é só “quanto” se come, mas o que o corpo faz com aquilo que entra.

3. O que mudou na alimentação nas últimas décadas

Quando se compara a situação atual com a década de 1960, diversos fatores mudaram ao mesmo tempo:

  • aumento forte no consumo de produtos ultraprocessados, misturando farinha refinada, açúcares e óleos vegetais;
  • substituição gradual de gorduras de origem animal por óleos vegetais ricos em ácidos graxos poli-insaturados (como óleo de soja, milho, girassol);
  • diretrizes oficiais defendendo redução de gordura total e, em especial, de gordura saturada, o que levou ao aumento proporcional de carboidratos na dieta.

Essas mudanças ocorreram em paralelo com o aumento da obesidade. Isso não prova que um único fator seja o responsável, mas indica que o padrão global de alimentação mudou justamente no período em que o ganho de peso se tornou mais comum.

A partir daí, estudos experimentais começam a explorar perguntas como:

  • diferentes tipos de gordura são tratados da mesma forma pelo corpo?
  • o tipo de gordura pode influenciar se a energia entra ou não nas células de gordura?
  • é possível que duas dietas com a mesma quantidade de calorias levem a quantidades diferentes de gordura corporal ao longo do tempo?

O conceito de partição de nutrientes ajuda a organizar essas questões em um modelo coerente.

4. O papel das mitocôndrias e da “distribuição interna” da energia

No interior das células, a maior parte da energia utilizável é fornecida por uma molécula chamada ATP. Esse ATP é produzido principalmente nas mitocôndrias, que funcionam como “usinas de energia” celulares. Ali, carboidratos e gorduras são convertidos em ATP por meio de uma sequência de reações que incluem:

  • quebra dos nutrientes em unidades menores (como acetil-CoA);
  • produção de moléculas intermediárias de alta energia (NADH e FADH₂);
  • passagem de elétrons por uma cadeia de transporte, que movimenta prótons através de uma membrana;
  • uso desse gradiente de prótons por uma enzima chamada ATP sintase para fabricar ATP.

Esse sistema não é apenas um “fio elétrico” neutro. A forma como a energia entra na mitocôndria – e o equilíbrio entre diferentes intermediários – produz sinais químicos que ajudam a regular:

  • a sensibilidade à insulina;
  • a tendência a estocar ou queimar gordura;
  • o grau de estresse oxidativo dentro da célula.

Diversos estudos mostram que mitocôndrias em células de gordura (adipócitos) usam pequenas quantidades de espécies reativas de oxigênio como sinais regulatórios, e não apenas como “lixo tóxico”. Mudanças nesses sinais podem deixar a célula mais ou menos sensível à insulina, facilitando ou dificultando a entrada de gordura. Esses achados vêm principalmente de estudos de bioquímica e modelos animais, e são usados como base para hipóteses sobre o comportamento do tecido adiposo em humanos.

5. Gorduras diferentes, respostas diferentes (hipótese em estudo)

Do ponto de vista calórico, 1 grama de gordura sempre fornece em torno de 9 kcal, seja de um óleo vegetal, seja de uma gordura de origem animal. Porém, ao entrar nas mitocôndrias, ácidos graxos saturados e insaturados não geram exatamente o mesmo padrão de intermediários (como NADH e FADH₂) durante a chamada beta-oxidação.

De forma bastante simplificada:

  • ácidos graxos saturados tendem a gerar, por unidade de carbono, um pouco mais de FADH₂;
  • ácidos graxos poli-insaturados, típicos de muitos óleos vegetais, tendem a gerar relativamente menos FADH₂ em certas etapas.

Esse detalhe técnico é importante porque FADH₂ e NADH alimentam a cadeia de transporte de elétrons de maneiras diferentes. Em determinadas condições, um fluxo mais intenso via FADH₂ pode favorecer um fenômeno conhecido como transporte reverso de elétrons, que aumenta a produção de espécies reativas de oxigênio em um ponto específico da cadeia.

Estudos de laboratório sugerem que, em adipócitos:

  • pequenos aumentos controlados dessas espécies reativas podem gerar um sinal que reduz a sensibilidade à insulina apenas naquela célula de gordura, dificultando a entrada de mais gordura quando ela já está “cheia”;
  • se esse sinal é menos acionado, a célula de gordura tende a continuar aceitando mais gordura sob a ação da insulina.

Com base nisso, alguns autores propõem a seguinte hipótese:

  • uma dieta com maior proporção de gorduras saturadas poderia, em certas condições, aumentar esse sinal local que limita o armazenamento de gordura em adipócitos já cheios;
  • uma dieta com alta proporção de óleos vegetais poli-insaturados teria menor ativação desse “freio local”, facilitando o acúmulo contínuo de gordura ao longo do tempo, mesmo sem aumento proporcional da ingestão calórica.

É importante destacar que se trata de uma hipótese mecanicista, construída a partir de dados de bioquímica, cultura celular e modelos animais. Ela é usada para tentar explicar, em parte, por que duas dietas com a mesma quantidade de calorias podem resultar em trajetórias diferentes de ganho de gordura. A evidência direta em estudos humanos de longo prazo ainda é limitada, e não há consenso definitivo sobre o papel isolado desse mecanismo.

O trabalho de Friedman e colaboradores em 2024 discute justamente esse tipo de cenário, em que a forma como o organismo reparte o combustível entre oxidação e armazenamento pode favorecer a obesidade mesmo sem excesso evidente de ingestão calórica.

6. O que isso significa na prática, com base na evidência disponível

A partir dos dados experimentais e das revisões recentes, algumas conclusões prudentes podem ser tiradas:

  1. O balanço calórico continua valendo, mas não explica sozinho. A conservação de energia é uma lei física, mas não responde à pergunta central: “por que, em algumas pessoas, mais dessa energia vai para o tecido adiposo e menos para a queima?” A teoria da partição de nutrientes mostra que a forma como o corpo distribui o combustível é uma peça crucial do quebra-cabeça.
  2. O tipo de alimento interfere no destino das calorias. Não basta contar calorias; a combinação de ingredientes (açúcares, amidos refinados, tipo de gordura, teor de proteína) influencia a resposta hormonal, o comportamento do tecido adiposo e a tendência à oxidação versus armazenamento. Vários estudos em animais, resumidos na revisão de 2024, mostram que padrões de partição de combustível podem mudar fortemente dependendo da composição da dieta, mesmo com ingestão energética semelhante.
  3. O papel dos óleos vegetais e da gordura saturada ainda está em debate. Há evidência de que recomendações amplas de redução de gordura saturada podem ser mais complexas do que se pensava originalmente, e que o impacto sobre eventos cardiovasculares depende do contexto dietético geral. Em paralelo, cresce o interesse em investigar se o consumo muito elevado de óleos vegetais ricos em ácido linoleico tem efeitos específicos sobre o metabolismo e o tecido adiposo. No momento, porém, a literatura ainda não oferece uma resposta definitiva sobre qual proporção exata de cada tipo de gordura seria ideal para todas as pessoas.
  4. Partição de nutrientes é um campo em evolução. O trabalho de 2024 de Friedman e colegas serve como marco conceitual, mas não encerra a discussão. Novos estudos em humanos, de longo prazo, são necessários para confirmar em que medida os mecanismos observados em modelos animais se aplicam à obesidade humana em diferentes contextos de estilo de vida.

7. Conclusão

Em síntese, o contraste entre CICO e partição de nutrientes não é um conflito entre ciência e “não ciência”, mas entre:

  • um modelo muito simples, que considera apenas a soma das calorias;
  • um modelo mais completo, que leva em conta o destino interno dessas calorias e a forma como hormônios, mitocôndrias e tecidos conversam entre si.

A teoria da partição de nutrientes, apoiada em décadas de pesquisa experimental e sistematizada na revisão de Friedman e colaboradores em 2024, indica que o corpo não é apenas um “banco de calorias”, mas um sistema regulado que decide, o tempo todo, se vai queimar, estocar ou redirecionar a energia que recebe.

Essa perspectiva ajuda a entender por que duas pessoas, com ingestões calóricas semelhantes, podem ter desfechos completamente diferentes em termos de peso e saúde metabólica, e por que estratégias de tratamento da obesidade precisam olhar além da contagem de calorias e considerar, com cuidado, a qualidade e a combinação dos alimentos consumidos.

Fonte: https://arrow.proteinpower.com/p/the-arrow-257-whose-cup-china-tabs-nutrient-partitioning

Postagem Anterior Próxima Postagem
Rating: 5 Postado por: