Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade está associado a maior consumo de alimentos ultraprocessados entre crianças


Este estudo publicado na revista Pediatric Research analisou a relação entre transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, o TDAH, e o consumo de alimentos ultraprocessados em crianças. Os pesquisadores usaram dados de um inquérito nacional de saúde e nutrição realizado em Israel com 1.135 crianças de 6 a 11 anos. Entre elas, 111 tinham diagnóstico médico de TDAH informado pelos pais. O resultado principal foi direto: as crianças com TDAH apresentaram maior consumo de ultraprocessados quando esse consumo foi medido pelo peso total de alimentos ingeridos ao longo do dia.

O trabalho encontrou uma mediana de 342,9 gramas por dia de ultraprocessados na amostra total. Entre as crianças com TDAH, essa mediana foi maior: 419,0 gramas por dia, contra 334,0 gramas no grupo sem TDAH. Quando os autores olharam a proporção de ultraprocessados em relação ao peso total da alimentação diária, o padrão se repetiu: 20,8% no grupo com TDAH contra 16,4% no grupo sem o transtorno. Além disso, 65,7% das crianças com TDAH estavam acima da mediana de consumo em gramas por dia, enquanto no grupo sem TDAH esse percentual foi de 48,1%.

O que aconteceu após os ajustes estatísticos

Os autores não pararam na comparação simples. Eles ajustaram as análises para idade, sexo, nível socioeconômico, ingestão total de energia, fibra alimentar e ácido alfa-linolênico. Mesmo assim, a associação permaneceu. No modelo final, ter TDAH esteve associado a 1,622 vez mais chance de consumir ultraprocessados acima da mediana em gramas por dia e a 1,652 vez mais chance de ficar acima da mediana quando o consumo foi expresso como porcentagem do peso total dos alimentos. Nas análises contínuas, o TDAH se associou a cerca de 57 gramas extras por dia de ultraprocessados e a um aumento de 3,837 pontos percentuais na participação desses alimentos no peso total ingerido.

Esse ponto é importante porque o estudo não mostrou apenas uma diferença pequena e casual. Ele mostrou uma associação que continuou visível mesmo depois de os pesquisadores tentarem controlar variáveis que poderiam distorcer o resultado. Ainda assim, os próprios autores destacaram que a magnitude foi modesta. Em outras palavras, não se trata de uma diferença gigantesca, mas de um sinal consistente o bastante para merecer atenção.

O uso de estimulantes não mudou esse padrão

Outro dado interessante foi que, entre as crianças com TDAH, o uso regular de medicação estimulante não pareceu mudar o consumo de ultraprocessados. Dos 111 participantes com TDAH, 37 usavam estimulantes regularmente. Mesmo assim, não houve diferença significativa entre tratados e não tratados nem no consumo em gramas, nem na porcentagem do peso total, nem nas análises multivariadas. Isso sugere que o maior consumo de ultraprocessados observado no estudo não foi explicado simplesmente pelo fato de a criança usar ou não usar medicação.

O que pode explicar essa associação

Os autores foram cuidadosos ao explicar que a relação pode funcionar em duas direções. De um lado, sintomas do TDAH, como impulsividade, busca por recompensa imediata, dificuldade de autorregulação e seletividade alimentar, podem favorecer escolhas mais práticas, mais palatáveis e mais previsíveis, características comuns de muitos ultraprocessados. O estudo também menciona que rotinas familiares, uso de comida como recompensa e preferência por produtos embalados e familiares podem reforçar esse padrão.

Do outro lado, o próprio perfil de muitos ultraprocessados pode contribuir para piora de sintomas em crianças suscetíveis. O artigo revisa evidências anteriores sobre corantes artificiais, conservantes e outros aditivos associados a aumento modesto, mas repetidamente observado, de comportamentos hiperativos em alguns estudos. Também cita hipóteses envolvendo carga glicêmica, eixo intestino-cérebro, microbiota, inflamação e menor ingestão de nutrientes importantes para a função cognitiva quando alimentos mais nutritivos são substituídos por produtos ultraprocessados.

O que este estudo não permite concluir

Esse é o ponto mais importante para interpretar o trabalho com honestidade. O estudo é transversal. Isso significa que ele observou associação, não causa e efeito. Portanto, ele não permite afirmar que ultraprocessados causam TDAH, nem que o TDAH obrigatoriamente leva a maior consumo desses produtos. Os autores reconhecem isso com clareza e dizem que a direção da relação permanece indefinida.

Também existem outras limitações. O diagnóstico de TDAH foi informado pelos pais com base em diagnóstico médico prévio, sem confirmação clínica independente no estudo. A alimentação foi medida por recordatório de 24 horas, método útil em pesquisas populacionais, mas que não captura perfeitamente o padrão habitual de cada criança. Além disso, a classificação NOVA agrupa alimentos muito diferentes sob o mesmo rótulo de ultraprocessados, o que exige cautela na interpretação.

O que fica de mensagem prática

A leitura mais equilibrada deste artigo é a seguinte: crianças com TDAH, nesta amostra nacional de Israel, consumiram mais alimentos ultraprocessados do que crianças sem TDAH, e essa associação persistiu após ajustes importantes. Isso não prova causalidade, mas reforça a ideia de que o padrão alimentar merece atenção no contexto do cuidado dessas crianças.

O estudo também ajuda a deslocar a conversa de nutrientes isolados para o padrão alimentar como um todo. Em vez de olhar apenas para açúcar, gordura ou calorias, ele chama atenção para o grau de processamento dos alimentos e para o ambiente alimentar ao redor da criança. Esse tipo de abordagem é relevante porque o problema muitas vezes não está em um único componente, mas na combinação entre praticidade, hiperpalatabilidade, aditivos e substituição de alimentos minimamente processados por produtos industriais.

Em resumo, este artigo não encerra o debate, mas acrescenta uma peça importante. Ele sugere que o maior consumo de ultraprocessados pode fazer parte do contexto clínico e comportamental do TDAH infantil. E, justamente por não provar causalidade, ele aponta para a necessidade de estudos futuros que acompanhem essas crianças ao longo do tempo para esclarecer o que vem primeiro e qual é o peso real dessa associação na prática.

Fonte: https://doi.org/10.1038/s41390-026-04844-5

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