Uma das frases mais repetidas quando o assunto é jejum é que ficar muitas horas sem comer faria o corpo entrar em “modo de economia”, reduzindo o metabolismo. A explicação costuma ser simples: o organismo “percebe falta de comida” e passa a gastar menos energia.
No entanto, quando pesquisadores medem diretamente o gasto energético do corpo humano durante períodos de jejum, os resultados mostram um quadro mais complexo — e diferente dessa explicação popular. Estudos metabólicos em humanos avaliaram o gasto energético de repouso, que é a energia usada para manter funções básicas como respiração, circulação e funcionamento dos órgãos.
O que acontece nas primeiras horas ou dias de jejum
Um estudo clássico publicado no American Journal of Clinical Nutrition mostrou que, após cerca de 84 horas de jejum, o gasto energético de repouso aumentou levemente, em vez de cair. Os pesquisadores também observaram aumento de norepinefrina, um hormônio ligado à mobilização de energia. A referência pode ser acessada aqui: Zauner et al., 2000 e também pela página da revista AJCN.
Em termos simples, o organismo não “desliga o motor” logo no início do jejum. Em vez disso, ele tende a mudar o combustível, usando mais gordura e poupando glicose. Isso ajuda a explicar por que a ideia de que o metabolismo “despenca” rapidamente não bate bem com os estudos experimentais de curto prazo.
Quando o metabolismo realmente pode diminuir
A redução do gasto energético aparece com mais clareza em outro cenário: restrição calórica prolongada com perda de peso significativa. Nessa situação, o corpo pode desenvolver o que a literatura chama de termogênese adaptativa, isto é, passar a gastar menos energia do que seria esperado apenas pela perda de peso.
Uma revisão importante sobre esse tema é Müller et al., 2015, também disponível na página da revista AJCN. Nesse trabalho, os autores mostram que a queda do gasto energético ocorre principalmente em contextos de restrição energética contínua, e não simplesmente por causa de um jejum curto.
Jejum intermitente versus restrição calórica contínua
Outro ponto importante é que ensaios clínicos comparando jejum intermitente com restrição calórica contínua mostram, em geral, resultados parecidos quando o déficit energético total é equivalente.
Um estudo clínico relevante é Templeman et al., 2021, com versão na Science Translational Medicine aqui. Já o estudo MATADOR, de Byrne et al., 2018, também disponível na Nature aqui, sugere que pausas planejadas durante a restrição podem até reduzir parte da adaptação metabólica. (PubMed)
O que a evidência científica indica
A leitura mais fiel da literatura científica atual aponta para três conclusões principais:
- Jejum de curto prazo não mostra evidência consistente de redução importante do metabolismo.
- Durante o jejum, o organismo tende a aumentar o uso de gordura como fonte de energia.
- Quedas no gasto energético são mais associadas a períodos prolongados de restrição calórica e perda de peso.
Em outras palavras, a ideia de que algumas horas sem comida fariam o metabolismo “desligar” não é sustentada pelos estudos metabólicos controlados em humanos. A fisiologia humana parece ser bem mais adaptável do que esse discurso simplificado costuma sugerir.
