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Mudanças na composição corporal durante a redução de peso na obesidade. Estudos de equilíbrio comparando efeitos do jejum e de uma dieta cetogênica (1965)

Estudo de 1965 sobre jejum, dieta cetogênica e composição corporal

Em 1965, pesquisadores colocaram sete homens com obesidade em uma enfermaria metabólica para comparar dois métodos bastante diferentes de emagrecimento: 10 dias de jejum total e 10 dias de uma dieta cetogênica de 1.000 kcal. O jejum produziu maior queda na balança, mas a estimativa de composição corporal contou outra história: durante a dieta cetogênica, quase todo o peso perdido foi classificado como gordura, enquanto no jejum grande parte foi atribuída à massa magra. O resultado é interessante, mas o método usado para estimar gordura e massa magra impõe uma limitação importante à interpretação.

Como o estudo foi feito

Os participantes eram militares da Marinha dos Estados Unidos, todos homens, com média de 29 anos, peso médio de 115,6 kg e cerca de 44% de gordura corporal. Seis seguiram dois períodos de 10 dias: jejum total e dieta cetogênica, separados por quatro dias de dieta mista de baixa caloria. Metade começou pelo jejum e metade pela dieta cetogênica, reduzindo a possibilidade de o resultado depender apenas da ordem das intervenções.

A dieta cetogênica fornecia aproximadamente 82% das calorias como gordura, 14% como proteína e 4% como carboidratos, totalizando 1.000 kcal por dia. Os participantes permaneceram internados, com alimentação preparada e pesada pela equipe e atividade física moderada relativamente padronizada.

O jejum fez o peso cair mais, mas com maior perda de tecido magro

Em 10 dias, a perda média de peso foi de 9,6 kg durante o jejum e 6,6 kg durante a dieta cetogênica. Olhar apenas para a balança faria o jejum parecer claramente superior. A análise de composição corporal, porém, produziu um resultado bem diferente.

Segundo os cálculos dos pesquisadores, dos 9,6 kg perdidos no jejum, 6,2 kg — 64,6% — corresponderiam a massa magra e apenas 3,4 kg a gordura. Na dieta cetogênica, a perda estimada foi de 6,4 kg de gordura e apenas 0,2 kg de massa magra. Assim, embora o jejum tenha reduzido mais o peso corporal, a dieta cetogênica pareceu preservar muito melhor o tecido magro.

Outros dados metabólicos seguiram a mesma direção. O balanço de nitrogênio, usado como indicador indireto de perda de proteína corporal, ficou negativo nos dois períodos, mas foi quase duas vezes mais negativo no jejum: média de −12,6 g/dia, contra −7,0 g/dia na dieta cetogênica. Portanto, nem mesmo a dieta cetogênica evitou completamente o catabolismo proteico.

Também houve uma diferença marcante no potássio. Durante o jejum, o balanço médio foi de −43,4 mEq/dia e a quantidade total de potássio corporal caiu, em média, 15,1 g em 10 dias. Na dieta cetogênica, o balanço médio ficou próximo de zero e a redução do potássio corporal foi de apenas 0,6 g. Como grande parte do potássio do corpo está no tecido magro, os autores interpretaram esse achado como mais um sinal de maior preservação da massa magra.

O ponto mais frágil está justamente na estimativa de gordura

O estudo não mediu gordura corporal com tomografia, ressonância, DEXA ou outro método moderno. A composição corporal foi estimada a partir do potássio corporal total, medido pelo isótopo potássio-40. A massa magra era calculada supondo uma relação fixa entre potássio, água corporal e tecido magro; a gordura era simplesmente a diferença entre o peso total e a massa magra calculada.

Esse detalhe é decisivo porque jejum e dietas cetogênicas provocam alterações rápidas de glicogênio, água e eletrólitos. Em um experimento de apenas 10 dias, mudanças nesses compartimentos podem interferir na estimativa de massa magra e gordura. Os próprios autores reconheceram que as medições individuais de potássio-40 apresentavam grande variabilidade e poderiam não ser adequadas para acompanhar mudanças seriadas em uma única pessoa.

Existe ainda outra diferença relevante entre as intervenções: a dieta cetogênica analisada continha 283,5 mEq de sódio por dia, enquanto a dieta mista usada no sétimo participante continha 56 mEq. No jejum não havia ingestão alimentar. Como diferenças na oferta de sódio podem alterar o balanço de líquidos, isso complica ainda mais uma comparação de peso e composição corporal em prazo tão curto.

Um estudo posterior encontrou uma composição bem menos extraordinária

Em 1976, Yang e Van Itallie estudaram seis pessoas com obesidade durante períodos de jejum, dieta cetogênica de 800 kcal e dieta mista isocalórica. Usando um método baseado em balanço energético e de nitrogênio, encontraram que, durante a dieta cetogênica, cerca de 61,2% do peso perdido era água, 35,0% gordura e 3,8% proteína. Portanto, esse experimento não reproduziu a estimativa de 1965 de que quase toda a perda durante a dieta cetogênica correspondia a gordura.

Esse estudo posterior também era pequeno e durou apenas 10 dias por fase, portanto não resolve sozinho a questão. Ele mostra, porém, por que os números de 1965 não devem ser interpretados literalmente como prova de que uma dieta cetogênica faça alguém perder 6,4 kg de gordura em apenas 10 dias.

O que o estudo realmente permite concluir

O trabalho de Benoit, Martin e Watten tem valor histórico porque mostrou algo que a balança, sozinha, não revela: perder mais peso não significa necessariamente perder mais gordura. No grupo estudado, o jejum total produziu maior perda de peso e maior perda de nitrogênio e potássio, sinais compatíveis com maior catabolismo de tecido magro.

A dieta cetogênica de muito baixa caloria produziu menor perda de nitrogênio e uma estimativa muito menor de perda de massa magra. Essa parte do resultado é coerente com os dados metabólicos coletados. Já a magnitude extraordinária da perda de gordura estimada deve ser vista com reserva, porque depende de um método indireto sensível às alterações metabólicas que ocorrem rapidamente nessas intervenções.

Além disso, eram apenas sete homens com obesidade, acompanhados por poucos dias. A comparação direta com uma dieta mista isocalórica ocorreu em apenas um participante. O estudo, portanto, não demonstra que dietas cetogênicas sejam superiores a outras dietas para perda de gordura no longo prazo, nem permite extrapolar seus resultados para mulheres, pessoas sem obesidade ou dietas cetogênicas com ingestão energética normal.

Fonte: https://doi.org/10.7326/0003-4819-63-4-604

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