A deficiência de ferro pode começar antes de a ferritina cair para os tradicionais 15 µg/L. Um estudo publicado em 2026 encontrou sinais fisiológicos de deficiência com ferritina em torno de 25 µg/L em mulheres antes da menopausa e 33 µg/L em homens e mulheres após a menopausa.
Na prática, isso significa que uma ferritina considerada "aceitável" pelos critérios tradicionais pode não representar necessariamente estoques de ferro suficientes para manter o organismo funcionando em sua melhor condição fisiológica.
O que é ferritina?
A ferritina é uma proteína usada pelo organismo para armazenar ferro. Por isso, sua concentração no sangue funciona como uma espécie de indicador do tamanho das reservas de ferro.
Uma comparação simples ajuda a entender: o ferro seria o alimento armazenado em uma despensa, enquanto a ferritina ajudaria a estimar quanto ainda existe guardado. O problema é que esperar a despensa ficar praticamente vazia para reconhecer a deficiência pode significar descobrir o problema tarde demais.
Atualmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) utiliza ferritina abaixo de 15 µg/L como limite para deficiência de ferro em adultos aparentemente saudáveis. O CDC norte-americano utiliza valor muito semelhante.
O novo estudo questionou exatamente esse ponto: será que alterações fisiológicas provocadas pela falta de ferro já começam quando a ferritina ainda está acima de 15 µg/L?
O que foi estudado
Zuguo Mei e colaboradores analisaram dados da terceira edição do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES III), levantamento populacional realizado nos Estados Unidos entre 1988 e 1994.
A análise final incluiu 5.169 homens e 6.957 mulheres não grávidas, entre 15 e 90 anos, considerados aparentemente saudáveis.
Os pesquisadores excluíram participantes com sinais importantes de infecção, inflamação, possível doença hepática ou concentrações muito elevadas de ferritina. A intenção era observar com maior clareza a relação entre reservas de ferro e funcionamento fisiológico.
Como os pesquisadores procuraram a deficiência de ferro
Em vez de simplesmente escolher um número arbitrário de ferritina, os pesquisadores observaram quando duas alterações começavam a aparecer.
A primeira foi a queda da hemoglobina. A hemoglobina é a proteína presente nas hemácias responsável principalmente pelo transporte de oxigênio. Para produzi-la adequadamente, a medula óssea precisa de ferro.
A segunda foi o aumento da protoporfirina-zinco eritrocitária (eZnPP). O nome parece complicado, mas a ideia é simples: quando falta ferro durante a fabricação da hemoglobina, esse marcador começa a aumentar.
Assim, os pesquisadores procuraram o ponto no qual a reserva de ferro começava a ficar pequena o suficiente para que a produção das células vermelhas já desse sinais de dificuldade.
Os novos limites encontrados
Os resultados sugeriram dois principais limiares fisiológicos:
| Grupo | Limiar aproximado de ferritina |
|---|---|
| Homens | 33 µg/L |
| Mulheres após a menopausa | 33 µg/L |
| Mulheres antes da menopausa | 25 µg/L |
Para homens e mulheres de 50 a 90 anos, a análise combinada baseada na hemoglobina encontrou um ponto de aproximadamente 32,6 µg/L. Entre mulheres de 15 a 49 anos, o valor correspondente foi de aproximadamente 24,8 µg/L.
Esses valores são consideravelmente superiores aos 15 µg/L tradicionalmente utilizados pela OMS e pelo CDC.
Um exemplo ajuda a entender
Uma mulher antes da menopausa com ferritina de 20 µg/L está acima do limite de 15 µg/L e, portanto, poderia não ser classificada como deficiente pelo critério tradicional.
No estudo, porém, esse valor já estaria abaixo do limiar fisiológico aproximado de 25 µg/L.
Da mesma forma, um homem com ferritina de 25 µg/L ainda estaria acima do limite tradicional, mas abaixo do limiar fisiológico próximo de 33 µg/L identificado pelos pesquisadores.
Isso não significa que qualquer pessoa com ferritina nesses valores tenha obrigatoriamente deficiência de ferro ou precise receber suplementação. Significa que o limite de 15 µg/L pode identificar a deficiência apenas quando as reservas já estão mais reduzidas.
A deficiência pode aparecer antes da anemia
Esse talvez seja o ponto mais importante do estudo para o público leigo: deficiência de ferro e anemia por deficiência de ferro não são exatamente a mesma coisa.
A deficiência pode começar primeiro. Conforme as reservas diminuem, o organismo tenta manter a produção de hemoglobina. A anemia pode surgir posteriormente, quando já não existe ferro suficiente para sustentar adequadamente essa produção.
É como um carro que entra na reserva: o veículo ainda está andando, mas isso não significa que o tanque esteja em condições normais.
Essa diferença apareceu claramente nos dados. Utilizando o limite da OMS, apenas 1,1% dos homens foram classificados com deficiência de ferro. Com o novo limiar fisiológico, a proporção subiu para 6,1%.
Entre todas as mulheres não grávidas analisadas, a prevalência passou de 13,3% para 26,9%.
Nas mulheres entre 15 e 49 anos, a diferença foi ainda mais evidente: 16,9% apresentavam deficiência pelo limite da OMS, contra 33,3% utilizando o limiar fisiológico.
O aumento foi muito maior para deficiência de ferro do que para anemia por deficiência de ferro, reforçando a possibilidade de identificar o problema em uma fase anterior.
Por que o limite é diferente nas mulheres antes da menopausa?
Os pesquisadores relacionam essa diferença principalmente à regulação do ferro pela hepcidina, hormônio responsável por controlar quanto ferro é absorvido pelo intestino e quanto pode ser liberado das reservas.
Mulheres que menstruam apresentam perdas de ferro maiores. Em resposta, a concentração de hepcidina tende a ser menor, favorecendo maior absorção intestinal e maior mobilização do ferro armazenado.
Isso ajudaria a explicar por que alterações fisiológicas aparecem com ferritina mais baixa nesse grupo: aproximadamente 25 µg/L, contra cerca de 33 µg/L nos homens e nas mulheres após a menopausa.
O que isso significa na prática
O estudo sugere que interpretar uma ferritina de 20, 25 ou mesmo 30 µg/L simplesmente como "normal" porque está acima de 15 µg/L pode esconder um estágio inicial de deficiência em algumas pessoas.
Isso pode ser especialmente importante porque a deficiência de ferro está associada a manifestações como fadiga, pior desempenho físico e redução da capacidade de trabalho, mesmo antes de evoluir para anemia mais evidente.
Nos homens e nas mulheres após a menopausa, encontrar deficiência de ferro também merece atenção para a causa. Nessas populações, os autores destacam a importância de investigar ingestão inadequada, problemas de absorção e possíveis perdas sanguíneas, incluindo sangramentos do trato gastrointestinal.
O estudo não criou um novo valor universal
Os resultados não significam que 33 µg/L tenha se tornado oficialmente o novo limite mundial de ferritina.
Trata-se de uma análise fisiológica observacional que propõe valores que podem detectar a deficiência mais cedo. A própria publicação afirma que os resultados precisam de validação internacional e de maior associação com desfechos clínicos e funcionais.
Além disso, a ferritina não deve ser interpretada isoladamente. Ela também pode aumentar durante processos inflamatórios, o que pode fazer os estoques de ferro parecerem maiores do que realmente são. Embora os pesquisadores tenham excluído participantes com sinais relevantes de inflamação, essa continua sendo uma consideração importante na utilização clínica do exame.
Limitações do estudo
A principal análise utilizou dados do NHANES coletados entre 1988 e 1994. Os métodos laboratoriais mudaram desde então.
Os pesquisadores verificaram dados mais recentes do NHANES de 2017 a março de 2020 e encontraram limiares semelhantes entre homens e mulheres após a menopausa quando analisaram ferritina e hemoglobina. Entretanto, o levantamento mais recente não possuía todos os mesmos marcadores de metabolismo do ferro utilizados na análise original.
Outra limitação é que a idade de 50 anos foi utilizada como aproximação para definir menopausa. Evidentemente, nem toda mulher entra na menopausa exatamente nessa idade.
Por fim, os dados são provenientes da população dos Estados Unidos, e os próprios autores defendem que os valores sejam validados em outras populações.
Em resumo
O estudo sugere que esperar a ferritina chegar a 15 µg/L pode significar esperar demais para reconhecer a deficiência de ferro.
Alterações fisiológicas relacionadas à disponibilidade de ferro começaram aproximadamente em 25 µg/L nas mulheres antes da menopausa e 33 µg/L nos homens e nas mulheres após a menopausa.
Isso não transforma esses números em limites diagnósticos absolutos nem significa que valores abaixo deles exijam automaticamente suplementação. O principal recado é outro: uma hemoglobina ainda normal e uma ferritina acima de 15 µg/L não necessariamente excluem uma deficiência de ferro em estágio inicial.
O estudo, portanto, acrescenta evidência de que a avaliação da ferritina talvez precise acontecer antes de o "tanque" estar praticamente vazio.
