A glicose de uma hora pode revelar resistência à insulina e comprometimento precoce das células beta antes que os exames convencionais indiquem pré-diabetes.
Um estudo retrospectivo de 2026 avaliou 726 crianças e adolescentes com obesidade e mostrou que uma glicose de uma hora igual ou superior a 155 mg/dL identificou um grupo metabolicamente diferente, mesmo quando a glicemia de jejum e a glicemia de duas horas ainda estavam dentro dos critérios de normalidade.
O artigo foi aceito para publicação na revista científica Diabetes Research and Clinical Practice e está disponível como pré-publicação, ainda sujeito à revisão editorial final.
O que foi estudado
Os pesquisadores revisaram prontuários de pacientes de 5 a 18 anos atendidos em um centro de endocrinologia pediátrica na Turquia entre 2023 e 2025. Todos apresentavam obesidade e haviam realizado um teste oral de tolerância à glicose, conhecido como TOTG.
Durante o exame, a glicose e a insulina foram medidas em jejum e após 30, 60, 90 e 120 minutos da ingestão de glicose. Os participantes foram divididos em cinco grupos:
- tolerância normal à glicose, com valor de uma hora abaixo de 155 mg/dL;
- tolerância normal à glicose, com valor de uma hora igual ou superior a 155 mg/dL;
- glicemia de jejum alterada;
- tolerância diminuída à glicose;
- disglicemia avançada, incluindo alterações combinadas ou valores compatíveis com diabetes.
O principal interesse estava no segundo grupo. Esses jovens ainda eram classificados como tendo tolerância normal porque apresentavam glicemia de jejum abaixo de 100 mg/dL e glicemia de duas horas abaixo de 140 mg/dL. A diferença aparecia no ponto intermediário do teste.
A glicemia parecia normal, mas o esforço metabólico era maior
Dos 726 participantes, 96, ou 13,2%, apresentaram glicose de uma hora igual ou superior a 155 mg/dL apesar de manterem os critérios convencionais de tolerância normal.
Quando comparados aos jovens com glicose de uma hora abaixo desse limite, eles apresentaram menor sensibilidade à insulina. O índice de Matsuda, que estima a capacidade do organismo de responder à insulina durante todo o teste, foi de 1,59 no grupo com glicose elevada em uma hora, contra 2,34 no grupo de menor risco. Isso corresponde a uma diferença aproximada de 32%.
Ao mesmo tempo, a exposição total à insulina foi muito maior. A área sob a curva de insulina alcançou 19.845 µIU/mL×min, em comparação com 13.048 µIU/mL×min. O pico mediano de insulina também foi mais alto: 256,6 µIU/mL contra 178,0 µIU/mL.
Em termos simples, o organismo precisava liberar muito mais insulina para recuperar uma glicemia aparentemente normal ao final de duas horas. O resultado de duas horas, isoladamente, escondia parte do esforço necessário para controlar a glicose.
Sinais precoces de comprometimento das células beta
O estudo não encontrou apenas resistência à insulina. Os índices relacionados à função das células beta pancreáticas também estavam piores no grupo com glicose elevada em uma hora.
O índice insulinogênico em 30 minutos caiu de 2,7 para 2,0, enquanto o índice de 60 minutos caiu de 3,0 para 2,3. O ISSI-2, medida que relaciona secreção de insulina e sensibilidade à insulina, foi de 1,87 nesse grupo, comparado com 2,16 entre os participantes com melhor resposta glicêmica.
Esses resultados não significam que o pâncreas deixou de produzir insulina. Pelo contrário, a quantidade total liberada foi maior. O problema estava na eficiência da resposta: diante de uma sensibilidade reduzida à insulina, a compensação das células beta já não era proporcionalmente adequada.
Esse padrão pode representar uma etapa intermediária entre uma resposta metabólica mais favorável e a disglicemia reconhecida pelos critérios tradicionais.
A resposta da insulina ficou mais tardia nos quadros avançados
Nos grupos com tolerância diminuída à glicose ou disglicemia avançada, o pico de insulina ocorreu predominantemente aos 120 minutos. Nos grupos com tolerância normal e no grupo com glicemia de jejum alterada, o pico mediano ocorreu aos 60 minutos.
A liberação precoce de insulina ajuda a limitar a elevação da glicose depois de uma refeição. Quando o pico se desloca para mais tarde, a glicose permanece elevada por mais tempo. No estudo, essa resposta tardia apareceu principalmente nos estágios mais avançados de deterioração metabólica.
O que isso significa na prática
A glicemia de jejum, a hemoglobina glicada e o valor de duas horas continuam sendo exames clinicamente importantes. Entretanto, eles não descrevem toda a dinâmica da glicose e da insulina.
Neste estudo, alguns jovens considerados normais pelos pontos tradicionais do TOTG já apresentavam:
- menor sensibilidade à insulina;
- hiperinsulinemia compensatória;
- menor eficiência funcional das células beta;
- glicose acentuadamente elevada após uma hora.
A medição de uma hora pode, portanto, acrescentar informação à avaliação de crianças e adolescentes com obesidade e maior risco metabólico. Ela não substitui o diagnóstico médico nem estabelece, sozinha, que uma pessoa desenvolverá diabetes.
O limite de 155 mg/dL também não é um ponto de corte pediátrico universalmente aceito. Os autores o escolheram porque esse valor é o mais estudado e já foi associado, em pesquisas anteriores, a resistência à insulina, disfunção das células beta e maior risco futuro de disglicemia.
Limitações do estudo
O desenho retrospectivo e transversal permite identificar associações, mas não demonstra que a glicose elevada em uma hora cause diabetes nem confirma quais participantes apresentarão progressão da doença.
A pesquisa foi realizada em um único centro terciário e incluiu jovens encaminhados para o teste por razões clínicas, como obesidade grave, acantose nigricans, hiperglicemia, hemoglobina glicada elevada ou suspeita de resistência à insulina. A amostra, portanto, concentrava participantes com risco metabólico maior do que o encontrado na população pediátrica geral.
A sensibilidade à insulina e a função das células beta foram estimadas por índices derivados do TOTG, e não por métodos de referência mais complexos. Além disso, apenas 18 participantes apresentaram valores do teste compatíveis com diabetes; eles foram agrupados com 26 participantes que tinham glicemia de jejum e tolerância à glicose alteradas simultaneamente.
Conclusão
A glicose de uma hora igual ou superior a 155 mg/dL identificou jovens com obesidade que já apresentavam menor sensibilidade à insulina, maior produção compensatória de insulina e sinais precoces de comprometimento das células beta, apesar de glicemia de jejum e de duas horas ainda normais.
O estudo reforça que a deterioração metabólica ocorre em um contínuo. Antes de o resultado ultrapassar os limites usados para diagnosticar pré-diabetes ou diabetes, o organismo pode estar produzindo quantidades crescentes de insulina e perdendo eficiência no controle da glicose.
Estudos prospectivos ainda são necessários para confirmar o valor desse marcador na previsão do diabetes e estabelecer critérios específicos para crianças e adolescentes.
