Dieta carnívora é uma abordagem alimentar baseada em alimentos de origem animal. Este site reúne a maior base de referências em português sobre o tema, integrando estudos científicos, relatos clínicos, experiências pessoais, etnografia, antropologia, sustentabilidade e documentários.

William Taft e a dieta low carb de 1905: quase 27 kg a menos

Retrato histórico de William Howard Taft, presidente dos Estados Unidos que realizou uma dieta com poucos carboidratos em 1905

Em 1905, William Howard Taft, que se tornaria presidente dos Estados Unidos, procurou um médico para tratar sua obesidade. A orientação foi bastante familiar para quem conhece as dietas low carb: reduzir drasticamente açúcar, pão, batatas e outros alimentos ricos em amido, priorizando carne, peixe e vegetais. Em aproximadamente quatro meses, Taft perdeu 26,8 kg. O episódio aconteceu mais de um século antes de as dietas pobres em carboidratos voltarem ao centro das discussões sobre emagrecimento.

A história está documentada em um artigo publicado em 2013 na revista Annals of Internal Medicine. A historiadora Deborah Levine analisou a correspondência entre Taft e seu médico, revelando detalhes de um tratamento que, apesar de ter começado em 1905, apresenta características familiares até hoje.

Um paciente de 142 kg e um médico do outro lado do oceano

Em 1905, Taft ainda era secretário de Guerra dos Estados Unidos. Pesava aproximadamente 142 kg e convivia com problemas digestivos, azia, dificuldades para dormir, cansaço e sonolência durante o dia.

Preocupado com a saúde, decidiu procurar ajuda. Por recomendação familiar, entrou em contato com Nathaniel Yorke-Davies, um médico britânico especializado no tratamento da obesidade e autor do livro Foods for the Fat, publicado no século XIX.

Havia um pequeno inconveniente: o médico atendia em Londres e o paciente morava nos Estados Unidos. A solução foi realizar todo o tratamento por correspondência.

Yorke-Davies enviava orientações alimentares, horários das refeições e listas de alimentos permitidos e proibidos. Taft, por sua vez, anotava o peso diariamente e enviava relatórios semanais sobre sua alimentação e suas atividades físicas.

Era uma espécie de acompanhamento nutricional a distância. Sem aplicativos, fotografias das refeições ou relógios inteligentes. Apenas papel, caneta e cartas atravessando o Atlântico.

O cardápio prescrito em 1905

O médico não recomendou simplesmente comer menos. Estabeleceu um plano alimentar com horários, quantidades e restrições específicas.

Segundo a reconstituição histórica publicada pelo History, a rotina alimentar incluía:

  • Às 8 horas: um copo de água quente com limão, ingerido lentamente.
  • No café da manhã: chá ou café sem açúcar, aproximadamente 170 g de carne magra grelhada e dois ou três biscoitos especiais de glúten.
  • No almoço: aproximadamente 113 g de carne magra, vegetais verdes cozidos, uma pequena porção de frutas sem açúcar adicionado e um biscoito.
  • À tarde: chá, café ou caldo de carne, sem leite ou açúcar.
  • No jantar: sopa clara, peixe, carne, vegetais e uma porção de frutas cozidas sem açúcar, com pequenas quantidades de outros alimentos permitidos.

Açúcar, doces, pão comum, batatas e outros alimentos ricos em amido eram fortemente restringidos.

Observe que a dieta incluía carne em todas as refeições principais. A proteína animal ocupava uma posição central, enquanto os alimentos ricos em carboidratos tinham participação limitada.

Por outro lado, não era uma dieta carnívora nem uma alimentação sem carboidratos. Havia vegetais, frutas e biscoitos especialmente preparados. O médico também controlava rigorosamente as porções e privilegiava carnes magras, de modo que a ingestão total de calorias provavelmente era bastante reduzida.

Isso ajuda a entender o tratamento: Taft reduziu os carboidratos dentro de uma dieta que também restringia a quantidade de alimentos consumidos.

Quase 27 kg perdidos em quatro meses

Os registros analisados por Levine mostram que Taft passou de 314 libras (aproximadamente 142,4 kg), em dezembro de 1905, para 255 libras (115,7 kg), em abril de 1906.

Foram 59 libras, equivalentes a 26,8 kg perdidos em aproximadamente quatro meses, ou quase 19% de seu peso inicial.

A melhora não ficou restrita à balança. Taft relatou alívio dos problemas digestivos e demonstrou satisfação com a própria aparência.

O médico acompanhava os resultados de perto. Além das cartas enviadas pelo paciente, procurava familiares e conhecidos para saber como Taft estava se comportando e se sua aparência havia mudado.

Entretanto, havia uma dificuldade importante: a fome.

Em uma carta ao irmão, Taft reconheceu que recebia elogios pela aparência, mas estava praticamente sempre com fome. Esse detalhe, recuperado no relato publicado pela Harvard Health, ajuda a explicar por que a manutenção do resultado se tornou tão difícil.

Ao atingir seu objetivo inicial, ele pediu ao médico uma dieta de manutenção. Aparentemente, emagrecer havia sido a parte mais fácil.

O peso voltou durante os anos seguintes

Apesar do resultado inicial, Taft não conseguiu manter a perda de peso naquele período.

Em 1909, quando assumiu a Presidência dos Estados Unidos, já havia recuperado o peso perdido. Algumas fontes históricas registram aproximadamente 354 libras, ou 160,6 kg, embora existam divergências sobre seu peso exato na posse.

A rotina política, os compromissos sociais e a dificuldade de seguir uma alimentação tão restritiva provavelmente contribuíram para o problema. Não é possível determinar pelas cartas quanto cada fator influenciou o reganho.

Depois de deixar a Casa Branca, em 1913, Taft voltou a emagrecer e conseguiu manter uma redução expressiva por muitos anos.

Um artigo publicado na revista Chest, em 2003, analisou seus problemas de sono e encontrou evidências históricas compatíveis com apneia obstrutiva do sono. Os autores relataram que, após deixar a Presidência, ele perdeu permanentemente mais de 60 libras (27,2 kg), acompanhadas de melhora da sonolência.

A trajetória de Taft ilustra uma dificuldade conhecida: uma estratégia alimentar pode produzir excelente perda de peso inicial e, ainda assim, ser difícil de sustentar. A fome constante relatada pelo próprio paciente é particularmente relevante nesse contexto.

A redução de carboidratos já era conhecida muito antes de Taft

A história das dietas pobres em carboidratos começou muito antes do século XX.

Em 1863, o inglês William Banting publicou o livro Letter on Corpulence, Addressed to the Public, relatando seu emagrecimento após seguir orientações médicas para reduzir pão, açúcar, batatas e outros alimentos ricos em amido.

Banting havia recebido essas recomendações do cirurgião William Harvey. Sua experiência tornou-se tão conhecida que, durante décadas, seu sobrenome foi associado ao próprio ato de fazer dieta.

O Royal College of Surgeons da Inglaterra preserva essa história e descreve como a alimentação prescrita incluía principalmente carnes, peixes, frutas e vegetais sem amido.

O mais curioso é que essas dietas já despertavam discussões médicas no século XIX. Alguns profissionais defendiam sua eficácia, enquanto outros questionavam as explicações propostas para a perda de peso.

Portanto, seria exagerado afirmar que reduzir carboidratos era uma prática universalmente aceita e que a controvérsia surgiu apenas décadas depois. A disputa é antiga. O que muda ao longo do tempo são as explicações científicas, os alimentos recomendados e a qualidade das evidências disponíveis.

O que a ciência atual diz sobre reduzir carboidratos para emagrecer?

Hoje, a eficácia das dietas pobres em carboidratos pode ser avaliada por ensaios clínicos, nos quais diferentes estratégias alimentares são comparadas diretamente.

Uma revisão sistemática publicada em 2026 no Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics reuniu 23 ensaios clínicos com adultos que apresentavam sobrepeso ou obesidade, mas não tinham outras doenças estabelecidas.

Na comparação com dietas contendo mais carboidratos, as estratégias com restrição desse nutriente produziram, em média, 1,32 kg a mais de perda de peso. Também foram observadas pequenas reduções na circunferência da cintura, na glicemia, na hemoglobina glicada, nos triglicerídeos e na pressão arterial sistólica.

Os resultados favorecem a redução de carboidratos como uma estratégia possível para o controle do peso e de alguns marcadores metabólicos. A vantagem média, entretanto, foi modesta.

Uma revisão Cochrane de 2022, que reuniu 61 ensaios clínicos e 6.925 participantes, também encontrou perda de peso com dietas low carb. Nas comparações com dietas de carboidratos balanceados, porém, a diferença média foi de aproximadamente 1 kg no curto prazo e inferior a 1 kg após um a dois anos.

Esses resultados ajudam a interpretar o caso de Taft. A redução de carboidratos pode contribuir para o emagrecimento, mas seu resultado expressivo não permite identificar quanto da perda de 26,8 kg veio especificamente dessa restrição e quanto dependeu da redução total da comida, das atividades físicas e do acompanhamento constante.

Há ainda uma diferença importante entre diminuir carboidratos e simplesmente passar fome. Uma alimentação com proteínas suficientes e alimentos que favoreçam a saciedade pode tornar o controle da ingestão alimentar mais viável. No caso de Taft, apesar da presença frequente de carnes no cardápio, as porções rigidamente limitadas não impediram que ele sentisse fome persistente.


Uma história antiga com uma lição bastante atual

O tratamento de William Taft mostra que a redução de açúcar e amidos já fazia parte da prática de alguns médicos há mais de 120 anos. A ideia de utilizar carnes, peixes e outros alimentos ricos em proteína como componentes importantes de uma dieta para emagrecimento está longe de ser uma invenção recente.

Também mostra que perder peso e conseguir mantê-lo são desafios diferentes. O próprio Taft experimentou os dois lados: uma perda expressiva, seguida de recuperação do peso, antes de alcançar resultados mais duradouros anos depois.

A ironia histórica é que muitas estratégias atualmente apresentadas como novidades já circulavam quando as consultas médicas aconteciam por cartas. A experiência de Taft merece atenção pelo que documenta, enquanto os ensaios clínicos modernos ajudam a estabelecer quais benefícios podem ser reproduzidos e em que condições.


Fonte:
Levine DI. Corpulence and correspondence: President William H. Taft and the medical management of obesity. Annals of Internal Medicine. 2013;159(8):565-570. https://doi.org/10.7326/0003-4819-159-8-201310150-00012

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