Why Vegans Have Smaller Brains: And How Cows Reverse Climate Change, de Anita Tagore, Alison Morgan e David Ellis, questiona duas ideias muito presentes no debate atual: que dietas predominantemente vegetais seriam necessariamente mais saudáveis e que reduzir o consumo de carne seria indispensável para proteger o planeta.
A proposta do livro é reunir nutrição, evolução humana, medicina, agricultura e meio ambiente para defender uma visão diferente daquela encontrada em boa parte das recomendações alimentares e ambientais contemporâneas.
Os autores não escondem a posição adotada. A obra defende uma alimentação predominantemente baseada em alimentos de origem animal e associa essa abordagem a modelos de pecuária regenerativa. O resultado é um livro deliberadamente provocativo, que procura questionar tanto o que se coloca no prato quanto a forma como os alimentos são produzidos.
Alimentos de origem animal e evolução humana
Na primeira parte, o foco está na relação entre evolução humana, nutrição e doenças metabólicas.
Os autores argumentam que carne, gordura animal, vísceras e outros alimentos de origem animal tiveram papel importante durante a evolução humana e continuam sendo fontes concentradas de nutrientes em formas altamente biodisponíveis.
A obra também apresenta críticas às diretrizes alimentares convencionais e ao padrão alimentar moderno, especialmente ao elevado consumo de carboidratos refinados, alimentos ultraprocessados e óleos vegetais.
Ao longo dessa discussão, os autores revisitam temas frequentemente apresentados como praticamente encerrados no debate nutricional, incluindo gordura saturada, fibras, antioxidantes e a própria relação entre consumo de carne e doenças crônicas.
A ideia central apresentada é que não basta classificar um alimento simplesmente como vegetal ou animal. Para os autores, é necessário considerar densidade nutricional, biodisponibilidade, grau de processamento e o contexto metabólico no qual aquele alimento é consumido.
Por que o livro fala em “cérebros menores”?
O título é propositalmente provocativo, mas precisa ser entendido dentro do argumento desenvolvido pelos autores.
Uma parte importante da discussão envolve nutrientes relacionados ao funcionamento do sistema nervoso, como vitamina B12 e DHA, além de outros micronutrientes encontrados predominantemente ou exclusivamente em alimentos de origem animal.
Os autores relacionam deficiências desses nutrientes a alterações neurológicas descritas em pesquisas e relatos clínicos, incluindo casos de deficiência grave de vitamina B12 acompanhados de alterações cerebrais.
Isso, entretanto, não significa que tenha sido demonstrado que todas as pessoas veganas possuem cérebros menores. O título resume uma interpretação mais ampla construída pelos autores a partir de diferentes linhas de evidência sobre alimentação, deficiência nutricional e saúde cerebral.
Essa distinção é importante. Uma dieta vegana pode exigir planejamento cuidadoso e suplementação de determinados nutrientes, particularmente vitamina B12. Isso é diferente de afirmar que adotar uma dieta vegana automaticamente produzirá atrofia cerebral.
Da alimentação para a agricultura
Na segunda metade do livro, a discussão muda do organismo humano para o sistema de produção de alimentos.
Os autores contestam a ideia de que a pecuária seja necessariamente incompatível com sustentabilidade. Em vez de tratar toda produção animal como equivalente, diferenciam modelos intensivos de produção de sistemas baseados em animais criados a pasto e, principalmente, em práticas de manejo regenerativo.
A argumentação é que animais integrados adequadamente ao ecossistema podem participar da ciclagem de nutrientes, da manutenção da fertilidade do solo e de sistemas agrícolas capazes de sustentar maior biodiversidade.
Ao mesmo tempo, o livro direciona críticas à agricultura intensiva de monoculturas, destacando problemas como degradação do solo, redução da biodiversidade e impactos sobre animais que vivem nos ambientes convertidos para produção agrícola.
As vacas podem realmente reverter as mudanças climáticas?
Essa é outra afirmação provocativa do título que precisa ser interpretada dentro da tese defendida no livro.
Os autores argumentam que determinados sistemas de pastejo regenerativo podem melhorar o solo e favorecer o armazenamento de carbono, contestando a simplificação de que retirar bovinos da alimentação humana seria, por si só, uma solução ambiental.
Isso não significa que qualquer criação de gado automaticamente retire mais carbono da atmosfera do que emite. Os resultados ambientais dependem de fatores como clima, solo, densidade de animais, manejo das pastagens, produtividade e metodologia utilizada para calcular emissões e armazenamento de carbono.
O ponto apresentado pela obra é mais específico: o impacto ambiental da pecuária não deveria ser avaliado apenas pela existência do animal, mas também pelo sistema no qual ele está inserido.
A “Sapiens diet” proposta pelos autores
Unindo as duas partes do livro, os autores apresentam aquilo que chamam de Sapiens diet.
Trata-se de uma alimentação predominantemente baseada em alimentos de origem animal, especialmente carne, gordura animal e vísceras, inserida em uma proposta mais ampla de produção alimentar baseada em animais criados de maneira regenerativa.
A tese é que saúde humana e saúde ambiental não deveriam ser discutidas separadamente. Para os autores, o mesmo sistema capaz de fornecer alimentos nutricionalmente densos poderia, quando corretamente manejado, contribuir para recuperar solos e ecossistemas.
É justamente essa combinação que diferencia o livro de uma obra convencional sobre dieta. A discussão começa no metabolismo humano, passa pela evolução da espécie e termina em agricultura, solo, carbono, biodiversidade e sustentabilidade.
Uma obra para quem deseja conhecer o outro lado do debate
Why Vegans Have Smaller Brains não pretende ser uma apresentação neutra das diferentes correntes de pensamento sobre alimentação e agricultura. Os próprios argumentos escolhidos pelos autores deixam clara a tese defendida.
Isso não diminui seu interesse. Pelo contrário, torna particularmente útil compreender exatamente quais argumentos estão sendo apresentados e quais evidências são utilizadas para questionar recomendações que muitas vezes chegam ao público como verdades indiscutíveis.
Para quem acompanha discussões sobre dietas à base de animais, dietas veganas, saúde metabólica, vitamina B12, evolução humana, pecuária regenerativa ou sustentabilidade, o livro reúne esses assuntos em uma única narrativa.
No fim, a provocação vai além da pergunta estampada na capa. A obra convida o leitor a reconsiderar uma questão mais ampla: qual sistema alimentar consegue simultaneamente nutrir seres humanos e preservar os ecossistemas dos quais essa alimentação depende?
