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Estudo de 1967 na Índia encontrou sete vezes mais infartos entre trabalhadores que consumiam menos gordura

Comparação histórica das taxas de infarto entre trabalhadores ferroviários do norte e do sul da Índia

Em 1967, uma pesquisa realizada com trabalhadores ferroviários na Índia revelou um resultado surpreendente: os funcionários de uma região que consumia muito menos gordura apresentavam uma frequência de infartos aproximadamente sete vezes maior do que os de outra região, onde predominavam gorduras de origem animal.

A diferença chamou a atenção do médico indiano Sardari Lal Malhotra, justamente numa época em que a gordura saturada começava a ser apontada como uma das principais responsáveis pelas doenças cardiovasculares.

Os resultados foram publicados no British Heart Journal e levantaram dúvidas sobre explicações que relacionavam diretamente o consumo de gordura animal à ocorrência de infartos. Entretanto, embora a diferença observada fosse expressiva, o estudo não demonstrou que a gordura animal protegia o coração nem que os óleos vegetais causavam infartos.

Uma comparação entre o norte e o sul da Índia

Na década de 1960, as ferrovias indianas empregavam uma enorme quantidade de trabalhadores distribuídos pelo país. A empresa mantinha hospitais próprios, o que permitia consultar registros médicos de funcionários de diferentes regiões.

Malhotra percebeu uma oportunidade interessante: comparar pessoas ligadas ao mesmo sistema ferroviário, mas com hábitos alimentares bastante diferentes.

No norte, especialmente em Punjab, eram comuns o leite, seus derivados e o ghee, uma manteiga clarificada tradicional da culinária indiana. Esses alimentos forneciam boa parte da gordura consumida.

No sul, na região de Madras, atual Chennai, a alimentação tradicional tinha como base o arroz e utilizava quantidades menores de gordura, frequentemente proveniente de óleos vegetais, como os de amendoim e gergelim.

Se uma alimentação com mais gordura animal necessariamente produzisse mais infartos, seria razoável esperar uma frequência maior da doença entre os trabalhadores do norte.

Os registros hospitalares mostraram o contrário.

Os resultados: aproximadamente sete vezes mais infartos no sul

No artigo Geographical Aspects of Acute Myocardial Infarction in India with Special Reference to Patterns of Diet and Eating, publicado em maio de 1967, Malhotra reuniu 294 casos de infarto registrados em 24 hospitais ferroviários.

A comparação entre dois centros apresentou uma diferença particularmente expressiva:

  • Perambur, em Madras, no sul: 102,3 casos por 100 mil trabalhadores.
  • Ferozepur, em Punjab, no norte: 14,4 casos por 100 mil trabalhadores.

Essas taxas correspondiam ao período de dois anos, e não a valores anuais. Na comparação, Perambur apresentou aproximadamente 7,1 vezes a frequência registrada em Ferozepur.

Para entender a dimensão da diferença, basta imaginar duas populações de 100 mil trabalhadores acompanhadas durante o mesmo período. Se apresentassem aquelas taxas, uma registraria aproximadamente 102 infartos, enquanto a outra teria cerca de 14.

O levantamento era retrospectivo, baseado em registros hospitalares, e não um experimento alimentar. Ainda assim, a diferença geográfica era suficientemente grande para despertar interesse científico.

Dez vezes mais gordura, mas sem diferença significativa no colesterol

Malhotra aprofundou a investigação em outros trabalhos. Em um estudo publicado em maio de 1967 no American Journal of Clinical Nutrition, comparou 28 pares de ferroviários do norte e do sul, pareados por idade.

O consumo de gordura, predominantemente de origem animal no norte, era aproximadamente dez vezes maior. Apesar disso, os pesquisadores não encontraram diferenças estatisticamente significativas nos níveis de colesterol total, frações medidas de colesterol e triglicerídeos entre os grupos.

Esse resultado contrariava a expectativa de que uma diferença tão grande no consumo de gordura necessariamente apareceria nos exames sanguíneos.

Contudo, a ausência de significância estatística em apenas 28 pares de participantes não demonstra que as dietas tinham efeitos idênticos sobre o colesterol. O estudo também não permite concluir que o colesterol deixava de ter relação com o risco cardiovascular.

O achado mostrou que, naquela pequena amostra, a diferença alimentar observada não veio acompanhada das alterações esperadas nos indicadores medidos.

75 gramas de gordura animal contra apenas 7 gramas

Em 1968, Malhotra publicou outra investigação, intitulada Studies in Blood Coagulation, Diet, and Ischaemic Heart Disease in Two Population Groups in India.

Dessa vez, foram estudados grupos de trabalhadores responsáveis pela limpeza ferroviária, provenientes de Udaipur, no norte, e Madras, no sul.

Os levantamentos alimentares apresentaram médias de aproximadamente:

  • 75 gramas de gordura por unidade de consumo no grupo do norte, principalmente provenientes de leite, ghee e derivados fermentados.
  • 7 gramas de gordura por unidade de consumo no grupo do sul, predominantemente provenientes de óleos vegetais.

A unidade de consumo utilizada na pesquisa era uma medida de avaliação alimentar, portanto esses números não devem ser interpretados automaticamente como a ingestão exata de cada trabalhador.

A investigação também encontrou diferenças em testes de coagulação sanguínea. Os participantes do sul apresentaram, em média, menor tempo de coagulação, indicando formação mais rápida de coágulos nas condições do teste.

O pesquisador levantou a hipótese de que a composição das gorduras alimentares poderia contribuir para essas diferenças.

Malhotra suspeitava que o ghee poderia oferecer alguma proteção

O ghee contém diferentes tipos de ácidos graxos, incluindo pequenas quantidades de gorduras de cadeia curta, como o ácido butírico.

Malhotra considerava possível que esses componentes influenciassem a coagulação e a dissolução dos coágulos sanguíneos, reduzindo a probabilidade de obstruções nas artérias.

Essa era uma hipótese fisiológica, não uma proteção cardiovascular comprovada.

Além disso, o ghee não é composto principalmente por gorduras de cadeia curta. Uma análise de composição publicada em 2025 encontrou predominância de ácidos graxos de cadeia longa, que representavam aproximadamente 83% a 85% do total nas amostras avaliadas.

Portanto, a simples presença de ácido butírico não comprova que consumir ghee previne infartos. Para estabelecer esse benefício, seriam necessários estudos capazes de testar diretamente essa relação em humanos.

Enquanto os estudos eram publicados, os óleos vegetais ganhavam espaço

A história também apresenta um contraste interessante com o desenvolvimento do mercado de óleos vegetais na Índia.

Em 1965, a Bombay Oil Industries lançou a marca Saffola, inicialmente associada ao óleo de cártamo e à ideia de proteção cardiovascular.

Segundo uma reportagem histórica do The Economic Times, as primeiras campanhas utilizavam cenas dramáticas de pacientes sendo transportados em macas, acompanhadas de sirenes de ambulância.

A mensagem era simples: escolher aquele óleo poderia ajudar a proteger a saúde do coração.

A marca também investiu em campanhas de conscientização, avaliações de colesterol e iniciativas de divulgação da saúde cardiovascular.

Em 28 de setembro de 2008, seis emissoras de rádio de Mumbai interromperam sua programação musical durante meia hora para transmitir sons de batimentos cardíacos e mensagens educativas. A iniciativa foi documentada pela imprensa especializada.

As campanhas mostram como a preocupação com o colesterol e os infartos passou a fazer parte da publicidade alimentar. Entretanto, sua existência não demonstra que o uso desses produtos tenha aumentado ou reduzido a ocorrência de doenças cardiovasculares na população indiana.

Por que os resultados de Malhotra não encerraram o debate?

A pesquisa indiana apresentou uma associação geográfica bastante expressiva, mas havia limitações que impediam atribuir a diferença exclusivamente às gorduras consumidas.

Os levantamentos comparavam populações com hábitos alimentares distintos, e as diferenças não se restringiam ao tipo ou à quantidade de gordura. Também poderiam existir variações no consumo de outros alimentos, atividade física, condições de saúde e características sociais.

Outro problema estava no próprio método de identificação dos infartos. Como a análise dependia de registros hospitalares, casos que não chegassem aos hospitais poderiam ficar de fora. Diferenças na assistência e no diagnóstico também poderiam influenciar as comparações.

O próprio Malhotra discutiu essas dificuldades e procurou verificar a consistência das diferenças geográficas utilizando outras informações hospitalares e registros de mortalidade.

Mesmo assim, o estudo não acompanhou indivíduos submetidos a dietas controladas para determinar quantos desenvolveriam doenças cardiovasculares.

Por isso, os resultados não permitem afirmar que a gordura animal tenha prevenido infartos ou que os óleos vegetais tenham sido responsáveis pela frequência maior da doença no sul.

O que pesquisas posteriores mostraram?

A discussão científica sobre gordura saturada e saúde cardiovascular continuou por décadas.

Uma revisão Cochrane publicada em 2020, reunindo 15 estudos com mais de 56 mil participantes, encontrou uma redução relativa estimada de 17% nos eventos cardiovasculares combinados quando o consumo de gordura saturada foi reduzido por pelo menos dois anos.

Esse resultado, entretanto, não veio acompanhado de uma redução claramente demonstrada na mortalidade total ou cardiovascular. Os efeitos também dependiam dos nutrientes utilizados para substituir a gordura saturada.

É uma evidência de natureza diferente daquela produzida por Malhotra: ensaios clínicos que modificam a alimentação oferecem melhores condições para avaliar causalidade do que comparações entre populações.

Outra informação frequentemente associada à história indiana é a ocorrência precoce de infartos no sul da Ásia.

Uma análise do estudo INTERHEART, publicada em 2007 no JAMA, encontrou idade média de 53 anos no primeiro infarto entre participantes de países do sul da Ásia, contra 58,8 anos nos demais países avaliados.

Esses números correspondem a pacientes recrutados entre 1999 e 2003, e não representam necessariamente a situação atual. A pesquisa identificou diferenças em fatores de risco, incluindo diabetes, perfil de apolipoproteínas, atividade física e outros hábitos, que ajudavam a explicar a ocorrência mais precoce dos infartos.

Também não seria correto relacionar esse resultado diretamente à expansão comercial dos óleos vegetais.

O que permanece relevante nessa história?

Os trabalhos de Sardari Lal Malhotra merecem atenção porque documentaram diferenças cardiovasculares importantes entre populações que consumiam quantidades muito distintas de gordura.

O contraste entre os hábitos alimentares do norte e do sul da Índia mostrou que a ocorrência de infartos não podia ser explicada apenas pela quantidade total de gordura presente na alimentação.

Por outro lado, a pesquisa não conseguiu identificar qual componente alimentar, ou combinação de fatores, explicava a diferença encontrada.

Quase seis décadas depois, a principal contribuição dessa história continua sendo a necessidade de avaliar diretamente os desfechos de saúde, especialmente infartos e mortes, em vez de presumir os efeitos de uma alimentação com base exclusivamente em sua composição de gorduras ou em alterações isoladas do colesterol.

Fonte: https://doi.org/10.1136/hrt.29.3.337

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