As associações entre dietas vegetarianas e veganas e sintomas de ortorexia nervosa: revisão sistemática e meta-análise


O estudo publicado no International Journal of Eating Disorders em 2025 reuniu evidências de diversos países para investigar se adultos que seguem dietas vegetarianas ou veganas apresentam mais sinais de ortorexia nervosa quando comparados a pessoas que consomem carnes. A ortorexia é caracterizada por uma preocupação excessiva com a alimentação “perfeita”, acompanhada de ansiedade, rigidez e impacto na vida cotidiana. Em tom ponderado, os autores destacam que esse padrão alimentar, em alguns casos, parece se associar a comportamentos alimentares problemáticos.

Como o estudo foi conduzido

Foi realizada uma revisão sistemática com meta-análise, reunindo 26 estudos observacionais que somaram mais de 23 mil adultos. Todos os estudos comparavam vegetarianos ou veganos com onívoros, utilizando escalas reconhecidas para medir sintomas de ortorexia. Apesar de trazer um panorama amplo, a qualidade metodológica da maioria dos estudos foi considerada baixa, algo que os próprios autores enfatizam como um ponto crítico.

Principais achados

1. Maior intensidade de sintomas

A análise conjunta mostrou que vegetarianos e veganos apresentaram, em média, níveis mais elevados de sintomas de ortorexia do que pessoas que consomem carne. Essa diferença, embora moderada, se repetiu na maior parte dos estudos incluídos.

2. Aumento da probabilidade de apresentar sintomas clínicos

Os participantes que seguiam dietas sem produtos de origem animal tiveram quase o dobro de chance de pontuar em faixas consideradas preocupantes nas escalas de ortorexia. Esse dado sugere que, dentro das amostras avaliadas, há maior risco de que comportamentos alimentares rigidamente saudáveis evoluam para padrões prejudiciais.

3. Sem diferença entre vegetarianos e veganos

Ao comparar diretamente vegetarianos e veganos, os níveis de sintomas foram semelhantes. Isso indica que o risco aumentado não parece depender do grau de restrição da dieta, mas sim do padrão geral de exclusão de determinados alimentos.

4. Impacto do tipo de instrumento usado

Os questionários mais sensíveis, como o DOS, mostraram diferenças ainda maiores entre grupos, reforçando que parte das pesquisas detecta traços mais intensos de controle alimentar, medo de alimentos “impuros” e sofrimento associado às escolhas alimentares.

Possíveis implicações negativas discutidas pelos autores

Em tom cuidadoso, os autores observam que os achados não afirmam que dietas vegetarianas ou veganas causam ortorexia. No entanto, eles apontam fatores que podem contribuir para essa associação:

  • Rigidez alimentar: em algumas pessoas, restrições extensas podem favorecer regras inflexíveis e ansiedade diante de escolhas alimentares.
  • Maior sensibilidade a padrões perfeccionistas: indivíduos com tendência a comportamentos obsessivos podem aderir a dietas restritivas como forma de controle.
  • Sobreposição com transtornos alimentares: alguns estudos sugerem que pessoas com sintomas prévios de transtornos alimentares podem migrar para dietas restritivas buscando justificativas socialmente aceitas para excluir alimentos.
  • Prejuízo social: em casos mais intensos, o comportamento alimentar pode gerar isolamento, dificuldade em participar de eventos sociais e sofrimento psicológico.

Essas observações são apresentadas como hipóteses fundamentadas na literatura, não como conclusões definitivas.

Limitações relevantes

Os autores fazem questão de destacar limitações importantes que podem influenciar os achados:

  1. Todos os estudos são seccionais. Não é possível saber se a dieta antecede os sintomas ou se pessoas já vulneráveis escolhem dietas mais restritivas.
  2. Baixa qualidade metodológica. A maioria dos estudos não controlou adequadamente fatores que poderiam influenciar os resultados, como histórico de transtornos alimentares, imagem corporal ou motivações pessoais.
  3. Escalas com limitações. Ferramentas amplamente usadas, como ORTO-15, têm problemas reconhecidos de precisão e podem superestimar sintomas.
  4. Grande variabilidade entre estudos. Diferenças nas populações, instrumentos e definições de dieta dificultam generalizações.

O próprio artigo conclui que ainda faltam evidências sólidas e estudos mais bem conduzidos para esclarecer a natureza dessa associação.

Conclusão

A revisão sistemática sugere, de forma consistente, que adultos que seguem dietas vegetarianas e veganas apresentam mais sintomas negativos relacionados à ortorexia do que aqueles que mantêm uma alimentação que inclui carnes. Os achados envolvem maior intensidade de sintomas, maior probabilidade de comportamentos alimentares rígidos e possíveis impactos emocionais e sociais.

Os autores ressaltam, com cautela, que esses resultados refletem associações observadas em estudos de qualidade limitada, e não estabelecem causalidade. No entanto, ressaltam a importância de que profissionais de saúde estejam atentos ao risco de que escolhas alimentares restritivas, quando acompanhadas de rigidez excessiva e sofrimento, possam evoluir para padrões prejudiciais.

Fonte: https://doi.org/10.1002/eat.24596

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