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Cetose e corpos cetônicos: como o organismo transforma gordura em energia

Ilustração do fígado produzindo corpos cetônicos a partir de gordura e sua utilização pelo cérebro, coração e músculos

Quando a ingestão de carboidratos diminui bastante ou o jejum se prolonga, o fígado passa a transformar parte da gordura em corpos cetônicos. Essas moléculas circulam pelo sangue e fornecem energia ao cérebro, ao coração, aos músculos e a outros tecidos. Uma revisão de 2026, publicada antecipadamente na revista Biochimie, explica como esse processo funciona e por que os corpos cetônicos também despertam interesse como sinais capazes de influenciar a atividade das células.

Como a gordura se transforma em corpos cetônicos

Após uma refeição, a insulina ajuda a regular o uso e o armazenamento de nutrientes. Quando a disponibilidade de energia proveniente dos alimentos diminui, a concentração de insulina tende a cair, e o organismo aumenta a liberação de ácidos graxos armazenados no tecido adiposo. O fígado recebe parte dessa gordura e a utiliza em suas mitocôndrias, estruturas responsáveis por etapas essenciais da produção de energia.

Nesse processo, chamado beta-oxidação, os ácidos graxos geram uma substância conhecida como acetil-CoA. Conforme as condições metabólicas, parte dela é direcionada à cetogênese, nome dado à produção de corpos cetônicos. É uma adaptação normal, que pode ocorrer no jejum, no exercício prolongado e em dietas com restrição acentuada de carboidratos.

Os principais corpos cetônicos são o acetoacetato e o beta-hidroxibutirato (BHB). Existe ainda a acetona, produzida em menor quantidade e eliminada principalmente pela respiração. Ela ajuda a explicar o hálito característico que algumas pessoas percebem durante a cetose.

Por que o cérebro consegue usar energia proveniente da gordura

O fígado funciona como um centro de distribuição: transforma parte da energia da gordura em moléculas que outros órgãos conseguem aproveitar. Isso é especialmente útil para o cérebro, que não utiliza diretamente os ácidos graxos circulantes como uma fonte importante de combustível.

Em períodos prolongados de jejum, os corpos cetônicos podem fornecer até cerca de dois terços da energia cerebral, segundo pesquisas clássicas discutidas na revisão. O restante continua dependendo de outros combustíveis, incluindo a glicose. Parte dessa glicose é produzida pelo próprio organismo por meio da gliconeogênese, que utiliza substâncias como glicerol e determinados aminoácidos.

Para usar cetonas, as células precisam transportá-las para seu interior e convertê-las novamente em acetil-CoA. A enzima SCOT participa de uma etapa decisiva dessa utilização, chamada cetólise. O coração, os rins e os músculos também contam com essa via. Curiosamente, o fígado produz quase todos os corpos cetônicos que chegam ao sangue, mas não dispõe da via convencional de SCOT para queimá-los como combustível.

A insulina controla o acesso à gordura e a produção de cetonas

Um dos pontos centrais da revisão é o papel da relação entre insulina e glucagon. Com a insulina mais alta, a liberação de gordura do tecido adiposo é reduzida, e o fígado recebe menos matéria-prima para fabricar cetonas. Quando a insulina cai, essa restrição diminui. O glucagon e outros sinais associados ao jejum participam da adaptação hepática.

Existe ainda um controle dentro das próprias células. Uma substância chamada malonil-CoA pode frear a entrada de ácidos graxos de cadeia longa nas mitocôndrias. Durante o jejum, esse freio tende a diminuir, facilitando a oxidação de gordura. Já a enzima HMGCS2 é uma das peças principais na fabricação das cetonas.

Os pesquisadores descrevem também reguladores como PPAR-alfa e FOXA2, que ajudam a ativar genes necessários à adaptação ao jejum. Outros mecanismos ajustam a atividade das enzimas já existentes. Assim, a produção de cetonas depende de uma combinação de disponibilidade de gordura, hormônios e capacidade das células de processá-la.

Corpos cetônicos também participam da comunicação celular

O BHB tem funções que vão além do fornecimento de energia. Pesquisas experimentais mostram que ele pode interagir com receptores celulares e influenciar processos ligados à inflamação, ao estresse oxidativo e à regulação de genes. Um dos receptores estudados, o HCAR2, participa de mecanismos que podem reduzir a liberação excessiva de gordura do tecido adiposo, funcionando como uma espécie de ajuste do próprio sistema.

Outra área investigada é a epigenética: alterações químicas que influenciam a leitura dos genes sem modificar a sequência do DNA. O BHB pode participar de modificações em proteínas chamadas histonas, associadas à organização do material genético. A revisão descreve tanto esses mecanismos quanto uma dificuldade importante: certos métodos usados para detectá-los podem confundir diferentes modificações químicas.

Esses achados ajudam a entender por que a cetose interessa à pesquisa sobre metabolismo e doenças. Entretanto, observar um sinal anti-inflamatório ou uma mudança na atividade de genes em células e animais não demonstra, por si só, que elevar cetonas previne ou trata uma doença em seres humanos.

Rins, intestino e microbiota também entram nessa história

O fígado é o principal responsável pelas cetonas circulantes, mas não é o único tecido capaz de produzi-las. Estudos experimentais identificaram produção local nos rins, em células intestinais e em algumas células do sistema nervoso e da imunidade. Nesses locais, as cetonas podem servir principalmente a necessidades da própria célula, sem aumentar de maneira relevante seus níveis no sangue.

A microbiota intestinal também pode influenciar esse metabolismo. Em camundongos, alterações nas bactérias intestinais modificaram a produção de cetonas durante o jejum ou em dietas cetogênicas. A própria cetose pode modificar a composição da microbiota. Ainda não está estabelecido quanto esses processos contribuem para a quantidade de cetonas produzida por seres humanos.

Cetose nutricional e cetoacidose são situações diferentes

Na cetose nutricional, há produção aumentada de corpos cetônicos com mecanismos de controle metabólico preservados. Na cetoacidose diabética, geralmente associada à deficiência importante da ação da insulina, a produção pode ficar descontrolada e provocar acidose, uma alteração perigosa do equilíbrio químico do sangue. A cetoacidose pode ocorrer mesmo sem glicemia extremamente elevada.

Também é preciso interpretar corretamente as medições de cetonas. Um valor mais alto no sangue pode resultar de produção aumentada, utilização reduzida ou das duas coisas. Portanto, mais cetonas não são automaticamente sinônimo de maior queima de gordura corporal, emagrecimento ou benefício clínico.

O que essa revisão esclarece sobre dietas com poucos carboidratos

A restrição de carboidratos é uma das formas conhecidas de favorecer a produção de cetonas sem a necessidade de jejum prolongado. A revisão ajuda a explicar por quê: a mudança na sinalização hormonal facilita o acesso à gordura, enquanto o fígado aumenta sua capacidade de convertê-la em combustível para outros tecidos.

O artigo de Souad Nasser, Aneta Balcerczyk e Luciano Pirola é uma revisão dos mecanismos bioquímicos, não um ensaio clínico que comparou dietas ou mediu resultados de saúde em participantes. Seu principal avanço é organizar como o organismo fabrica, distribui, utiliza e regula os corpos cetônicos. Os mecanismos de sinalização descritos ampliam o interesse pela cetose, mas a escolha de uma estratégia alimentar continua exigindo evidências clínicas sobre seus resultados, além de explicações sobre o funcionamento das células.

Fonte: https://doi.org/10.1016/j.biochi.2026.10.034

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