Fatores que Influenciam a Síntese de Oxalato em Voluntários Saudáveis


A excreção urinária de oxalato é um fator importante no risco de formação de cálculos renais de oxalato de cálcio e na progressão da doença renal crônica. Embora o oxalato da dieta seja uma fonte conhecida, aproximadamente metade da carga urinária de oxalato provém da síntese endógena (endogenous oxalate synthesis EOS), resultante da conversão de precursores como glicoxilato e ácido ascórbico em oxalato no organismo.

Em um estudo recente conduzido pela Universidade do Alabama em Birmingham, pesquisadores analisaram dados de 88 voluntários saudáveis que seguiram dietas ultra-baixas em oxalato (<60 mg/dia). Essa estratégia dietética permitiu avaliar com precisão a fração endógena da excreção de oxalato, isolando-a de fontes alimentares. Os participantes, sem histórico de nefrolitíase, diabetes ou hipertensão, foram submetidos a avaliação de composição corporal por bioimpedância elétrica e exames laboratoriais rigorosos, incluindo cromatografia iônica acoplada à espectrometria de massa para medir oxalato e seus precursores.

Os resultados revelaram uma forte associação entre a excreção urinária de oxalato e marcadores de massa magra, como massa muscular total, massa muscular apendicular, peso corporal, IMC, relação cintura-quadril e excreção urinária de creatinina. Em contraste, não houve associação entre excreção de oxalato e gordura corporal total ou percentual, idade ou colonização intestinal por Oxalobacter formigenes — uma bactéria conhecida por degradar oxalato no intestino.

Homens apresentaram maior excreção absoluta de oxalato; entretanto, quando ajustado pela massa magra, as mulheres mostraram maior excreção proporcional. Esses achados sugerem que a EOS ocorre predominantemente nos compartimentos corporais magros e que há diferenças fisiológicas no metabolismo de oxalato entre os sexos.

Essas associações podem estar relacionadas ao papel do colágeno, abundante no tecido muscular, que contém hidroxiprolina — um aminoácido que, durante seu catabolismo, gera glicoxilato, precursor direto do oxalato. Estudos prévios confirmaram que a ingestão de hidroxiprolina pode aumentar significativamente a síntese de oxalato, destacando a importância dessa via metabólica.

Além dos fatores corporais, determinados alimentos e suplementos também são fontes importantes de precursores para a síntese endógena de oxalato:

Alimentos e suplementos que induzem aumento da síntese endógena de oxalato

  • Vitamina C (ácido ascórbico): Doses elevadas de vitamina C (>1 g/dia) são metabolizadas no organismo gerando oxalato. Estudos em humanos demonstram aumento consistente da excreção urinária de oxalato após suplementação com 2 g/dia de vitamina C.
  • Hidroxiprolina (colágeno e gelatina): A hidroxiprolina, presente em altas concentrações no colágeno, é uma importante fonte de glicoxilato. Alimentos ricos em colágeno, como gelatina e caldos de ossos, ou suplementos de colágeno hidrolisado podem contribuir de forma significativa para a elevação da síntese endógena de oxalato. Ingestão de 30 g de gelatina, por exemplo, pode aumentar a excreção urinária de oxalato em até 43%.
  • Ácido glicóxico (uso tópico): Embora menos comum pela via alimentar, a exposição a produtos cosméticos contendo ácido glicóxico, como alisantes capilares, pode aumentar a carga corporal de oxalato devido à absorção sistêmica desse composto.

Essas informações são especialmente relevantes para indivíduos com histórico ou risco elevado de nefrolitíase, obesidade, diabetes ou doença hepática gordurosa metabólica, condições que frequentemente se associam a alterações no metabolismo de oxalato.

Conclusões

O estudo confirma que a massa magra corporal, e não a gordura, é o principal determinante da síntese endógena de oxalato em indivíduos saudáveis e evidencia diferenças importantes entre os sexos nesse metabolismo. Os dados contribuem para um melhor entendimento dos mecanismos fisiológicos que regulam a oxalúria endógena e sugerem que a modulação da ingestão de precursores como vitamina C e hidroxiprolina pode ser uma estratégia relevante na prevenção de cálculos renais em indivíduos suscetíveis.

Esses achados reforçam a necessidade de futuros estudos que explorem essas associações em populações com doenças metabólicas e renais, além de avaliações mais detalhadas dos efeitos de alimentos e suplementos amplamente consumidos que impactam a síntese endógena de oxalato.

Fonte: https://www.liebertpub.com/doi/10.1177/08927790251360011

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