O artigo “Calorie intake in relation to body-weight changes in the obese”, publicado no The Lancet, partiu de uma dúvida que continua popular até hoje: em pessoas com obesidade, a perda de peso dependeria apenas da redução calórica ou também da composição da dieta? Os autores procuraram comparar esses dois fatores em condições hospitalares, com controle de água, sal e cardápios preparados para cada fase do experimento.
Os participantes eram pessoas consideradas claramente obesas para o padrão da época, todas com peso mais de 35% acima do valor de referência usado pelos autores. O estudo foi feito com internação hospitalar, justamente para tentar reduzir interferências externas e acompanhar o peso diariamente. Ainda assim, o próprio artigo relata dificuldades importantes de adesão alimentar e informa que vários casos com falhas disciplinares conhecidas foram descartados da análise final, o que já impõe uma limitação relevante na interpretação dos resultados.
Como o estudo foi conduzido
O trabalho foi dividido em três séries principais. Na primeira série, seis pacientes receberam dietas com a mesma proporção de proteína, gordura e carboidrato, mas com diferentes quantidades de energia: 2000, 1500, 1000 ou 500 calorias por dia, por períodos de 7 a 9 dias. Nessa parte, os autores observaram uma relação direta entre maior déficit calórico e maior perda de peso. Em outras palavras, quando a composição da dieta era mantida constante, a redução de calorias se associava a mais perda ponderal.
Na segunda série, quatorze pacientes receberam sempre 1000 calorias por dia, mas com composições muito diferentes: em alguns períodos, 90% das calorias vinham de carboidratos; em outros, de gordura; em outros, de proteína; além de um período com dieta mista. Aqui apareceu o achado que tornou o artigo famoso: a perda de peso foi mais rápida com dietas muito ricas em gordura ou proteína, enquanto em curtos períodos o peso podia até ser mantido quando a maior parte das calorias vinha de carboidratos.
Na terceira série, cinco pacientes mostraram manter ou até ganhar um pouco de peso com uma dieta “normal” de 2000 calorias. Depois, esses mesmos pacientes passaram para uma dieta de 2600 calorias, mais rica em gordura e proteína e mais pobre em carboidratos. Mesmo com mais calorias totais, quatro dos cinco perderam peso. Foi esse resultado que levou os autores a sugerirem que a composição da dieta poderia alterar o gasto energético ou a resposta metabólica do organismo obeso.
O que os autores concluíram
O resumo do próprio artigo aponta duas mensagens centrais. A primeira é que calorias importam, porque quando a composição da dieta foi mantida constante a perda de peso acompanhou o tamanho do déficit energético. A segunda é que, em ingestões calóricas iguais, a composição da dieta pareceu modificar fortemente a resposta do peso corporal naquele contexto experimental. Segundo os autores, isso sugeria alteração metabólica em resposta ao conteúdo da dieta, com comportamento mais favorável à perda de peso nas dietas muito ricas em gordura e proteína do que nas muito ricas em carboidratos.
Outro ponto importante é que os autores não atribuíram toda a perda de peso apenas à gordura corporal. Pelas medições deles, cerca de 30% a 50% do peso perdido parecia vir de água corporal disponível, e o restante provavelmente correspondia sobretudo a gordura corporal. Isso é decisivo para uma leitura correta: o estudo não mostrou simplesmente “mais gordura queimada” de forma limpa e direta, mas uma combinação de mudanças de água corporal e provável perda de gordura.
Por que esse estudo exige cautela hoje
Este é um estudo historicamente interessante, mas está longe de encerrar a discussão. Primeiro, trata-se de um experimento muito antigo, com métodos limitados para os padrões atuais. Segundo, os períodos dietéticos foram curtos, em geral de poucos dias, o que aumenta a influência de alterações transitórias de água corporal. Terceiro, parte das dietas era bastante extrema, como 90% das calorias vindas de um único macronutriente, algo pouco representativo da vida real. Quarto, o próprio artigo reconhece problemas de adesão e seleção de casos. E, por fim, os participantes estavam internados, o que dificulta extrapolar os achados para pessoas vivendo normalmente fora do hospital.
Também vale notar que os autores tentaram investigar se a diferença de peso poderia ser explicada por má absorção de proteína ou gordura, e relataram não encontrar evidência forte para isso dentro das medições que fizeram. Mesmo assim, eles próprios admitem que a confirmação direta da hipótese metabólica era difícil e que alguns marcadores, como a taxa metabólica basal, não mudaram de forma significativa nesses curtos períodos. Ou seja, o estudo levanta uma hipótese forte, mas não fornece uma demonstração definitiva nos termos exigidos pela pesquisa moderna.
Leitura correta do estudo hoje
A leitura mais fiel do artigo não é a de que “caloria não importa”. O próprio estudo mostrou o contrário em sua primeira série. Também não seria correto tratá-lo como prova final de que apenas reduzir carboidratos resolve a obesidade em qualquer contexto. O que o trabalho realmente mostrou foi que, em um ambiente hospitalar controlado e por curtos períodos, a distribuição entre carboidratos, gordura e proteína pareceu modificar bastante a resposta do peso corporal, inclusive além do que seria esperado por calorias isoladas. Esse ponto ajuda a explicar por que o artigo continua sendo citado em debates sobre obesidade, restrição de carboidratos e modelos metabólicos de perda de peso.
Do ponto de vista histórico, trata-se de um estudo clássico porque confrontou cedo a ideia de que bastaria olhar apenas para o total calórico. Do ponto de vista científico atual, ele deve ser visto como uma peça antiga e relevante, mas incompleta, que precisa ser interpretada junto de evidências mais modernas e de melhor qualidade metodológica.
Fonte: https://doi.org/10.1016/s0140-6736(56)91691-9
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