O artigo publicado na revista BMC Nephrology analisa de forma sistemática se a suplementação de creatina compromete ou não a função dos rins em humanos, reunindo os dados disponíveis entre 2000 e 2025 em um só trabalho de referência.
A creatina monohidratada é um dos suplementos mais estudados no mundo para melhora de desempenho físico. Também vem sendo testada em doenças reumatológicas, neurológicas e outras situações clínicas. Apesar disso, ainda existe receio de que seu uso possa “forçar” os rins, principalmente porque a creatina é metabolizada em creatinina, um marcador clássico usado para estimar a função renal.
O objetivo central do trabalho foi responder: a suplementação de creatina, nas doses usualmente usadas em estudos clínicos, altera marcadores de função renal, especialmente creatinina sérica e taxa de filtração glomerular (TFG)?
Como a revisão foi feita
Os autores seguiram as diretrizes PRISMA para revisões sistemáticas e metanálises e fizeram buscas em quatro grandes bases de dados: PubMed, Scopus, Web of Science e Google Scholar, incluindo apenas estudos em humanos, publicados em inglês entre janeiro de 2000 e março de 2025.
Foram incluídos:
- Ensaios clínicos randomizados e controlados
- Estudos observacionais (coortes e antes–depois)
- Estudos com qualquer forma de creatina oral (principalmente creatina monohidratada)
- Participantes de qualquer idade, sexo ou condição clínica (indivíduos saudáveis, atletas e pacientes com doenças crônicas)
Foram excluídos:
- Estudos em animais ou modelos in vitro
- Relatos de caso, revisões narrativas, editoriais e resumos sem dados completos
- Estudos sem desfechos renais ou sem dados suficientes para análise
Ao final do processo, 21 estudos foram considerados elegíveis para a revisão qualitativa. Desses, um subconjunto com dados numéricos completos foi incluído na metanálise:
- Creatinina sérica: 12 estudos, totalizando 177 participantes no grupo creatina e 263 no grupo controle
- Taxa de filtração glomerular (TFG): 5 estudos, com 69 participantes em creatina e 74 em controle
As análises estatísticas foram feitas com modelos de efeitos aleatórios, dada a heterogeneidade entre os estudos (diferenças de dose, duração, população e metodologia de medida).
Populações avaliadas
Os estudos incluíram uma variedade de grupos, o que torna os resultados mais aplicáveis a cenários diversos. Entre eles:
- Adultos jovens saudáveis, sedentários ou fisicamente ativos
- Atletas (por exemplo, jogadores de futebol americano)
- Indivíduos em treinamento resistido consumindo dieta rica em proteína
- Mulheres pós-menopausa
- Pessoas com diabetes tipo 2
- Pacientes com doença arterial periférica
- Pacientes com insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida
Em vários ensaios, os autores relatam explicitamente que não houve eventos adversos renais graves associados ao uso de creatina dentro dos protocolos estudados.
Principais desfechos avaliados
Os dois marcadores centrais foram:
- Creatinina sérica: produto da degradação da creatina, usado rotineiramente para estimar função renal.
- Taxa de filtração glomerular (TFG): medida direta ou estimada (por fórmulas que usam creatinina), considerada o melhor indicador global de função renal.
Alguns estudos também avaliaram marcadores complementares, como cistatina C, proteinúria e albuminúria, mas a metanálise concentrou-se em creatinina e TFG.
Resultados sobre creatinina sérica
A metanálise mostrou que a suplementação de creatina está associada a um pequeno aumento estatisticamente significativo da creatinina sérica quando comparada ao controle.
Quando os autores dividiram os estudos por tempo de seguimento, observaram três fases:
Até 1 semana de suplementação:
- O aumento da creatinina foi significativo.
- Interpretação dos autores: essa fase reflete principalmente o aumento rápido do pool corporal de creatina e seu metabolismo em creatinina, um efeito esperado do ponto de vista bioquímico.
- Entre 1 e 12 semanas:
- O efeito sobre a creatinina deixou de ser estatisticamente significativo.
- Sugere uma fase de adaptação, na qual estoques musculares se estabilizam e o organismo ajusta produção e excreção.
- Acima de 12 semanas:
- O aumento da creatinina volta a ser estatisticamente significativo.
- Os autores interpretam esse achado como um reflexo de turnover contínuo da creatina, e não como sinal claro de lesão renal, especialmente porque outros marcadores de função dos rins permanecem estáveis.
É importante ressaltar que o artigo alerta: usar apenas a creatinina sérica para avaliar função renal em pessoas que usam creatina pode ser enganoso, já que a creatinina, nesse contexto, é influenciada diretamente pelo suplemento, não apenas pelo rim.
Resultados sobre a taxa de filtração glomerular (TFG)
Nos cinco estudos com dados suficientes para metanálise de TFG, não houve diferença estatisticamente significativa na TFG entre os grupos que usaram creatina e os grupos controle.
Isso vale tanto para:
- TFG medida diretamente por marcadores exógenos (quando disponível)
- TFG estimada por fórmulas baseadas em creatinina
A manutenção da TFG é um ponto chave, pois é esse indicador que reflete a capacidade global dos rins de filtrar o sangue. Segundo os autores, o fato de a TFG permanecer estável reforça a interpretação de que o pequeno aumento da creatinina sérica reflete mais o metabolismo da creatina do que dano renal.
Além disso, os estudos que avaliaram outros marcadores (cistatina C, proteinúria, albuminúria) não encontraram sinais consistentes de piora da função renal com o uso de creatina em doses usuais.
Heterogeneidade e risco de viés
Os autores destacam que houve:
Heterogeneidade importante nos resultados de creatinina (I² elevado), provavelmente devido a:
- Diferenças de dose e protocolo (fase de ataque, dose de manutenção, duração total)
- Perfis distintos de participantes (atletas, pacientes com doenças crônicas, faixas etárias variadas)
- Métodos laboratoriais diferentes para dosagem de creatinina
- Heterogeneidade moderada nos resultados de TFG.
Além disso, a avaliação de risco de viés mostrou, na maioria dos ensaios clínicos, “alguma preocupação” (“some concerns”), principalmente por:
- Falta de detalhes sobre geração de sequência aleatória e ocultação de alocação
- Tamanho de amostra pequeno
- Duração relativamente curta em muitos estudos
- Relato incompleto de perdas e registros de protocolo
As análises de funil (funnel plots) sugeriram possível viés de publicação ou efeito de estudos pequenos, mas análises adicionais (trim-and-fill) não alteraram as conclusões principais.
Limitações importantes destacadas pelos autores
O artigo reconhece várias limitações:
- Poucos dados de longo prazo, acima de um ano de seguimento;
- Relato incompleto de dose exata de creatina, padrão de treinamento e ingestão de proteína em alguns estudos;
- Ausência, na maioria dos artigos, de descrição detalhada do tipo de ensaio de creatinina usado, o que poderia influenciar os resultados por interferência analítica;
- Predominância de ensaios de pequeno porte e de centro único, o que limita a generalização dos achados.
Por isso, os autores defendem que novos estudos, mais longos, com maior número de participantes e melhor padronização laboratorial, são desejáveis para reforçar o nível de certeza sobre a segurança renal em diferentes populações.
Conclusão do artigo
Com base na síntese de 21 estudos em humanos, o trabalho conclui que:
- A suplementação de creatina está associada a um aumento modesto nos níveis de creatinina sérica, principalmente em fases iniciais e em protocolos mais longos;
- Esse aumento, porém, não se acompanha de queda na taxa de filtração glomerular, o que indica preservação da função renal nos contextos estudados;
- Em indivíduos saudáveis e em várias populações clínicas avaliadas (como diabetes tipo 2, doença arterial periférica e insuficiência cardíaca estável), a creatina, nas doses e durações testadas, não demonstrou causar dano renal mensurável;
- A interpretação de creatinina elevada em usuários de creatina deve considerar o uso do suplemento e, quando necessário, ser complementada por marcadores mais específicos de função renal (TFG medida, cistatina C, proteinúria, albuminúria).
Assim, o artigo oferece uma síntese robusta, dentro das limitações metodológicas existentes, sugerindo que a creatina monohidratada, em protocolos usuais de suplementação estudados entre 2000 e 2025, não prejudica a função renal mensurada pela TFG, embora possa elevar discretamente a creatinina sérica por efeito metabólico esperado.
