Quanto maior foi a retirada de alimentos de origem animal da dieta de idosos, maior foi o risco estimado de ingestão inadequada de micronutrientes. Em uma simulação publicada em 2026 na Current Developments in Nutrition, o cenário vegano apresentou o resultado mais desfavorável: quase todos os micronutrientes avaliados passaram a apresentar ingestão considerada baixa ou insuficiente pelos critérios adotados no estudo.
É importante fazer uma distinção: o estudo não diagnosticou deficiências nutricionais por exames de sangue. Ele estimou a ingestão habitual de vitaminas e minerais e comparou os valores com referências nutricionais. Portanto, os resultados indicam risco de inadequação da ingestão, e não deficiência clínica comprovada.
O que foi estudado
Os pesquisadores analisaram dados de 607 adultos com 65 anos ou mais participantes da Pesquisa Nacional de Consumo Alimentar dos Países Baixos de 2019–2021. A amostra incluiu 311 homens e 296 mulheres.
A partir da alimentação habitual registrada pelos participantes, foram simulados cinco padrões progressivamente mais baseados em vegetais:
- flexitariano com substituição de 40% das carnes e peixes;
- flexitariano com substituição de 80%;
- pescetariano;
- vegetariano;
- vegano, com retirada dos alimentos de origem animal.
Os alimentos incompatíveis com cada padrão foram substituídos aleatoriamente, grama por grama, por alternativas consideradas semelhantes. Entre os substitutos estavam ovos e queijos nos cenários vegetarianos, além de lentilhas, tofu, homus, produtos à base de soja, alternativas vegetais processadas e bebidas vegetais fortificadas.
Principais resultados
Mesmo na alimentação habitual, alguns micronutrientes já apresentavam ingestão inadequada entre os idosos. Riboflavina, vitamina B6 e folato estavam abaixo dos critérios utilizados em ambos os sexos, enquanto a vitamina A apresentava inadequação entre as mulheres.
Quando apenas 40% de carnes e peixes foram substituídos, a ingestão de vários nutrientes diminuiu, mas nenhum novo micronutriente passou a ser classificado como inadequado.
A situação mudou nos cenários com maior substituição. Nas dietas flexitariana com redução de 80%, pescetariana e vegetariana, a ingestão de praticamente todos os micronutrientes avaliados caiu. A niacina passou a apresentar ingestão inadequada em homens e mulheres, enquanto vitamina A e tiamina tornaram-se inadequadas entre os homens.
A vitamina B6 merece destaque: embora já apresentasse ingestão baixa na dieta habitual, nos cenários com maior participação de alimentos vegetais mais de 50% dos idosos ficaram abaixo da necessidade média estimada.
O cenário vegano apresentou as maiores reduções
No cenário vegano, quase todos os micronutrientes avaliados apresentaram problemas de adequação. Entre os nutrientes avaliados pela necessidade média estimada, permaneceram adequados apenas tiamina, folato, cobre e ferro. Entre aqueles avaliados por ingestão adequada, vitamina E, magnésio e fósforo permaneceram satisfatórios em ambos os sexos, enquanto o potássio permaneceu adequado somente nos homens.
A ingestão de vitamina B12 diminuiu progressivamente conforme os alimentos de origem animal eram retirados e ficou abaixo do limite no cenário vegano. Os autores destacam que nozes, leguminosas e soja não fornecem naturalmente vitamina B12 e que a adequação de dietas veganas depende frequentemente de alimentos fortificados ou suplementação.
O zinco também caiu de forma importante. Os pesquisadores observam que muitos substitutos vegetais industrializados são enriquecidos com ferro e vitamina B12, mas não necessariamente com zinco, enquanto alimentos de origem animal representam fontes relevantes desse mineral na alimentação habitual.
Mais ferro não significa necessariamente mais ferro absorvido
Um resultado aparentemente favorável foi o aumento da ingestão total de ferro, que atingiu os maiores valores no cenário vegano. Parte desse resultado ocorreu porque vários substitutos vegetais utilizados na simulação eram fortificados com ferro.
Entretanto, os próprios autores ressaltam uma limitação importante: praticamente todo esse ferro seria do tipo não heme, cuja biodisponibilidade é inferior e mais variável do que a do ferro heme encontrado em alimentos de origem animal.
Como o estudo calculou a quantidade ingerida, mas não avaliou absorção nem o estado nutricional dos participantes, uma ingestão teoricamente elevada de ferro não permite concluir que a quantidade efetivamente disponível ao organismo seria suficiente.
Por que o cálcio melhorou em alguns cenários?
Nem todas as mudanças foram negativas. Entre os homens, a ingestão de cálcio passou a ser considerada suficiente em alguns dos cenários com maior substituição de carne.
Os autores explicam que isso ocorreu principalmente porque alimentos como presunto foram substituídos por queijo em diversas ocasiões alimentares. Portanto, esse resultado não representa necessariamente uma vantagem inerente de uma alimentação mais vegetal. Ele depende diretamente das escolhas utilizadas na simulação.
O estudo não simulou necessariamente uma dieta vegetal bem planejada
Essa é uma das limitações mais importantes do trabalho. Os pesquisadores procuraram manter a alimentação dos participantes semelhante ao padrão holandês habitual. Na prática, carnes e laticínios foram frequentemente substituídos por versões vegetais processadas, enquanto o consumo de leguminosas, vegetais, cereais integrais e oleaginosas não aumentou na mesma proporção observada em algumas populações vegetarianas e veganas.
Os próprios autores reconhecem que uma dieta baseada em vegetais estruturada de maneira diferente poderia produzir resultados menos desfavoráveis para algumas vitaminas do complexo B e para a vitamina A.
Por outro lado, a simulação também incorporou um fator potencialmente favorável às dietas vegetais: muitos substitutos comercializados nos Países Baixos eram fortificados com ferro, vitamina B12, cálcio ou outras vitaminas. A composição desses produtos pode ser diferente em outros países.
Outras limitações importantes
Trata-se de um estudo de simulação, e não de um ensaio clínico em que idosos adotaram essas dietas e tiveram seu estado nutricional acompanhado ao longo do tempo.
O consumo alimentar original foi autorrelatado. Os autores estimam que a subnotificação alimentar nessa população tenha sido de aproximadamente 5% entre homens e 13% entre mulheres.
Suplementos também foram excluídos das análises. Cerca de 60% dos participantes relataram utilizar algum suplemento, embora sua composição não estivesse disponível. Dessa forma, a prevalência real de inadequação poderia ser menor entre indivíduos que utilizassem suplementação adequada.
Além disso, não foram calculados valores de p nem intervalos de confiança para comparar os cenários. Vitamina C não foi analisada, o iodo foi excluído devido à limitação da base de composição alimentar e a vitamina D não foi classificada segundo a necessidade média utilizada para os demais nutrientes.
O trabalho também recebeu financiamento parcial de um fundo da Dutch Dairy Association. Segundo os autores, os financiadores não participaram do desenho, das análises, da redação nem da decisão de publicar o estudo, e não foram declarados conflitos de interesse.
O que isso significa na prática
Os resultados não demonstram que toda dieta vegetariana ou vegana provoque deficiência nutricional. O estudo mostra algo mais específico: simplesmente retirar alimentos de origem animal e substituí-los por alternativas vegetais semelhantes pode reduzir de maneira importante a densidade de diversos micronutrientes da alimentação de idosos.
O problema tornou-se progressivamente maior conforme aumentou a exclusão de alimentos de origem animal. A redução moderada de 40% de carnes e peixes não acrescentou novos nutrientes à lista de inadequações, enquanto os cenários com maior substituição aumentaram os riscos. A retirada completa produziu o pior perfil nutricional da simulação.
Conclusão
O estudo sugere que idosos são particularmente vulneráveis às consequências nutricionais de uma transição para dietas predominantemente vegetais. Vitamina A, vitaminas do complexo B, cálcio, selênio e zinco foram apontados pelos autores como nutrientes que merecem atenção especial.
A principal mensagem não é que alimentos vegetais sejam nutricionalmente inadequados por definição, mas que retirar fontes animais sem compensar cuidadosamente os nutrientes fornecidos por elas pode aumentar o risco de ingestão insuficiente. Em idosos, que frequentemente já apresentam ingestão reduzida de micronutrientes, esse cuidado se torna ainda mais relevante.
