A dieta cetogênica produziu melhorias maiores no metabolismo do fígado do que dietas com mais carboidratos quando a perda de peso foi praticamente a mesma. Em um ensaio clínico randomizado com pessoas com obesidade, pré-diabetes e esteatose hepática, perder cerca de 10% do peso melhorou vários marcadores em todos os grupos, mas a dieta cetogênica teve vantagem especialmente na gordura do fígado, na sensibilidade hepática à insulina, na glicose e na insulina ao longo do dia.
O que foi estudado
O ensaio clínico randomizado Effect of diet macronutrient content on the cardiometabolic response to weight loss, de Petersen e colaboradores, foi publicado na Cell Metabolism em 2026. Os pesquisadores da Washington University School of Medicine compararam três estratégias: dieta cetogênica com teor muito baixo de carboidratos, dieta mediterrânea e dieta à base de plantas com teor muito baixo de gordura.
Foram randomizados 55 participantes e 42 completaram o protocolo, 14 em cada grupo. Todos tinham obesidade, pré-diabetes e pelo menos 5% de gordura no fígado. A idade média de quem concluiu o estudo foi de aproximadamente 43 anos.
Como o estudo foi feito
Um ponto importante é que os pesquisadores forneceram toda a alimentação. A adesão registrada foi superior a 95%, reduzindo um problema comum em estudos de dieta: não saber exatamente o que os participantes realmente comeram.
Para cada 2.000 kcal, a dieta cetogênica fornecia cerca de 20 g de carboidratos, com 4% da energia vinda de carboidratos, 73% de gordura e 23% de proteína. A dieta mediterrânea fornecia 50% da energia em carboidratos, 35% em gordura e 15% em proteína. A dieta com muito pouca gordura e predominância vegetal fornecia 70%, 15% e 15%, respectivamente.
Os pesquisadores ajustaram as calorias para que os três grupos perdessem praticamente a mesma quantidade de peso: cerca de 10%. Assim, ficou mais fácil separar o efeito do emagrecimento do efeito da composição da dieta.
O fígado respondeu melhor à dieta cetogênica
A sensibilidade do músculo à insulina melhorou cerca de 50% nos três grupos, sem diferença significativa entre as dietas. A principal diferença apareceu no fígado.
Em termos simples, a sensibilidade hepática à insulina indica o quanto o fígado responde ao sinal da insulina para reduzir sua produção de glicose. Quando essa resposta está prejudicada, o fígado pode continuar liberando glicose mesmo quando já existe energia suficiente circulando.
Após a perda de peso, a sensibilidade hepática à insulina melhorou em todos os grupos, mas o aumento foi de duas a três vezes maior no grupo cetogênico.
A gordura no fígado caiu mais
A gordura hepática diminuiu em todos os grupos, mas a queda foi maior com a dieta cetogênica: cerca de 67%, contra aproximadamente 45% nas outras duas dietas.
Na prática, a média de gordura no fígado passou de 19,4% para 6,2% com a dieta cetogênica. Na dieta mediterrânea, caiu de 18,1% para 10,3%. Na dieta vegetal com muito pouca gordura, passou de 17,7% para 9,6%. Esses valores aparecem na Tabela 1, apresentada na página 4 do PDF.
A produção de gordura nova pelo próprio fígado, chamada lipogênese de novo, também caiu mais no grupo cetogênico. No estudo, essa redução acompanhou a menor exposição à insulina ao longo de 24 horas.
Glicose e insulina também melhoraram mais
A glicemia de jejum caiu em todos os grupos, mas a redução média foi maior com a dieta cetogênica: 12 mg/dL, contra 6 mg/dL nos dois outros grupos. A hemoglobina glicada caiu 0,6 ponto percentual no grupo cetogênico, 0,1 no mediterrâneo e 0,4 no grupo de muito pouca gordura.
Ao longo de 24 horas, a exposição à glicose caiu cerca de 20% com a dieta cetogênica, contra 8% nas outras duas dietas. A exposição à insulina caiu 74% no grupo cetogênico, 44% no mediterrâneo e 27% no grupo com muito pouca gordura.
A remissão do pré-diabetes ocorreu em 50% dos participantes do grupo cetogênico, 29% do mediterrâneo e 7% do grupo de muito pouca gordura. Como havia apenas 14 participantes por grupo ao final, esses percentuais devem ser interpretados com cautela.
E os triglicerídeos, LDL e ApoB?
Os triglicerídeos em jejum caíram nos três grupos, com maior redução na dieta cetogênica: cerca de 82 mg/dL, contra 41 mg/dL na dieta mediterrânea e 24 mg/dL na dieta com muito pouca gordura. Porém, quando os triglicerídeos foram acompanhados durante 24 horas, não houve diferença significativa entre os grupos.
Apesar de a dieta cetogênica fornecer 23% das calorias como gordura saturada, não houve diferença significativa entre os grupos nas mudanças de LDL-colesterol, colesterol total ou apolipoproteína B. O HDL-colesterol tendeu a aumentar no grupo cetogênico e caiu nos outros dois.
Isso não demonstra segurança cardiovascular de longo prazo. O estudo durou poucos meses, teve 42 participantes na análise final e não avaliou infarto, AVC ou mortalidade. Ele mostra apenas que, nesse período e nessa população, LDL-colesterol e ApoB não pioraram em relação às outras dietas.
Outros achados
O grupo cetogênico apresentou maior melhora no índice LP-IR, ligado à resistência à insulina medida por partículas de lipoproteínas. PAI-1 e TNF-alfa diminuíram nesse grupo, enquanto a interleucina-6 não mudou de forma relevante. O 8-isoprostano urinário, marcador de estresse oxidativo, também diminuiu apenas no grupo cetogênico.
Não ocorreram eventos adversos graves e nenhum participante abandonou o estudo por evento adverso. A função renal estimada aumentou no grupo cetogênico por redução da cistatina C, sem mudança correspondente na creatinina. Esse achado isolado não permite concluir benefício renal de longo prazo.
O que isso significa na prática
O estudo reforça que emagrecer importa, mas também mostra que a composição da dieta pode modificar a resposta metabólica. Com a mesma perda de aproximadamente 10% do peso, a dieta cetogênica produziu benefícios adicionais principalmente no fígado e no controle de glicose e insulina.
Para pessoas com obesidade, pré-diabetes e esteatose hepática semelhantes às estudadas, a restrição intensa de carboidratos pode ter efeitos que vão além da redução do peso. Isso não significa que a dieta cetogênica seja necessariamente superior para todas as pessoas.
Limitações do estudo
O número de participantes foi pequeno, com apenas 14 pessoas por grupo na análise final. O acompanhamento durou cerca de cinco meses até a perda de peso, seguido por algumas semanas de manutenção. A população também era específica: pessoas com obesidade, pré-diabetes e fígado gorduroso.
Além disso, vários resultados secundários foram considerados exploratórios e não receberam uma correção global para todas as múltiplas comparações realizadas, o que exige cautela ao interpretar diferenças secundárias.
O estudo também não permite saber se uma redução moderada de carboidratos, sem cetose, produziria resultados semelhantes, nem se as vantagens observadas persistem por anos.
Em resumo
Quando a perda de peso foi igualada, todas as dietas melhoraram a saúde metabólica. A dieta cetogênica, porém, reduziu mais a gordura no fígado, melhorou mais a sensibilidade hepática à insulina, reduziu mais a glicose e a insulina ao longo de 24 horas, baixou mais os triglicerídeos em jejum e apresentou maior taxa de remissão do pré-diabetes.
O ponto central do ensaio é simples: perder peso ajuda, mas a distribuição dos macronutrientes também pode influenciar a resposta metabólica, especialmente no fígado.
