A dieta cetogênica melhorou marcadores metabólicos em pessoas com transtornos psicóticos, mas os benefícios psiquiátricos mais amplos apareceram apenas após quatro meses e sem um grupo de controle equivalente nesse período.
Publicado em 2026 no periódico Schizophrenia Bulletin, o estudo foi apresentado pelos autores como o primeiro ensaio clínico randomizado a investigar uma dieta cetogênica em pessoas com transtornos do espectro da esquizofrenia ou transtorno bipolar tipo 1 com sintomas psicóticos.
O que foi estudado
Os transtornos psicóticos frequentemente coexistem com problemas metabólicos, como ganho de peso, resistência à insulina e alterações da glicemia. Parte desse risco pode estar relacionada à própria doença, ao estilo de vida e ao uso prolongado de medicamentos antipsicóticos.
A dieta cetogênica foi avaliada como uma intervenção complementar capaz de atuar simultaneamente sobre o metabolismo e os sintomas psiquiátricos.
Ao todo, 58 participantes foram distribuídos aleatoriamente entre dois grupos:
- 28 receberam orientação para seguir uma dieta cetogênica;
- 30 mantiveram a alimentação habitual.
A fase randomizada durou um mês. Posteriormente, participantes dos dois grupos puderam entrar em uma extensão na qual seguiram a dieta cetogênica por quatro meses. Vinte e cinco pessoas completaram essa etapa prolongada.
Como a dieta foi aplicada
Os participantes do grupo cetogênico receberam 18 refeições prontas por semana e foram orientados a consumir pelo menos duas delas diariamente.
A composição pretendida era de aproximadamente:
- 70% a 80% das calorias provenientes de gordura;
- 10% a 20% provenientes de proteína;
- no máximo 10% provenientes de carboidratos.
Todos os participantes receberam acompanhamento semanal. O grupo de alimentação habitual também manteve contato com a equipe, mas não recebeu refeições gratuitas.
A cetose foi acompanhada por medições de beta-hidroxibutirato, ou BHB, um dos principais corpos cetônicos circulantes. Durante as últimas semanas da intervenção, as concentrações médias ficaram próximas de 1,3 mmol/L, acima do limite de 0,5 mmol/L adotado como indicação de cetose nutricional.
Resultados após um mês
Na comparação com o grupo que manteve a alimentação habitual, a dieta cetogênica produziu melhora em diferentes marcadores metabólicos.
Foram observadas:
- redução do peso e do índice de massa corporal;
- diminuição da hemoglobina glicada;
- redução da resistência à insulina;
- aumento esperado dos níveis de corpos cetônicos.
A proteína C-reativa, utilizada como marcador de inflamação sistêmica, não apresentou melhora significativa.
Os resultados psiquiátricos foram mais modestos nessa primeira fase. Após um mês, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos nos sintomas positivos da psicose, sintomas negativos ou desempenho cognitivo.
Houve uma tendência de redução dos sintomas depressivos no grupo cetogênico, mas o resultado deixou de ser significativo após o ajuste para as várias comparações estatísticas realizadas.
Portanto, a parte verdadeiramente randomizada do estudo demonstrou principalmente benefícios metabólicos de curto prazo, e não uma melhora conclusiva da psicose.
O que aconteceu após quatro meses
Entre os 25 participantes que completaram quatro meses de dieta cetogênica, houve melhora significativa em relação ao início do estudo em todas as principais avaliações clínicas.
Foram registradas reduções em:
- sintomas depressivos;
- sintomas positivos da psicose, como delírios e alucinações;
- sintomas negativos, como falta de motivação, redução da expressão emocional e retraimento social.
Também houve melhora no desempenho cognitivo global, medido por uma bateria de testes desenvolvida especificamente para pesquisas sobre esquizofrenia.
Os efeitos observados foram de magnitude moderada a grande. O desempenho cognitivo apresentou uma das maiores mudanças, seguido pelos sintomas depressivos.
Esses achados são relevantes, mas precisam ser interpretados dentro do desenho do estudo. A etapa de quatro meses não possuía um grupo de controle que permanecesse durante o mesmo período com outra dieta. Assim, não é possível afirmar que todas as melhoras tenham sido provocadas exclusivamente pela dieta cetogênica.
Participantes que permanecem por mais tempo em uma intervenção também podem representar um grupo mais motivado, mais aderente ou com melhor resposta inicial.
Cetose ou apenas emagrecimento?
Os pesquisadores investigaram se os benefícios estariam relacionados apenas à perda de peso ou à produção de corpos cetônicos.
Após um mês, os participantes que apresentaram maiores elevações de BHB também tiveram maiores reduções na hemoglobina glicada e nos sintomas depressivos. Essas relações permaneceram presentes mesmo quando a variação do peso foi incluída nas análises.
A perda de peso, isoladamente, não se associou às mudanças nos sintomas depressivos.
Os resultados sustentam a hipótese de que a cetose possa exercer efeitos próprios sobre o metabolismo cerebral e os sintomas psiquiátricos. No entanto, uma correlação não demonstra causa. Pessoas mais aderentes à dieta podem ter apresentado simultaneamente cetonas mais elevadas e outros comportamentos capazes de influenciar os resultados.
Para separar melhor esses fatores, seriam necessários estudos maiores, com dietas de controle, acompanhamento prolongado e métodos capazes de produzir cetose sem as demais mudanças alimentares.
Segurança e viabilidade
Não foram relatados eventos adversos graves. Alguns participantes apresentaram dor de cabeça, que melhorou após o aumento da ingestão de líquidos e eletrólitos.
A maioria das pessoas designadas para a dieta cetogênica completou o primeiro mês. Entretanto, parte dessa adesão pode ter sido facilitada pelo fornecimento gratuito de refeições e pelo acompanhamento semanal de nutricionistas e pesquisadores.
As principais razões para abandono foram dificuldade em seguir a dieta e falta de interesse em continuar as avaliações.
O estudo não avaliou de forma completa colesterol, lipoproteínas ou eletrólitos, e alterações nos medicamentos psiquiátricos não foram acompanhadas sistematicamente. Essas ausências limitam a avaliação de segurança e dificultam a identificação precisa dos fatores responsáveis pelas mudanças observadas.
O que isso significa na prática
O estudo fornece evidência inicial de que uma dieta cetogênica estruturada pode melhorar o controle glicêmico e o peso em pessoas com esquizofrenia ou transtorno bipolar com sintomas psicóticos.
Também apresenta sinais de possível melhora da depressão, dos sintomas psicóticos e da cognição quando a intervenção é mantida por quatro meses. Contudo, esses resultados prolongados vieram de uma etapa sem grupo de controle e ainda precisam ser confirmados.
A dieta cetogênica não deve ser apresentada como substituta de medicamentos antipsicóticos, estabilizadores do humor ou acompanhamento psiquiátrico. No estágio atual da evidência, ela deve ser considerada uma possível intervenção complementar, preferencialmente conduzida com supervisão médica e nutricional.
Esse cuidado é especialmente importante em pessoas que utilizam medicamentos capazes de alterar glicemia, pressão arterial ou eletrólitos, assim como naquelas com histórico de transtornos alimentares, doenças renais ou outras condições que possam tornar uma dieta restritiva inadequada.
Em resumo
O ensaio mostrou que um mês de dieta cetogênica produziu melhorias metabólicas superiores às observadas com a alimentação habitual. Nesse período, porém, não houve melhora psiquiátrica significativa entre os grupos.
Após quatro meses, os participantes apresentaram redução de sintomas depressivos, positivos e negativos da psicose, além de melhora cognitiva. Como não havia um grupo de controle prolongado, esses resultados devem ser considerados promissores, mas ainda preliminares.
A associação entre níveis mais elevados de corpos cetônicos e maior melhora dos sintomas depressivos justifica novas pesquisas sobre a relação entre metabolismo energético cerebral e saúde mental.
Fonte: https://doi.org/10.1093/schbul/sbag082
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