Durante muito tempo, 37 °C foi apresentado como a temperatura normal do corpo humano. Quem colocava o termômetro debaixo do braço e encontrava 36,4 °C podia até imaginar que havia algo errado. Mas a temperatura varia de pessoa para pessoa, muda ao longo do dia e depende de onde é medida.
Além disso, estudos sugerem uma mudança: a temperatura corporal média de algumas populações parece ter diminuído ao longo das gerações. Uma pesquisa publicada na revista eLife encontrou essa tendência em registros dos Estados Unidos. Outro estudo observou uma queda entre os Tsimane, povo que vive na Amazônia boliviana.
As possíveis explicações incluem mudanças nas infecções, nos tratamentos de saúde e nas condições de vida. Os pesquisadores, porém, ainda não descobriram quanto cada uma delas contribuiu para os resultados.
Por que aprendemos que a temperatura normal é de 37 °C?
No século XIX, o médico alemão Carl Wunderlich reuniu medições de temperatura de milhares de pacientes. A partir desses registros, estabeleceu uma média próxima de 37 °C, que ajudou a consolidar o uso do termômetro na avaliação clínica.
Uma média, porém, não funciona como uma régua para todas as pessoas. Assim como duas pessoas saudáveis podem ter alturas diferentes, elas também podem apresentar temperaturas corporais diferentes.
O próprio Wunderlich observou variações entre indivíduos e ao longo do dia. Mesmo assim, o número de 37 °C ganhou fama de temperatura ideal e passou a ser repetido como se qualquer valor abaixo dele fosse um problema.
Em pesquisas mais recentes, as médias ficaram abaixo desse número. Em um estudo britânico com mais de 35 mil pacientes, a temperatura oral média foi de 36,6 °C. Isso também não faz de 36,6 °C uma meta individual: o resultado depende, entre outros fatores, do horário e do local da medição.
O que mudou ao longo das gerações?
Para investigar a tendência, Myroslava Protsiv e seus colegas analisaram 677.423 medições de temperatura de 189.338 pessoas nos Estados Unidos. Os dados reuniam registros de veteranos da Guerra Civil Americana, participantes de uma pesquisa nacional de saúde e pacientes atendidos em serviços ligados à Universidade Stanford.
As medições foram feitas entre 1862 e 2017. Ao comparar pessoas nascidas em épocas diferentes, os pesquisadores encontraram temperaturas médias mais baixas entre as gerações mais recentes.
Após considerar características como idade, altura e peso, a diferença estimada entre homens nascidos no início do século XIX e os nascidos no final do século XX foi de aproximadamente 0,59 °C. Entre as mulheres, a diferença estimada foi de 0,32 °C, em uma comparação que começou com as nascidas na década de 1890.
A queda estimada foi de cerca de 0,03 °C por década de nascimento para homens e mulheres. Esse resultado compara grupos de gerações diferentes. Ele não quer dizer que a temperatura de uma pessoa caia exatamente 0,03 °C a cada dez anos de vida.
Os pesquisadores também observaram que, em geral, pessoas mais velhas apresentavam temperaturas menores e que as medições feitas mais tarde no dia tendiam a registrar valores mais altos. Por isso, uma leitura pela manhã pode ser diferente de outra feita à tarde sem que isso indique doença.
Os termômetros antigos podem ter influenciado os resultados?
Sim. Os instrumentos mudaram, assim como a forma de usá-los. Wunderlich media principalmente a temperatura na axila; pesquisas mais recentes frequentemente usam a temperatura oral. Uma leitura na boca e outra na axila não precisam apresentar o mesmo número.
Para examinar essa questão, os pesquisadores americanos compararam pessoas nascidas em décadas diferentes dentro de um mesmo conjunto histórico de registros. A tendência de queda também apareceu nessa análise. Eles encontraram diferenças ainda entre dois grupos mais recentes, cujos termômetros deveriam ter calibração mais semelhante.
Esses resultados sugerem que a mudança não se explica apenas pelo uso de termômetros antigos. Mas os pesquisadores não puderam controlar todas as condições em que as medições históricas foram feitas. Os grupos também eram diferentes: os registros mais antigos eram de veteranos homens, enquanto os mais recentes incluíam outras populações, como pacientes de serviços de saúde.
O que foi observado na Amazônia?
Uma pesquisa publicada na Science Advances encontrou uma tendência semelhante entre os Tsimane, povo da Amazônia boliviana. Os pesquisadores analisaram 17.958 medições de 5.481 pessoas com 15 anos ou mais, feitas entre 2002 e 2018.
No início do período, a temperatura média estava próxima de 37 °C. Em 2018, estava em torno de 36,5 °C. A queda estimada pelos autores foi de aproximadamente 0,05 °C por ano.
A tendência continuou aparecendo mesmo quando os pesquisadores consideraram diagnósticos de infecções e outros fatores. Durante o estudo, o método de medição mudou da boca para o ouvido; essa diferença foi investigada nas análises. O trabalho encontrou uma mudança na média, mas não identificou uma causa única.
Por que a temperatura média pode ter diminuído?
Uma das hipóteses envolve a redução da exposição prolongada a infecções. No século XIX, doenças infecciosas sem tratamento eficaz eram comuns. Quando o sistema imunológico reage a uma infecção, essa resposta pode elevar a temperatura e aumentar o gasto de energia do corpo.
Melhorias no saneamento, na higiene e no tratamento de doenças podem, portanto, ter contribuído para temperaturas médias menores. Os autores também consideram possíveis efeitos de mudanças nas condições das casas e no controle da temperatura dos ambientes.
Há pistas que tornam essas explicações plausíveis. No estudo americano, por exemplo, homens com diagnóstico de tuberculose ou pneumonia apresentavam temperaturas médias mais altas. Ainda assim, essa observação não explica, sozinha, toda a diferença encontrada entre as gerações.
Uma temperatura abaixo de 37 °C indica metabolismo lento?
Não é possível chegar a essa conclusão apenas com o termômetro. A temperatura corporal se relaciona à produção e à perda de calor, enquanto o metabolismo envolve os processos pelos quais o corpo utiliza energia. Os autores do estudo americano consideram a temperatura uma medida indireta e limitada da taxa metabólica.
Uma pessoa que mede 36,4 °C, por exemplo, não pode concluir a partir desse número que tem metabolismo lento ou hipotireoidismo. O estudo não mediu diretamente o gasto energético dos participantes e não demonstrou que a queda da temperatura causou mudanças no peso ou na longevidade.
Na prática, faz diferença observar como a temperatura foi medida. Uma leitura na axila ao acordar e outra na boca no fim da tarde foram feitas em condições diferentes. Segundo o MedlinePlus, a temperatura habitual varia conforme a pessoa, a idade, a atividade e o horário.
Os estudos mostram que as médias de algumas populações podem ter mudado ao longo do tempo. Para entender uma leitura individual, faz mais sentido considerar as condições da medição e o estado de saúde da pessoa do que esperar que o termômetro marque sempre 37 °C.
Fonte: https://www.bbc.co.uk/future/article/20261030-why-humans-maybe-ran-hotter-two-centuries-ago
