O vídeo “6 Vegetarian Animals That Actually Eat Meat”, publicado pelo SciShow, usa seis exemplos para mostrar um ponto simples: a palavra “herbívoro” descreve a dieta predominante de um animal, mas nem sempre significa exclusividade vegetal. O material cita cervos, esquilos, lagartas e borboletas, duikers, hipopótamos e primatas como casos em que animais associados a plantas também podem consumir tecidos animais.
Herbívoro não significa “vegano da floresta”
Na linguagem comum, costuma-se imaginar que o animal herbívoro vive apenas de folhas, frutos, sementes ou capim. Em ecologia, porém, a realidade é menos rígida. Muitos animais são classificados pelo alimento que consomem com mais frequência, não por uma regra absoluta. Isso explica por que espécies adaptadas a plantas podem, em certas circunstâncias, comer ovos, filhotes, insetos, carcaças ou ossos.
O ponto central não é transformar cervos ou hipopótamos em “carnívoros” no sentido clássico. Eles continuam sendo animais cuja dieta habitual é baseada em vegetais. A observação importante é outra: tecidos animais podem oferecer nutrientes difíceis de obter em alguns ambientes, como minerais, aminoácidos, energia concentrada ou vitamina B12. O rótulo alimentar, portanto, não deve ser tratado como uma fronteira moral ou biológica inflexível.
Cervos: folhas, brotos e, às vezes, filhotes de aves
Cervos são ruminantes, adaptados à fermentação de material vegetal. Ainda assim, há registros consistentes de cervos consumindo matéria animal. Um estudo do USGS sobre predação de ninhos em pradarias de Dakota do Norte registrou cervos-de-cauda-branca removendo filhotes de aves à noite, em episódios rápidos e deliberados, sem deixar sinais evidentes no ninho.
Também há registros forenses de cervos roendo restos humanos expostos. Um artigo publicado no Journal of Forensic Sciences relatou evidência fotográfica de cervo-de-cauda-branca roendo osso humano, fenômeno relevante para a tafonomia forense, área que estuda alterações em restos orgânicos após a morte.
Esses episódios não indicam que cervos caçam humanos ou que carne seja parte central de sua dieta. O que sugerem é que ossos e tecidos animais podem funcionar como fontes ocasionais de minerais, especialmente cálcio, fósforo e sais. O mesmo raciocínio aparece nos relatos sobre cervos-vermelhos e ovelhas predando aves marinhas em ilhas, comportamento já discutido na literatura zoológica.
Esquilos e roedores: sementes, dentes e oportunidade
Esquilos costumam ser lembrados por nozes, sementes e frutas. No entanto, roedores também podem consumir ovos, filhotes de aves, pequenos vertebrados ou carcaças. No contexto forense, há estudos sobre marcas de roedura feitas por esquilos e ratos em ossos, com potencial para alterar a interpretação de esqueletos expostos.
Há duas explicações prováveis para parte desse comportamento. A primeira é mecânica: roedores têm incisivos de crescimento contínuo, e roer superfícies duras ajuda a desgastá-los. A segunda é nutricional: ossos podem fornecer minerais, enquanto tecidos animais oferecem energia e proteína. Isso não torna todo roedor um predador especializado, mas reforça que a dieta real de muitos animais é oportunista.
Lagartas e borboletas: nem todo inseto “vegetariano” vive de folhas
Lagartas são famosas por devorar folhas, mas esse padrão também tem exceções. Existem lagartas carnívoras no Havaí, incluindo linhagens que capturam ou consomem artrópodes. Em 2025, pesquisadores descreveram na revista Science uma lagarta havaiana que vive em teias de aranha e se alimenta de artrópodes presos ali, reforçando a diversidade de estratégias alimentares dentro dos lepidópteros.
Outras lagartas havaianas do grupo Hyposmocoma foram descritas como predadoras de caracóis, usando seda para prender a presa antes de consumi-la.
Mesmo borboletas adultas, associadas ao néctar, podem buscar nutrientes fora das flores. Algumas visitam carcaças, lama, minerais ou fluidos animais para obter sais e outros compostos ausentes ou escassos no néctar. A lição é que uma dieta baseada em plantas ou néctar não impede o uso ocasional de nutrientes de origem animal.
Duikers: antílopes frugívoros com comportamento menos conhecido
Os duikers são pequenos antílopes africanos geralmente descritos como frugívoros, isto é, consumidores de frutos. O vídeo cita relatos de matéria animal em seu conteúdo estomacal, incluindo insetos, carniça e, em alguns casos, pequenos vertebrados. A própria transcrição ressalta que ainda não se sabe com segurança por que esses animais consomem carne e que parte das observações vem de cativeiro, onde o comportamento pode não representar perfeitamente a vida selvagem.
Esse é um ponto importante para manter a precisão. Alguns casos são bem documentados por câmera, DNA fecal ou observação direta. Outros dependem de relatos mais antigos, observações oportunistas ou contextos de zoológico. Por isso, duikers entram melhor como exemplo de flexibilidade alimentar provável, não como prova de uma regra geral.
Hipopótamos: herbívoros grandes, agressivos e facultativamente carnívoros
Hipopótamos são classificados como herbívoros e consomem principalmente gramíneas. Apesar disso, uma revisão publicada na Mammal Review argumentou que a carnivoria em hipopótamos não é uma anomalia restrita a poucos indivíduos. Segundo os autores, hipopótamos podem consumir carne e tecidos intestinais de carcaças, e esse comportamento foi registrado em diferentes partes de sua distribuição na África.
A frequência exata desse consumo continua incerta. Muitos estudos de dieta em hipopótamos dependem de fezes, que informam melhor o material vegetal ingerido do que episódios ocasionais de consumo de carne. Além disso, hipopótamos se alimentam muito à noite e são animais perigosos de observar de perto. Ainda assim, a literatura sustenta a ideia de que eles podem agir como carnívoros facultativos quando a oportunidade aparece.
Primatas e vitamina B12: o caso dos bonobos
Entre primatas, o consumo de carne é bem conhecido em chimpanzés. Bonobos, por outro lado, foram por muito tempo associados a uma imagem mais pacífica e mais frugívora. Ainda assim, um estudo de DNA em fezes de bonobos e gorilas encontrou evidência de consumo recente de vertebrados em parte das amostras, com o artigo discutindo se esses achados representavam consumo real ou possíveis artefatos metodológicos.
A vitamina B12 ajuda a explicar por que dietas exclusivamente vegetais são biologicamente desafiadoras para mamíferos sem acesso a alimentos fortificados ou suplementos. O NIH informa que a vitamina B12 está naturalmente presente em alimentos de origem animal, como peixes, carnes, aves, ovos e laticínios, enquanto alimentos vegetais não a contêm naturalmente, salvo quando fortificados.
Isso não significa que humanos não possam obter B12 sem carne. Humanos modernos podem usar suplementos ou alimentos fortificados. O ponto ecológico é outro: animais selvagens não têm farmácia, rótulo nutricional ou alimento enriquecido. Para eles, insetos, ovos, pequenos vertebrados, carniça ou fezes podem ser fontes ocasionais de nutrientes que não aparecem facilmente em folhas e frutos.
O que esses exemplos realmente mostram
A conclusão mais segura é que a natureza não se organiza em categorias alimentares tão limpas quanto as usadas em debates humanos. Um cervo pode continuar sendo herbívoro mesmo roendo osso. Um hipopótamo pode continuar sendo pastador mesmo consumindo carcaça. Um primata pode ser majoritariamente frugívoro e ainda assim comer carne em algumas situações.
Esses casos também mostram que nutrientes importam. Animais não comem apenas “plantas” ou “carne” como categorias abstratas. Eles buscam energia, minerais, aminoácidos, vitaminas e compostos necessários à sobrevivência. Quando o ambiente oferece uma oportunidade fácil de obter esses nutrientes em tecidos animais, até espécies consideradas herbívoras podem aproveitá-la.
O erro seria transformar essa observação em uma recomendação direta e simplista para humanos. O comportamento alimentar de cervos, esquilos, borboletas ou hipopótamos não define automaticamente a dieta ideal de uma pessoa. Mas ele ajuda a desmontar uma ideia ingênua: a de que o consumo de alimentos de origem animal seria uma exceção antinatural, restrita apenas a predadores clássicos.
Na prática, o vídeo funciona como uma lembrança biológica útil. A alimentação animal é mais flexível do que muitos rótulos sugerem. E, no mundo selvagem, “comer plantas” muitas vezes significa “comer principalmente plantas, até que apareça uma fonte conveniente de nutrientes animais”.
