Em 1994, pesquisadores de hospitais e universidades de Nova York avaliaram uma hipótese prática: em muitos casos de amenorreia hipotalâmica “idiopática” (quando não se encontra uma causa médica evidente), pode existir restrição nutricional e comportamento alimentar alterado que passa despercebido em entrevistas clínicas rotineiras.
Para isso, o grupo comparou 18 mulheres com amenorreia (pelo menos 5 meses sem menstruar) com 36 mulheres com ciclos menstruais normais, usando avaliação endócrina, nutricional e psicológica.
Como as participantes foram avaliadas
A pesquisa excluiu doenças crônicas e investigou critérios hormonais compatíveis com amenorreia hipotalâmica (por exemplo, prolactina e andrógenos dentro do esperado, com FSH/LH baixos a normais).
Além dos exames, a equipe aplicou ferramentas para mapear padrões alimentares e risco de transtornos alimentares, incluindo:
- Questionário de frequência alimentar (SFFQ, de Walter Willett) e recordatório alimentar de 24 horas.
- EAT-26 (teste de atitudes alimentares) e entrevista semiestruturada com critérios diagnósticos para anorexia/bulimia e transtornos atípicos.
- Estimativa de gasto calórico diário e perfil de atividade física.
- Avaliação de sofrimento emocional e sintomas depressivos por checklist padronizado.
O que eles encontraram na prática
Mesmo quando as participantes com amenorreia negavam transtornos alimentares, a avaliação detalhada apontou diferenças relevantes.
1) Peso e composição corporal
As mulheres do grupo controle estavam mais próximas do “peso ideal” do que as mulheres com amenorreia (97,2% vs 89,7%).
2) Transtornos alimentares “invisíveis” no relato espontâneo
Apesar da negação inicial, a avaliação do estudo identificou maior proporção de transtornos alimentares no grupo com amenorreia (55% vs 26%).
Além disso, os escores do EAT-26 (que captura atitudes e comportamentos alimentares associados a restrição, controle e preocupação com comida) foram muito maiores no grupo com amenorreia (22,28 vs 10,36).
3) Padrão alimentar: mais fibra e menos gordura
O estudo descreveu um padrão que, na média, parecia “limpo” e até socialmente valorizado, mas que pode sinalizar restrição crônica:
- Fibra aproximadamente em dobro (26,14 vs 14,69 g/dia).
- Gordura mais baixa (20,7 vs 27,10 g/dia).
- Curiosamente, a ingestão calórica foi semelhante entre os grupos, mas o padrão de escolha alimentar diferiu.
4) Atividade física: mais aeróbico, mas um “paradoxo” no gasto diário
O grupo com amenorreia relatou mais prática de atividade aeróbica (85% vs 58%), porém, no cálculo total, teve menor gasto calórico por dia (aprox. 2303,7 vs 2576,7 kcal/dia).
Os autores interpretaram esse aparente paradoxo como resultado de menos atividade de baixa e moderada intensidade no dia a dia, apesar de mais episódios de exercício intenso.
5) Sinais hormonais compatíveis com “freio” reprodutivo
Nos exames, as mulheres com amenorreia apresentaram estradiol (E2), LH e prolactina mais baixos do que controles; e o estradiol foi o dado com maior destaque clínico, pois valores abaixo de 40 pg/mL são incomuns em mulheres menstruando regularmente.
6) Cortisol mais alto: estresse metabólico e/ou restrição
O cortisol foi significativamente mais alto no grupo com amenorreia. Usando como referência um intervalo de 3–10 µg/dL para o período da tarde, 61% das amenorreicas e 19% das controles estariam acima desse intervalo no estudo.
Ao mesmo tempo, nas escalas padronizadas de “estresse percebido”, não apareceu diferença estatística entre os grupos, o que reforça a ideia central do artigo: o problema pode não estar “apenas na cabeça” nem “apenas no treino”, mas em sinais discretos de restrição e controle alimentar que exigem investigação ativa.
A mensagem principal do artigo
O trabalho conclui que muitos casos rotulados como “idiopáticos” podem ter base nutricional e comportamental mais frequente do que se imaginava. Por isso, recomenda que profissionais procurem ativamente sinais de restrição, padrões de dieta com baixa gordura e alta fibra, atitudes alimentares sugestivas de transtorno e rotinas de exercício que, somadas, possam gerar um estado de “economia energética” que desliga a função reprodutiva.
Além disso, o estudo chama atenção para o contexto de saúde óssea: se a amenorreia se prolonga com estradiol baixo, o risco de osteopenia ganha relevância clínica, e a investigação nutricional deixa de ser “detalhe” para virar parte central do cuidado.
Por que isso importa na prática clínica
Em termos simples, o artigo descreve um cenário comum: pessoas jovens, fora do estereótipo de “atletas de elite” e sem doença crônica aparente, podem chegar ao consultório com amenorreia e dizer “está tudo normal”. Ainda assim, quando alguém mede com instrumentos específicos, surgem indícios de:
- peso abaixo do ideal, mesmo sem relato de emagrecimento recente;
- comportamento alimentar de restrição/controle, mesmo sem “diagnóstico” declarado;
- padrão alimentar com pouca gordura e muita fibra;
- rotina de exercício e de vida que pode somar um custo energético relevante;
- marcadores hormonais compatíveis com supressão do eixo reprodutivo.
A consequência prática é direta: sem uma busca ativa, parte desses casos pode ser tratada como “estresse” genérico, atrasando o reconhecimento do componente nutricional e comportamental que o próprio estudo encontrou com frequência elevada.
Fonte: https://doi.org/10.1177/107155769400100117
