Uma dieta low carb com muito mais gordura saturada não aumentou a proporção de ácidos graxos saturados circulantes. O resultado apareceu em um ensaio clínico randomizado com adultos com diabetes tipo 2 e ajuda a mostrar que a gordura ingerida e a gordura encontrada no sangue não são necessariamente a mesma coisa.
Durante seis meses, os participantes que reduziram bastante os carboidratos passaram a consumir cerca de 2,6 vezes mais gordura saturada. Mesmo assim, a proporção total de ácidos graxos saturados nos fosfolipídios do sangue caiu em comparação com o grupo que seguiu uma alimentação mais rica em carboidratos.
O que foi estudado
O estudo, publicado em 2026 no The American Journal of Clinical Nutrition, foi uma análise secundária de um ensaio clínico randomizado realizado com pessoas com diabetes tipo 2.
Ao todo, 71 participantes iniciaram o estudo: 49 foram direcionados para uma dieta low carb e 22 para a dieta controle. A intervenção durou seis meses e não havia uma meta de restrição de calorias.
A dieta low carb foi orientada para fornecer no máximo 20% das calorias em carboidratos, entre 50% e 60% em gorduras e entre 25% e 30% em proteínas.
A dieta controle continha entre 50% e 60% das calorias em carboidratos, entre 20% e 30% em gorduras e entre 20% e 25% em proteínas, seguindo as recomendações alimentares dinamarquesas.
Os pesquisadores então analisaram diferentes ácidos graxos presentes nos fosfolipídios do soro. Portanto, o estudo não simplesmente mediu “quanto de gordura havia no sangue”, mas a composição relativa dos ácidos graxos circulantes.
Mais gordura saturada ingerida, mas menos gordura saturada circulante
Esse foi provavelmente o resultado mais interessante do trabalho.
O consumo relatado de gordura saturada aumentou cerca de 2,6 vezes no grupo low carb. Apesar disso, após seis meses, a proporção total de ácidos graxos saturados circulantes caiu em relação ao grupo controle.
A diferença média na mudança entre os grupos foi de -0,6 ponto percentual na composição dos fosfolipídios séricos.
Isso ajuda a desmontar uma ideia excessivamente simples: a de que a gordura saturada consumida seria simplesmente absorvida e permaneceria circulando no sangue na mesma proporção.
O organismo funciona de maneira mais complexa. Os ácidos graxos encontrados no sangue podem vir dos alimentos, das reservas corporais e também podem ser produzidos pelo próprio organismo, inclusive a partir do metabolismo dos carboidratos.
É como comparar a quantidade de combustível comprada em um posto com aquilo que está naquele momento dentro do tanque de um carro. Uma informação influencia a outra, mas não são medidas equivalentes.
O ácido palmitoleico caiu 23%
A dieta low carb também reduziu em aproximadamente 23% o ácido palmitoleico em relação ao controle.
Esse ácido graxo é utilizado como um marcador indireto da lipogênese de novo, processo pelo qual o organismo produz novos ácidos graxos, principalmente no fígado.
Os autores interpretaram essa redução como compatível com menor atividade dessa produção endógena de gordura.
Também houve redução da atividade estimada da enzima SCD1, envolvida na transformação de ácidos graxos saturados em monoinsaturados. A atividade estimada da SCD1 caiu cerca de 26%.
Outros ácidos graxos também mudaram
A dieta low carb reduziu em cerca de 12% o ácido dihomo-gama-linolênico e aumentou em aproximadamente 9% o ácido araquidônico após seis meses, em comparação com a dieta controle.
Além disso, houve redução dos ácidos graxos monoinsaturados totais e aumento dos poli-insaturados totais.
As atividades estimadas das enzimas envolvidas no metabolismo dos ácidos graxos também mudaram: a SCD1 e a delta-6 dessaturase diminuíram, enquanto a delta-5 dessaturase aumentou.
Estudos observacionais anteriores relacionaram esse conjunto de características metabólicas a menor risco cardiovascular e mortalidade. Por isso, os pesquisadores classificaram o perfil encontrado como potencialmente cardioprotetor.
É importante, entretanto, não transformar essa associação em algo que o estudo não demonstrou. O ensaio não avaliou infartos, AVC, mortalidade ou outros eventos cardiovasculares.
Nem todos os marcadores mudaram na mesma direção
O resultado também precisa ser apresentado sem esconder os achados menos favoráveis.
O EPA, um ácido graxo ômega-3, ficou cerca de 27% menor em relação ao grupo controle após seis meses. O ácido docosapentaenoico, outro ômega-3, também caiu aproximadamente 8%.
Como o ácido araquidônico aumentou enquanto o EPA diminuiu, a relação entre ácido araquidônico e EPA aumentou cerca de 43%.
Apesar disso, os próprios pesquisadores observaram que marcadores de inflamação sistêmica avaliados anteriormente nessa mesma intervenção, como proteína C-reativa ultrassensível e interleucina-6, não aumentaram.
O controle do diabetes e a composição corporal também melhoraram
Embora o foco desta análise tenha sido a composição dos ácidos graxos, o ensaio original também encontrou outros resultados clínicos importantes.
Após seis meses, a dieta low carb produziu, em comparação com o controle, redução de aproximadamente 7,5 mmol/mol na HbA1c, 3,9 kg no peso corporal, 2,2 kg na massa de gordura e 5 cm na circunferência da cintura.
Também houve redução de aproximadamente 1,3 kg de massa magra.
Não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos nas mudanças de pressão arterial, triglicerídeos, colesterol total, LDL ou HDL após seis meses.
O que isso significa na prática
O estudo mostra que comer mais gordura saturada não significa automaticamente apresentar mais ácidos graxos saturados circulantes.
Nesse grupo de pessoas com diabetes tipo 2, ocorreu justamente o contrário: os participantes reduziram drasticamente os carboidratos, aumentaram muito a ingestão de gordura e gordura saturada e, ainda assim, apresentaram redução da proporção total de ácidos graxos saturados nos fosfolipídios do sangue.
Os resultados sugerem que o metabolismo dos carboidratos, a produção endógena de gordura, a oxidação de ácidos graxos, a perda de gordura corporal e outros processos metabólicos precisam ser considerados quando se tenta entender o que aparece nos exames.
Isso também significa que não seria correto concluir que o estudo demonstrou que “gordura saturada protege o coração”. O que ele demonstrou foi algo mais específico: em uma dieta com pouco carboidrato, um consumo substancialmente maior de gordura saturada não levou a maior proporção de ácidos graxos saturados circulantes e foi acompanhado por várias alterações metabólicas que os autores consideraram potencialmente favoráveis.
Limitações do estudo
O estudo apresenta pontos fortes, principalmente por ser randomizado e acompanhar os participantes durante seis meses. Porém, algumas limitações são importantes.
A alimentação foi realizada em condições de vida real e o consumo alimentar foi registrado pelos próprios participantes, o que pode gerar erros. O estudo também não foi cego, houve maior perda de peso no grupo low carb e os pesquisadores reconhecem que parte das alterações nos ácidos graxos pode ter sido influenciada pela redução da gordura corporal.
Além disso, a análise dos ácidos graxos era um desfecho secundário, e o estudo não foi dimensionado estatisticamente especificamente para esses resultados.
Por fim, os ácidos graxos foram expressos como porcentagem do total. Isso significa que a mudança na proporção de um deles pode influenciar matematicamente a proporção dos demais.
Em resumo
Durante seis meses de dieta low carb, adultos com diabetes tipo 2 consumiram aproximadamente 2,6 vezes mais gordura saturada, mas apresentaram menos ácidos graxos saturados circulantes em comparação com quem manteve uma alimentação rica em carboidratos.
Também ocorreram redução do ácido palmitoleico e do dihomo-gama-linolênico, aumento do ácido araquidônico e mudanças nas enzimas relacionadas ao metabolismo de ácidos graxos. Ao mesmo tempo, houve melhora da HbA1c, perda de peso, redução de gordura corporal e diminuição da cintura.
O trabalho reforça, portanto, uma mensagem importante: a gordura presente na alimentação não pode ser interpretada como se fosse diretamente equivalente à gordura encontrada no sangue. O metabolismo existente entre uma coisa e outra importa.
