A deficiência de ferro atinge cerca de 1,6 bilhão de pessoas no mundo, e gestantes estão entre os grupos de maior risco. A anemia durante a gravidez está associada a complicações no parto, prematuridade, baixo peso ao nascer, redução dos estoques de ferro do recém-nascido e aumento da mortalidade materna e infantil. Diante dessas consequências, compreender a biodisponibilidade das diferentes formas de ferro alimentar torna-se essencial para orientar políticas de saúde pública e recomendações nutricionais.
O ferro dietético existe em duas formas principais: o ferro heme, presente sobretudo em alimentos de origem animal, e o ferro não heme, predominante em fontes vegetais e suplementos como o sulfato ferroso. Embora estudos anteriores já indicassem uma absorção de ferro heme cerca de três vezes superior à do ferro não heme em mulheres não gestantes, nenhuma pesquisa havia avaliado essa comparação diretamente durante a gravidez humana.
O estudo
Pesquisadores da Universidade Cornell, do Baylor College of Medicine e da Universidade de Rochester conduziram um ensaio clínico com isótopos estáveis de ferro para comparar a utilização dessas duas formas do mineral. Participaram do estudo 18 gestantes (entre 16 e 32 anos, na 32ª a 35ª semana de gestação) e 11 mulheres não gestantes (entre 18 e 27 anos).
Cada participante recebeu, em dias alternados e em ordem aleatória, duas refeições marcadas com isótopos diferentes: uma refeição à base de carne suína intrinsecamente marcada com o isótopo ⁵⁸Fe (ferro heme) e uma dose de sulfato ferroso marcado com ⁵⁷Fe (ferro não heme). A carga total de ferro administrada foi semelhante entre as duas fontes. Duas semanas após a ingestão, amostras de sangue foram coletadas para medir a incorporação dos isótopos nos glóbulos vermelhos e avaliar indicadores do estado de ferro e os níveis séricos de hepcidina, um hormônio hepático que atua como regulador central da homeostase do ferro.
Resultados
Os dados revelaram uma superioridade consistente do ferro heme em ambos os grupos. Nas mulheres não gestantes, a utilização do ferro da carne suína foi de 50,1%, contra apenas 15,3% para o sulfato ferroso — uma diferença de mais de três vezes. Nas gestantes, o ferro heme também apresentou utilização significativamente maior: 47,7% contra 40,4% do sulfato ferroso.
Um achado particularmente relevante diz respeito à relação entre o estado de ferro corporal e a absorção de cada forma do mineral. Nas gestantes, a utilização do ferro não heme mostrou associação significativa com a concentração sérica do receptor de transferrina, um marcador do estado de ferro nos tecidos, explicando 43% da variação observada. Isso significa que mulheres com estoques mais baixos de ferro absorveram proporcionalmente mais ferro não heme. Em contraste, a utilização do ferro heme não foi significativamente influenciada pelo estado de ferro materno, o que sugere que essa forma do mineral mantém uma absorção elevada e relativamente estável, independentemente das reservas corporais.
O papel da hepcidina
A hepcidina regula a absorção de ferro não heme ao se ligar à ferroportina, a proteína responsável pela exportação do ferro das células intestinais para a corrente sanguínea. Quando os níveis de hepcidina estão elevados, essa exportação é bloqueada e a absorção cai. Quando estão baixos, a exportação é liberada e a absorção aumenta.
No estudo, mulheres com níveis indetectáveis de hepcidina sérica apresentaram utilização significativamente maior de ferro não heme em comparação com aquelas que tinham níveis detectáveis do hormônio. Por outro lado, a utilização do ferro heme não apresentou associação significativa com a hepcidina em nenhum dos grupos. Esse achado indica que o ferro de origem animal pode contornar, ao menos parcialmente, o mecanismo regulatório da hepcidina, possivelmente porque o ferro heme entra na célula intestinal por uma via distinta da utilizada pelo ferro não heme.
Implicações práticas
A maioria das gestantes avaliadas — 67% — apresentava níveis indetectáveis de hepcidina e estoques de ferro depletados no terceiro trimestre, período em que a demanda fetal por ferro é mais intensa. Nesse contexto, a adesão à suplementação com ferro é frequentemente um problema. Os dados do estudo sugerem que a inclusão de fontes alimentares ricas em ferro heme, como carnes vermelhas e vísceras, pode representar uma estratégia complementar relevante para atender à alta demanda de ferro absorvido durante a gestação, especialmente no último trimestre.
Os autores destacam que a biodisponibilidade significativamente superior do ferro heme, aliada à sua menor sensibilidade aos estoques corporais e à regulação pela hepcidina, torna os alimentos de origem animal uma fonte dietética particularmente eficaz para gestantes e mulheres em idade reprodutiva.
Limitações
O estudo apresenta algumas limitações importantes. A estimativa da incorporação de ferro nos glóbulos vermelhos durante a gestação pode ser variável e não capta a fração de ferro absorvido transferida diretamente ao feto. Além disso, diferenças no estado de ferro e na composição étnica entre os grupos de gestantes e não gestantes impedem conclusões isoladas sobre o efeito da gravidez por si só na utilização do ferro. O tamanho amostral também foi reduzido, o que limita o poder estatístico para detectar algumas associações, particularmente dentro de cada grupo isoladamente.
