Proteínas Animais e Vegetais na Mortalidade por Câncer Gastrointestinal: O Que Revela o Estudo de Coorte Golestan

Um dos maiores estudos já realizados no Oriente Médio sobre dieta e câncer — o Golestan Cohort Study, com mais de 42 mil adultos acompanhados por 13 anos — revelou resultados surpreendentes sobre a ingestão de proteínas e o risco de morte por cânceres do sistema digestivo. Publicado em 2025 no The Journal of Nutrition, o estudo avaliou os efeitos de diferentes fontes de proteínas sobre a mortalidade por cânceres do esôfago, estômago, cólon e pâncreas. Os achados desafiam pressupostos comuns sobre dietas vegetais e reforçam os benefícios dos alimentos de origem animal.

Benefícios dos Alimentos de Origem Animal

1. Nenhum aumento no risco de câncer gastrointestinal

O consumo total de proteínas de origem animal (animal protein intake API) — incluindo carnes, aves, peixes, ovos e laticínios — não se associou a maior mortalidade por câncer gastrointestinal. Isso foi confirmado mesmo nos grupos com maior ingestão, demonstrando que essas fontes alimentares não são, por si, um fator de risco nesse tipo de câncer.

HRQ5 vs Q1 = 1,023; IC 95% = 0,626–1,673; p-trend = 0,976

2. Peixes como alimento protetor

Entre as fontes animais, o consumo de proteína de peixe apresentou associação inversa com o risco de morte por câncer GI.

HRQ5 vs Q1 = 0,766; IC 95% = 0,585–1,004; p-trend = 0,038

Esse efeito protetor pode ser explicado por:

  • Perfil inflamatório mais baixo dos peixes, especialmente os ricos em ômega-3;
  • Alto valor biológico das proteínas presentes nos peixes;
  • Potencial imunomodulador e influência positiva na microbiota intestinal.

3. Baixo risco mesmo com consumo de carne e ovos

Apesar do debate frequente sobre carnes vermelhas e câncer, este estudo se diferencia por avaliar uma população com consumo predominante de carne branca, peixe e ovos — e não encontrou associação de risco para esses alimentos.

Problemas dos Alimentos de Origem Vegetal (Padrão Refinado)

1. Aumento significativo da mortalidade por câncer gastrointestinal

O dado mais alarmante do estudo foi que a alta ingestão de proteínas vegetais (plant protein intake PPI) — em especial provenientes de grãos refinados — esteve associada a maior risco de morte por câncer gastrointestinal.

HRQ5 vs Q1 = 2,635; IC 95% = 1,368–5,074; p-trend = 0,005

Esse risco foi ainda mais acentuado para o câncer de esôfago:

HRQ5 vs Q1 = 5,226; IC 95% = 1,888–14,459; p-trend = 0,001

2. Fonte predominante: grãos refinados (88%)

A grande maioria da proteína vegetal consumida vinha de grãos altamente processados — como arroz branco, pão de farinha refinada e massas. Apenas uma fração mínima era proveniente de leguminosas, frutas, vegetais ou oleaginosas.

Esse padrão alimentar tem alto índice glicêmico e está associado a:

  • Inflamação sistêmica aumentada, medida por PCR-us;
  • Desbalanço na microbiota intestinal, favorecendo disbiose;
  • Aumento da resistência insulínica, um fator conhecido de risco para vários tipos de câncer.

"As fontes vegetais predominantes foram grãos refinados, e não leguminosas, frutas ou nozes. Isso explica a associação positiva com câncer GI, e reforça que nem toda proteína vegetal é benéfica."

3. Efeitos potencialmente agravados em pessoas com sobrepeso

Entre os participantes com IMC acima de 25 kg/m², os riscos associados tanto à proteína vegetal quanto à animal aumentaram — mas os efeitos da proteína vegetal refinada permaneceram elevados mesmo em indivíduos magros, indicando um efeito deletério independente do peso.

O estudo sugere que padrões alimentares ricos em amido refinado promovem inflamação, disfunção metabólica e alterações hormonais que favorecem a carcinogênese.

4. Leguminosas foram a exceção positiva

Embora a maior parte da proteína vegetal viesse de grãos refinados, o estudo identificou que o consumo de leguminosas esteve associado a menor risco de câncer GI (HRQ5 vs Q1 = 0,760; IC 95% = 0,588–0,982; p-trend = 0,042).

Isso mostra que a origem vegetal da proteína, por si só, não é suficiente para prever seus efeitos — sendo fundamental considerar a qualidade do alimento.

Resumo dos Achados

Categoria Alimentar Associação com Câncer GI Evidência
Peixe (proteína animal) Redução do risco Proteção estatisticamente significativa
Carne e ovos Neutros Sem associação com aumento de risco
Proteína vegetal total (PPI) Aumento do risco Forte associação com câncer GI e de esôfago
Grãos refinados Aumento do risco Principal fonte de PPI; alta carga glicêmica
Leguminosas Redução do risco Associação inversa com mortalidade


Conclusão

O estudo reforça que a qualidade da fonte alimentar é mais importante do que a origem animal ou vegetal. As proteínas de origem animal, especialmente peixes e ovos, não aumentaram o risco de câncer gastrointestinal, e podem até oferecer proteção. Em contrapartida, dietas com alto teor de proteína vegetal proveniente de grãos refinados estiveram associadas a aumento expressivo da mortalidade por câncer — especialmente de esôfago.

Portanto, o apelo genérico por dietas “plant-based” pode ser enganoso, se essas dietas forem baseadas em alimentos refinados e pobres em densidade nutricional. Já os alimentos de origem animal, quando minimamente processados e inseridos em uma dieta balanceada, podem ser parte de uma estratégia nutricional segura e até protetora contra o câncer.

Fonte: https://doi.org/10.1016/j.tjnut.2025.07.026

*Artigo completo na newsletter

Postagem Anterior Próxima Postagem
Rating: 5 Postado por: