Um novo estudo encontrou níveis mais altos de corpos cetônicos em pacientes com insuficiência cardíaca que tiveram pior evolução. Mas os próprios autores deixam claro um ponto que pode facilmente desaparecer em uma manchete: eles não acreditam que as cetonas estejam causando esses eventos.
Essa distinção é importante porque um resultado como esse pode facilmente virar algo como “cetonas aumentam o risco de morte cardíaca” ou “cetose faz mal ao coração”. Nenhuma dessas conclusões foi demonstrada pelo estudo.
O trabalho, publicado em 2026 na Clinical Research in Cardiology, estudou pessoas que já tinham insuficiência cardíaca, muitas delas em condição grave, e observou que aquelas com corpos cetônicos persistentemente mais elevados apresentaram mais hospitalizações, mortes ou outros eventos relacionados à doença.
O que os pesquisadores realmente encontraram
A primeira população analisada veio do estudo TRIUMPH e incluiu 467 pacientes hospitalizados por insuficiência cardíaca aguda.
Não se tratava, portanto, de pessoas saudáveis fazendo jejum ou seguindo dieta cetogênica. Eram pacientes hospitalizados por descompensação cardíaca. A idade mediana era de aproximadamente 74 anos e 82% estavam nas classes III ou IV da NYHA, classificação que indica limitação importante causada pela insuficiência cardíaca.
Durante aproximadamente um ano, os pesquisadores mediram repetidamente beta-hidroxibutirato, acetona, acetoacetato e a quantidade total de corpos cetônicos.
Ao longo do acompanhamento, 185 pacientes, cerca de 40%, morreram ou precisaram ser hospitalizados novamente por insuficiência cardíaca.
Quem apresentou esses eventos manteve, em média, concentrações mais altas de corpos cetônicos do que quem permaneceu sem eventos.
O resultado foi posteriormente estudado em outra população, chamada Bio-SHiFT, formada por 397 pessoas com insuficiência cardíaca crônica. Novamente, os pacientes que tiveram pior evolução apresentaram, de maneira geral, níveis mais altos de corpos cetônicos.
Associação não significa causa
Aqui está a parte que merece atenção caso surjam manchetes mais preocupadas com cliques do que com o desenho do estudo.
O trabalho foi observacional. Os pesquisadores acompanharam o que acontecia com os pacientes e encontraram uma associação entre corpos cetônicos elevados e pior prognóstico.
Isso não permite concluir que as cetonas provocaram a piora.
Um exemplo simples ajuda a entender. Pessoas internadas em estado grave frequentemente apresentam frequência cardíaca elevada. Isso não significa automaticamente que a frequência cardíaca elevada seja a causa da doença que levou à internação. Ela pode ser uma consequência ou um marcador de que o organismo está sob estresse.
Os corpos cetônicos podem estar desempenhando papel semelhante nesses pacientes.
Os próprios autores dizem que provavelmente não são as cetonas que causam o problema
Esse talvez seja o trecho mais importante de todo o artigo.
Ao discutir os resultados, os pesquisadores afirmam que, embora concentrações elevadas de corpos cetônicos estejam associadas a maior mortalidade e hospitalização na insuficiência cardíaca, é improvável que sejam elas as responsáveis por esses eventos adversos.
O artigo chega a declarar literalmente que “it is unlikely that they cause these adverse outcomes”.
Ou seja: transformar o estudo em uma manchete dizendo que “cetonas fazem mal ao coração” inverteria a interpretação apresentada pelos próprios pesquisadores.
Na verdade, as cetonas podem ser uma resposta de adaptação
O coração com insuficiência cardíaca passa por profundas alterações no metabolismo energético. Nesse contexto, o organismo aumenta a disponibilidade e a utilização de corpos cetônicos.
Os autores discutem que essa elevação pode representar um mecanismo compensatório.
Em outras palavras, diante de um coração metabolicamente comprometido, o organismo pode aumentar a produção de um combustível que o coração consegue utilizar.
O próprio artigo cita trabalhos experimentais e clínicos nos quais o fornecimento de corpos cetônicos apresentou efeitos favoráveis sobre a função cardíaca. Portanto, a interpretação proposta não é simplesmente “quanto mais cetona, pior”.
É possível que aconteça justamente o contrário na relação de causa e efeito: quanto mais grave e metabolicamente estressado está o paciente, maior pode ser a produção de corpos cetônicos como resposta a esse estado.
O estudo atual não consegue provar esse mecanismo, mas essa é uma das explicações consideradas pelos pesquisadores.
Por que pacientes mais graves poderiam produzir mais cetonas?
Os pacientes com níveis maiores de corpos cetônicos também apresentavam sinais compatíveis com doença cardíaca mais avançada.
Entre eles estavam níveis maiores de NT-proBNP, um marcador amplamente utilizado na avaliação da insuficiência cardíaca, e pior função cardíaca medida pela fração de ejeção.
Os autores levantam ainda a possibilidade de que pacientes de maior risco estejam vivendo em um estado metabólico mais catabólico.
Inflamação, aumento de catecolaminas e cortisol, alterações na sensibilidade à insulina e maior mobilização de gordura poderiam aumentar a produção hepática de corpos cetônicos.
Imagine um organismo enfrentando uma doença grave e tentando disponibilizar combustível por diferentes caminhos. Nesse cenário, encontrar mais cetonas no sangue pode ser consequência da tentativa de adaptação ao problema, e não necessariamente parte da causa.
As cetonas não aumentaram subitamente antes dos eventos
Outro resultado interessante reforça essa interpretação.
Os pesquisadores esperavam inicialmente que as cetonas talvez aumentassem pouco antes de uma nova descompensação, hospitalização ou morte.
Isso não aconteceu de maneira clara.
Os pacientes que tiveram eventos adversos simplesmente permaneceram com níveis mais altos durante boa parte do acompanhamento.
Para os autores, esse comportamento sugere que as cetonas podem estar refletindo um estado metabólico cronicamente mais comprometido, em vez de funcionarem como um gatilho imediato para a piora.
E a dieta cetogênica?
Aqui também é necessário separar o que o estudo mostrou daquilo que seria extrapolação.
O estudo não testou dieta cetogênica.
Não houve comparação entre pessoas seguindo dieta cetogênica e pessoas consumindo dieta rica em carboidratos. Os pesquisadores também não estudaram pessoas saudáveis em cetose nutricional para descobrir se apresentariam maior risco cardíaco.
Na verdade, uma das limitações reconhecidas pelos autores foi justamente a falta de informações detalhadas sobre alimentação e estado nutricional dos participantes.
Portanto, o artigo não permite concluir que cetose nutricional, jejum ou uma dieta que aumente corpos cetônicos causem insuficiência cardíaca ou aumentem mortalidade.
Seria o equivalente a observar níveis elevados de adrenalina em pacientes gravemente doentes e concluir que qualquer atividade que aumente adrenalina seja igualmente perigosa. O contexto biológico importa.
O alerta correto do estudo
Isso não significa que o resultado deva ser ignorado.
A descoberta é relevante porque mostra que corpos cetônicos persistentemente elevados podem funcionar como um marcador de maior risco entre pessoas que já apresentam insuficiência cardíaca.
Medidas repetidas desses metabólitos talvez ajudem futuramente os médicos a identificar pacientes metabolicamente mais comprometidos e que exigem acompanhamento mais cuidadoso.
Mas os próprios pesquisadores afirmam que ainda são necessários novos estudos para saber se essa informação realmente poderá orientar tratamento ou decisões clínicas.
Em resumo
O estudo encontrou uma associação real: pacientes com insuficiência cardíaca e pior evolução apresentavam corpos cetônicos persistentemente mais elevados.
Mas existem quatro pontos que não deveriam desaparecer de qualquer interpretação responsável:
- os participantes já tinham insuficiência cardíaca;
- muitos apresentavam doença cardíaca avançada;
- o estudo foi observacional e não demonstrou causalidade;
- os próprios autores consideram improvável que as cetonas sejam responsáveis pelos eventos adversos observados.
Na interpretação apresentada pelos pesquisadores, os corpos cetônicos podem ser principalmente um sinal de estresse metabólico e uma resposta compensatória de um organismo enfrentando insuficiência cardíaca grave.
Por isso, se eventualmente aparecer uma manchete dizendo que “cetonas aumentam o risco de morte” ou que “cetose faz mal ao coração”, vale procurar o estudo antes de compartilhar.
O resultado científico é interessante. A versão sensacionalista seria muito mais simples — e também muito menos fiel ao que os autores realmente encontraram.
Fonte: https://doi.org/10.1007/s00392-026-02992-6