Gestantes que seguiam uma dieta vegana tiveram, em média, bebês 223 gramas mais leves ao nascer e uma frequência maior de recém-nascidos pequenos para a idade gestacional do que gestantes não veganas. Esse foi o resultado de uma pesquisa israelense publicada em 2026, com 230 mulheres. A diferença apareceu junto com um menor consumo de proteínas e de determinados nutrientes, mas o estudo não demonstra que a dieta tenha causado o menor peso.
Como o estudo acompanhou as gestantes
Publicado na revista Clinical Nutrition ESPEN, o trabalho de Efrat Paz Dubinsky e colaboradores foi uma análise secundária de dados de um estudo observacional realizado em um hospital de Tel Aviv, entre maio de 2018 e junho de 2019. Foram avaliadas 54 gestantes veganas e 176 não veganas, todas com gestação de um único bebê e que mantiveram seu padrão alimentar antes e durante a gravidez.
No terceiro trimestre, as participantes preencheram um questionário sobre a frequência e a quantidade dos alimentos consumidos. Os pesquisadores também reuniram informações sobre suplementos, características maternas e peso dos recém-nascidos. Como ninguém foi sorteada para seguir uma dieta específica, a pesquisa identifica associações, e não relações de causa e efeito.
Qual foi a diferença no peso dos bebês?
O peso médio ao nascer foi de 3.031 gramas no grupo vegano e 3.254 gramas no grupo não vegano, uma diferença de 223 gramas (p = 0,004). Além disso, 14,8% dos bebês de mães veganas foram classificados como pequenos para a idade gestacional, contra 5,7% no outro grupo (p = 0,041). Isso corresponde a aproximadamente 8 de 54 nascimentos e 10 de 176, respectivamente.
Pequeno para a idade gestacional significa ter peso abaixo do percentil 10 para o sexo e a idade gestacional: em uma referência de bebês comparáveis, o recém-nascido está entre os 10% de menor peso. A classificação merece atenção porque pode sinalizar restrição do crescimento, mas não determina, por si só, que cada bebê esteja doente ou tenha sofrido prejuízo ao desenvolvimento.
As gestantes veganas também ganharam menos peso durante a gravidez, em média 11,8 kg, contra 13,2 kg. Elas eram, em média, mais velhas e tinham índice de massa corporal anterior à gestação um pouco menor. Essas diferenças importam ao interpretar os resultados, pois o crescimento fetal depende de vários fatores além da alimentação.
Menos proteínas, apesar de consumo calórico semelhante
A diferença alimentar mais evidente apareceu nas proteínas. As veganas consumiam uma mediana de 60 gramas por dia, contra 82 gramas entre as não veganas. Quando a quantidade foi dividida pelo peso materno antes da gravidez, os valores foram 1,10 e 1,44 g/kg/dia, respectivamente. As proteínas representavam, em média, 12% das calorias no grupo vegano e 16% no grupo não vegano.
O consumo total de calorias não apresentou diferença estatisticamente significativa. Portanto, a questão observada não se resumia a comer menos: os grupos diferiam na composição do que comiam. No gráfico de adequação nutricional do estudo, 49% das veganas atingiam a referência de 1,1 g de proteína por quilo de peso por dia, contra 73,6% das não veganas, considerando apenas a alimentação relatada.
Em um dos modelos estatísticos finais, cada aumento de um ponto percentual na participação das proteínas nas calorias se associou a uma redução de aproximadamente 20% nas chances de nascimento de um bebê pequeno para a idade gestacional (OR = 0,80; intervalo de confiança de 95%: 0,673 a 0,956). Trata-se de uma associação estatística, não da demonstração de que acrescentar proteína produza essa redução.
O que a leucina tem a ver com o crescimento fetal?
Os pesquisadores também examinaram os aminoácidos, as unidades que formam as proteínas. Um deles foi a leucina, aminoácido essencial utilizado na construção de proteínas e envolvido em sinais celulares relacionados ao crescimento. A ingestão mediana de leucina foi de 2,4 g/dia nas veganas e 5 g/dia nas não veganas.
Em uma análise exploratória, os pesquisadores dividiram as gestantes conforme a leucina representasse mais de 5,636% das proteínas consumidas ou não. Os bebês do primeiro grupo pesaram, em média, 3.341 gramas ao nascer; os do segundo, 3.074 gramas. A diferença foi de 267 gramas. O número de 5,636%, porém, foi encontrado por um procedimento estatístico aplicado à própria amostra. Não é uma meta clínica estabelecida para gestantes.
Outros aminoácidos, como tirosina e valina, também apresentaram correlações positivas, embora modestas, com o peso ao nascer. Assim, os resultados podem refletir a composição geral das proteínas da dieta, e não um efeito específico da leucina. Os próprios autores afirmam que os dados não justificam recomendar suplementação isolada de leucina durante a gravidez.
Outras diferenças nutricionais entre os grupos
A alimentação vegana apresentou algumas vantagens na comparação: maior ingestão de fibras (48 contra 30 g/dia), folato (627 contra 416 microgramas/dia) e ferro (17 contra 12,7 mg/dia). Também continha mais carboidratos: 256 contra 217 g/dia. Isso mostra que a pesquisa não encontrou menor consumo de todos os nutrientes entre as veganas.
Por outro lado, as estimativas alimentares mostraram menores quantidades de cálcio (764 contra 1.053 mg/dia), vitamina B12 (1,5 contra 4,6 microgramas/dia), vitamina D (0,24 contra 5,5 microgramas/dia) e colina (270 contra 394 mg/dia). A ingestão mediana de DHA, um tipo de ômega-3 importante para o desenvolvimento fetal, foi de zero entre as veganas e 70 mg/dia entre as não veganas, considerando os alimentos relatados.
Esses números precisam ser lidos junto com o uso de suplementos. Cerca de 55,6% das veganas utilizavam suplemento específico de B12, contra 26,1% das não veganas. O consumo de DHA pela alimentação também não representa necessariamente a ingestão total de quem usava suplementos de ômega-3. Além disso, o estudo estimou nutrientes ingeridos, mas não comprovou deficiências por exames de sangue. Mesmo no grupo não vegano, a ingestão alimentar de vitamina D e colina ficou abaixo das referências apresentadas pelos autores.
O que os resultados permitem concluir?
A interpretação exige atenção a um detalhe dos modelos estatísticos. A frequência de bebês pequenos foi maior no grupo vegano na comparação direta, mas a associação específica com o veganismo não permaneceu estatisticamente significativa nos modelos que incluíram outras variáveis. E a proporção de proteínas só alcançou significância no modelo final mais simples, após a retirada de fatores considerados nas etapas anteriores. Portanto, a análise não estabelece quanto da diferença no peso poderia ser explicado pelas proteínas.
Também houve poucas ocorrências de bebês pequenos para a idade gestacional: aproximadamente 18 em toda a amostra. A alimentação foi estimada por questionário preenchido no fim da gestação, que pode não retratar com precisão o início da gravidez nem contabilizar adequadamente alguns produtos veganos fortificados. Como todas as participantes vieram de um único centro, os resultados não devem ser automaticamente generalizados para outras populações.
O estudo de 2026 aprofundou dados de uma coorte que já havia originado uma publicação em 2021; por isso, não constitui uma confirmação independente daqueles resultados. Sua principal contribuição foi detalhar diferenças no consumo de proteínas, aminoácidos e micronutrientes que podem ajudar a formular novas perguntas sobre o crescimento fetal.
Na prática, os resultados reforçam a necessidade de avaliar se gestantes veganas conseguem atender às demandas de proteínas, aminoácidos essenciais, B12, cálcio, vitamina D, colina e DHA, considerando alimentos fortificados e suplementação quando apropriada. Eles não demonstram que toda dieta vegana provoque baixo peso ao nascer, nem que a suplementação de leucina isolada melhore o crescimento do bebê.
