Durante décadas, uma ideia foi repetida com frequência na nutrição: dietas ricas em proteína animal, especialmente carne, aumentariam a acidez da dieta, fariam o corpo eliminar mais cálcio pela urina e, por consequência, enfraqueceriam os ossos.
A lógica parece simples. A carne contém aminoácidos sulfurados, como cisteína e metionina. No metabolismo, esses aminoácidos podem contribuir para a produção de ácido sulfúrico. Como o esqueleto contém minerais alcalinos, surgiu a hipótese de que o corpo usaria cálcio dos ossos para neutralizar essa carga ácida. O resultado esperado seria maior perda urinária de cálcio, menor densidade mineral óssea e maior risco de osteoporose.
O artigo de Jay J. Cao e Forrest H. Nielsen, publicado em Current Opinion in Clinical Nutrition and Metabolic Care, revisou justamente essa questão: os efeitos de uma dieta ácida, rica em proteína de carne, sobre o metabolismo do cálcio e a saúde óssea. O ponto principal da revisão é que maior excreção urinária de cálcio não significa, necessariamente, perda de cálcio dos ossos.
A hipótese da “dieta ácida”
A chamada hipótese ácido-cinza da osteoporose parte da ideia de que alimentos com maior carga ácida poderiam aumentar a reabsorção óssea. Em termos simples, isso significa que o corpo retiraria minerais do osso para ajudar a tamponar a acidez.
De fato, a revisão reconhece que dietas com maior carga ácida podem aumentar a eliminação de cálcio na urina. Esse ponto não é negado. O problema está na interpretação automática desse achado.
Durante muito tempo, assumiu-se que o cálcio extra encontrado na urina vinha diretamente do osso. Mas, segundo os autores, os dados mais recentes discutidos na revisão não sustentam bem essa conclusão. A eliminação urinária de cálcio pode aumentar sem que haja piora no balanço corporal total de cálcio, nos marcadores de saúde óssea ou na densidade mineral óssea.
Em outras palavras, o corpo pode eliminar mais cálcio na urina sem que isso signifique, obrigatoriamente, que os ossos estão sendo “dissolvidos”.
Mais cálcio na urina não é o mesmo que osso mais fraco
Esse é o ponto mais importante. Um marcador isolado pode parecer preocupante, mas não contar a história completa.
A revisão cita estudos mostrando que a carga ácida da dieta pode se relacionar com maior cálcio urinário. Porém, meta-análises discutidas no artigo indicaram que essa mudança não se traduziu necessariamente em pior balanço de cálcio ou aumento de marcadores de reabsorção óssea.
Isso muda bastante a interpretação. Se o osso fosse a principal fonte desse cálcio urinário extra, seria esperado que dietas ricas em proteína, ao longo do tempo, levassem de forma clara a menor massa óssea. Mas a maioria dos estudos epidemiológicos revisados mostrou o oposto: maior ingestão de proteína foi associada a maior densidade mineral óssea e, em alguns casos, menor incidência de fraturas.
A revisão também cita o estudo de Framingham sobre osteoporose, no qual maior ingestão proteica foi associada a menor perda óssea em regiões como fêmur e coluna. Outros dados em crianças, adolescentes e mulheres jovens também não sustentaram a ideia de que maior ingestão proteica, dentro dos padrões estudados, prejudicasse a densidade mineral óssea.
Como a proteína pode favorecer os ossos
O osso não é apenas cálcio. Aproximadamente metade de seu volume é composta por matriz proteica, principalmente colágeno. Portanto, proteína alimentar também fornece substrato estrutural para a formação e manutenção do tecido ósseo.
Segundo a revisão, os possíveis efeitos benéficos da proteína sobre a saúde óssea incluem três mecanismos principais.
Primeiro, maior ingestão de proteína pode aumentar a absorção intestinal de cálcio. Isso ajuda a explicar por que mais cálcio aparece na urina: não necessariamente porque saiu do osso, mas porque mais cálcio foi absorvido no intestino.
Segundo, dietas com mais proteína podem aumentar os níveis circulantes de IGF-1, um fator associado a ações anabólicas no tecido ósseo. O IGF-1 participa de processos de formação óssea e pode contribuir para maior massa óssea.
Terceiro, maior ingestão proteica pode reduzir o hormônio paratireoideo, conhecido como PTH. Quando o PTH permanece elevado de forma crônica, ele pode estimular a mobilização de cálcio a partir do osso. A revisão observa que baixa ingestão de proteína já foi associada a hiperparatireoidismo secundário e menor densidade mineral óssea.
Assim, a proteína não atua apenas como uma fonte potencial de carga ácida. Ela também participa de mecanismos que favorecem a absorção de cálcio, a formação de matriz óssea e o equilíbrio hormonal relacionado ao metabolismo mineral.
E a proteína animal?
A proteína animal costuma receber mais críticas nesse tema porque tende a conter mais aminoácidos sulfurados do que muitas proteínas vegetais. Isso poderia aumentar a carga ácida da dieta.
No entanto, a revisão observa que estudos com dietas ricas em carne não demonstraram piora obrigatória na retenção corporal de cálcio ou nos indicadores ósseos. Pelo contrário, altas ingestões de proteína animal foram associadas, em alguns estudos, a maior densidade mineral óssea ou menor risco de fratura de quadril.
Os autores também destacam um ponto relevante para a saúde musculoesquelética: músculo e osso não funcionam como compartimentos isolados. A manutenção de massa muscular e força tende a acompanhar melhor saúde óssea. Nesse contexto, proteínas animais geralmente fornecem maior concentração de leucina, aminoácido importante para sinalizar disponibilidade de proteína de qualidade para síntese muscular.
Isso não significa que o artigo tenha testado uma dieta carnívora, nem que seus achados possam ser extrapolados sem cautela para qualquer padrão alimentar extremo. O trabalho analisou o tema da proteína, especialmente proteína de carne, dentro do debate sobre carga ácida, cálcio e saúde óssea.
O papel do cálcio e do contexto alimentar
A revisão também deixa claro que o efeito da proteína sobre a saúde óssea depende do contexto. Um dos fatores citados é a ingestão de cálcio.
Em estudos discutidos pelos autores, maior ingestão de proteína pode ter efeitos diferentes quando a ingestão de cálcio é adequada ou muito baixa. Em um estudo com meninas chinesas na puberdade e baixa ingestão de cálcio, maior ingestão proteica, especialmente de origem animal, foi associada a efeito negativo sobre acúmulo de massa óssea. Isso sugere que proteína alta não deve ser interpretada isoladamente, como se todo o restante da dieta fosse irrelevante.
A conclusão da revisão é mais equilibrada: uma dieta rica em proteína, incluindo proteína da carne, não deve ser automaticamente tratada como prejudicial aos ossos. Porém, os autores enfatizam a importância de cálcio adequado e de uma dieta globalmente bem planejada.
O que a revisão realmente concluiu
A mensagem central do artigo é objetiva: embora dietas ricas em carne ou proteína possam aumentar a carga ácida renal e a excreção urinária de cálcio, as evidências revisadas não sustentam a afirmação de que esse cálcio venha necessariamente dos ossos.
Também faltam evidências de que maior ingestão de proteína, incluindo proteína animal, prejudique o balanço corporal total de cálcio ou aumente o risco de osteoporose e fraturas. Ao contrário, muitos estudos associaram maior ingestão proteica a melhor densidade mineral óssea.
A revisão propõe que os efeitos favoráveis da proteína — maior absorção intestinal de cálcio, aumento de IGF-1, redução de PTH e fornecimento de aminoácidos para a matriz óssea — podem compensar ou superar o possível efeito negativo da carga ácida.
Portanto, a ideia de que carne “rouba cálcio dos ossos” é uma simplificação excessiva. O achado de mais cálcio na urina não basta para concluir que houve perda óssea. Para avaliar saúde óssea, é necessário observar desfechos mais relevantes, como balanço de cálcio, densidade mineral óssea, marcadores de remodelação e risco de fraturas.
A revisão não transforma proteína em solução isolada para saúde óssea, mas enfraquece uma acusação antiga contra a carne. O osso precisa de minerais, mas também precisa de proteína. E, segundo os dados discutidos pelos autores, uma ingestão proteica acima da recomendação mínima atual pode ser benéfica para a utilização de cálcio e para a saúde óssea, especialmente em idosos, quando há ingestão adequada de cálcio e o restante do contexto alimentar é considerado.
Fonte: https://doi.org/10.1097/MCO.0b013e32833df691
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