Dieta carnívora é uma abordagem alimentar baseada em alimentos de origem animal. Este site reúne a maior base de referências em português sobre o tema, integrando estudos científicos, relatos clínicos, experiências pessoais, etnografia, antropologia, sustentabilidade e documentários.

Dietas low-carb e cetogênicas no desempenho anaeróbico de atletas

Atleta em treino intenso representando os efeitos da dieta cetogênica no desempenho anaeróbico

O estudo “Effects of Low-Carbohydrate and Ketogenic Diets on Anaerobic Performance in Competitive Athletes: A Systematic Review and Meta-Analysis”, publicado em 2026 na revista Nutrients, avaliou como dietas com restrição de carboidratos afetam o desempenho anaeróbico em atletas competitivos. Trata-se de uma revisão sistemática com meta-análise, ou seja, os autores reuniram e analisaram estudos já publicados sobre o tema.

O ponto central é simples: nem todo esforço intenso depende da mesma fonte de energia. Uma explosão curta, como um salto, uma repetição máxima ou poucos segundos de potência, depende muito do sistema ATP-fosfocreatina. Já esforços repetidos e intensos, como tiros sucessivos, intervalados fortes ou ações explosivas repetidas em esportes coletivos, dependem mais da glicólise e do glicogênio muscular.

O que foi estudado

A revisão avaliou dietas low-carb e dietas cetogênicas em atletas treinados. A dieta low-carb foi definida como ingestão de até 130 g de carboidratos por dia ou até 25% das calorias vindas de carboidratos. A dieta cetogênica foi definida como uma restrição mais intensa, geralmente abaixo de 50 g de carboidratos por dia ou menos de 10% das calorias, com indução de cetose nutricional.

Os autores buscaram estudos em cinco bases científicas e incluíram 13 estudos únicos, que geraram 15 entradas de análise, pois alguns estudos avaliaram mais de um domínio de desempenho. As amostras variaram bastante, de 5 a 65 participantes, o que já indica uma limitação importante para conclusões definitivas.

Como o estudo foi feito

Os estudos incluídos envolveram atletas competitivos ou treinados, com idades entre 18 e 45 anos. Foram analisados três grupos principais de desfechos:

  1. potência anaeróbica, incluindo Wingate, salto vertical, força máxima e potência de sprint;
  2. capacidade de repetir sprints ou esforços intensos;
  3. lactato sanguíneo como marcador metabólico da participação da glicólise.

As intervenções variaram de poucos dias até 12 semanas. Isso é relevante porque uma dieta cetogênica de 5 dias não representa a mesma adaptação metabólica de uma dieta cetogênica seguida por várias semanas.

Principais resultados

Nos testes de potência anaeróbica isolada, como salto, força máxima ou pico de potência, o desempenho foi geralmente preservado. A meta-análise encontrou um pequeno efeito positivo não significativo para potência anaeróbica, com Cohen’s d = +0,29, intervalo de confiança de 95% entre −0,08 e +0,66.

Isso significa que, em média, não houve evidência clara de queda na potência em esforços únicos e muito curtos. Parte desses resultados pode estar relacionada à perda de peso corporal, já que alguns testes expressam desempenho relativo ao peso.

O cenário foi diferente para esforços repetidos. Na capacidade de sprint repetido, três estudos não encontraram diferença significativa, mas dois estudos observaram piora no desempenho, especialmente em atletas de elite submetidos a dieta com pouco carboidrato. O efeito agrupado foi pequeno e negativo, com Cohen’s d = −0,33, intervalo de confiança de 95% entre −0,80 e +0,14.

O achado mais consistente apareceu no lactato. Três estudos com dados quantitativos mostraram redução significativa do lactato sanguíneo em dietas low-carb ou cetogênicas. O efeito agrupado foi grande, com Cohen’s d = −0,89, intervalo de confiança de 95% entre −1,20 e −0,58.

O que isso significa na prática

A redução do lactato não deve ser interpretada automaticamente como melhora metabólica. No contexto deste estudo, ela provavelmente indica menor uso da glicólise, ou seja, menor conversão rápida de glicose ou glicogênio em energia durante exercício intenso.

Para esforços curtos, isso pode não ser um problema relevante. Um salto, uma tentativa de força máxima ou um sprint muito breve depende mais da fosfocreatina do que do carboidrato. Por isso, uma dieta low-carb ou cetogênica pode preservar esse tipo de desempenho em algumas situações.

Por outro lado, quando o atleta precisa repetir esforços intensos várias vezes, o glicogênio muscular se torna mais importante. Isso vale para treinos intervalados, esportes coletivos, lutas, provas com mudanças de ritmo e competições que exigem acelerações repetidas. Nesses casos, a restrição de carboidratos pode limitar a produção rápida de ATP pela via glicolítica.

Limitações do estudo

A revisão tem limitações importantes. O número de estudos foi pequeno, as amostras foram reduzidas e os protocolos foram muito variados. Alguns estudos duraram poucos dias, enquanto outros chegaram a 10 ou 12 semanas. Além disso, os participantes eram de modalidades diferentes, incluindo corredores, ciclistas, marchadores, atletas de força, jogadores de futebol e taekwondistas.

Outro ponto é que muitos estudos usaram testes laboratoriais, que nem sempre reproduzem com precisão as exigências reais de uma competição. Também houve maior presença de atletas de endurance do que de atletas cuja modalidade depende principalmente de potência, força ou ações explosivas repetidas.

Por isso, os próprios autores destacaram que os resultados agrupados devem ser vistos como exploratórios, não como confirmação definitiva.

Em resumo

A revisão sugere que dietas low-carb e cetogênicas podem preservar esforços anaeróbicos curtos e isolados, especialmente aqueles dependentes de fosfocreatina. No entanto, elas podem prejudicar esforços intensos repetidos, nos quais o glicogênio muscular e a glicólise têm papel mais importante.

A queda do lactato observada nos estudos não significa necessariamente melhor desempenho. Ela parece refletir menor fluxo glicolítico, o que pode ser vantajoso em alguns contextos metabólicos, mas limitante quando o esporte exige alta intensidade repetida.

Conclusão

As dietas low-carb e cetogênicas não devem ser avaliadas como “boas” ou “ruins” para todos os atletas. O efeito depende da modalidade, do tipo de esforço, da duração da adaptação e do objetivo do atleta.

Para esforços curtos e isolados, o desempenho tende a ser preservado. Para esportes com tiros repetidos, intervalos intensos ou mudanças frequentes de ritmo, a restrição severa de carboidratos pode trazer limitações. A estratégia nutricional mais prudente deve considerar a demanda real do treino e da competição, em vez de aplicar a mesma regra para todos os esportes.

Fonte: https://doi.org/10.3390/nu18101589

Postagem Anterior Próxima Postagem
📬 Conteúdos como este chegam toda semana na newsletter "A Lupa", com estudos completos que não são publicados neste site, além de indicações de podcasts, livros, estudos clássicos e documentários. Assine agora para ter acesso exclusivo!
📖 Se este conteúdo foi útil para você, considere apoiar este trabalho. Os apoiadores recebem uma curadoria mensal de estudos com resumos claros, análise prática e referências diretas, além de contribuir para a continuidade deste projeto independente. Apoie e tenha acesso ao material exclusivo.