Dieta carnívora é uma abordagem alimentar baseada principalmente em alimentos de origem animal. No Estilo de Vida Carnívoro, o leitor encontra artigos, guias e análises de estudos sobre saúde metabólica, emagrecimento e alimentação baseada em animais.

Por que algumas pessoas toleram mais carboidratos do que outras

Ilustração conceitual mostrando músculo, fígado e tecido adiposo no controle da glicose após consumo de carboidratos

Por Elie Jarrouge,

Um fisiculturista diz que come 400 g de carboidratos por dia, é definido e metabolicamente saudável.

Então os carboidratos não podem ser o problema, certo?

Não exatamente.

Ele está deixando passar algo fundamental sobre o próprio metabolismo: o que funciona no corpo dele não se aplica, automaticamente, ao corpo de outra pessoa.

O corpo humano tem três sistemas principais responsáveis por retirar a glicose do sangue após uma refeição:

  • músculo;
  • fígado;
  • tecido adiposo.

Cada um desempenha um papel diferente. Cada um pode falhar. E qual deles falha primeiro muda completamente o resultado metabólico.

O músculo é o principal destino da glicose

O músculo é o principal reservatório para descarte de glicose depois de uma refeição.

Em uma pessoa sensível à insulina, ele responde por grande parte da eliminação da glicose do sangue após a alimentação. Quanto mais massa muscular, mais treino e mais esvaziamento de glicogênio, maior tende a ser a tolerância aos carboidratos.

Pense no músculo como uma garagem.

O fisiculturista tem uma garagem para 10 carros, que ele esvazia todos os dias. Por isso, consegue absorver muita glicose diariamente.

A maioria das pessoas, por outro lado, tem uma garagem para um carro, já cheia, que não é usada há anos.

Os mesmos carboidratos chegam. Mas o destino metabólico pode ser completamente diferente.

Depois vem o fígado

Quando a glicose chega ao fígado, ele armazena o que consegue na forma de glicogênio.

Mas esse armazenamento tem um limite.

Quando esse limite é atingido e a glicose continua chegando, o fígado muda de estratégia. Ele começa a converter glicose diretamente em gordura.

Esse processo se chama lipogênese de novo.

Na prática, o fígado passa a fabricar gordura nova a partir do excesso de carboidrato. Parte dessa gordura é empacotada e enviada para fora como triglicerídeos. Outra parte fica acumulada dentro do próprio fígado.

É assim que uma dieta rica em carboidratos, em um contexto metabólico desfavorável, pode contribuir para o acúmulo de gordura no fígado.

A falha seletiva da resistência à insulina no fígado

O que torna a resistência à insulina no fígado especialmente problemática é uma espécie de falha seletiva.

O fígado para de responder adequadamente ao sinal da insulina para reduzir a produção de glicose.

Mas continua respondendo ao sinal da insulina que favorece a produção de gordura. Em alguns casos, essa via pode até ficar mais ativa.

O resultado é uma combinação ruim.

O fígado produz glicose em excesso, elevando a glicemia de jejum. Ao mesmo tempo, continua fabricando gordura, acumulando-a internamente e despejando triglicerídeos na corrente sanguínea.

Houston, temos um problema.

O tecido adiposo é o último recurso

Quando músculo e fígado estão sobrecarregados, o tecido adiposo tenta absorver o excedente.

Mas as células de gordura também têm limite. Quando estão cheias, não há mais muito para onde a glicose ir.

A glicemia permanece elevada. A insulina sobe ainda mais.

É nesse cenário que o risco de diabetes tipo 2 começa a ficar bem menos teórico.

Nem todos os órgãos falham ao mesmo tempo

Músculo, fígado e tecido adiposo não se tornam resistentes à insulina ao mesmo tempo.

Em geral, o músculo costuma falhar primeiro. Depois vem o fígado. O tecido adiposo tende a resistir por mais tempo.

Quando o músculo se torna resistente à insulina, o corpo compensa produzindo mais insulina.

É por isso que a insulina de jejum pode ser um marcador inicial importante, embora ainda seja pouco solicitada na prática clínica comum.

O erro de usar o fisiculturista como regra

Agora, voltando ao fisiculturista.

Ele come 400 g de carboidratos por dia e continua magro. Seu músculo é sensível à insulina. Ele esvazia seus estoques de glicogênio diariamente. Seu fígado raramente atinge o limite.

A lipogênese de novo quase não é ativada. O sistema de transbordamento metabólico dele quase nunca fica sob estresse.

Ele tem a infraestrutura necessária para lidar com essa carga de carboidratos.

Ele acha que está provando que carboidratos são seguros para todos.

Na verdade, está provando que o contexto metabólico determina os resultados.

Ele não é magro por causa dos carboidratos. Ele tolera os carboidratos porque é magro, musculoso e ativo.

Quem está fazendo o trabalho é o músculo. Não os carboidratos.

Mesma dieta, outro corpo, outro resultado

Remova massa muscular. Reduza atividade física. Mantenha a mesma dieta.

A garagem fica menor. E, pior, já está cheia.

A capacidade de armazenar glicogênio cai. O fígado atinge seu teto mais rápido. A lipogênese de novo trabalha com mais intensidade.

A gordura começa a se acumular dentro do fígado.

Mesmos alimentos. Resultado metabólico completamente diferente.

A maioria das pessoas não treina mais de 10 horas por semana. Não carrega 18 kg extras de massa magra. Seus estoques de glicogênio frequentemente já estão cheios.

Dizer a essas pessoas que carboidratos são tranquilos porque um fisiculturista os tolera é como dizer a alguém com um carro compacto que ele pode rebocar como uma picape.

A capacidade do motor não é a mesma.

A pergunta correta

A tolerância aos carboidratos depende de quanta massa muscular a pessoa tem, com que frequência ela esvazia seus estoques de glicogênio e quão preservado ainda está o funcionamento metabólico do fígado.

A dieta do marombeiro não é o modelo universal de saúde. É a exceção.

A pergunta nunca foi se ele consegue lidar com carboidratos.

A pergunta é se você consegue.

Postagem Anterior Próxima Postagem
Rating: 5 Postado por:
📬 Conteúdos como este chegam toda semana na newsletter "A Lupa", com estudos completos que não são publicados neste site, além de indicações de podcasts, livros, estudos clássicos e documentários. Assine agora para ter acesso exclusivo!
📖 Se este conteúdo foi útil para você, considere apoiar este trabalho. Os apoiadores recebem uma curadoria mensal de estudos com resumos claros, análise prática e referências diretas, além de contribuir para a continuidade deste projeto independente. Apoie e tenha acesso ao material exclusivo.