A concentração de hemoglobina é o principal critério usado para definir anemia, mas um estudo publicado em 2026 sugere que esse número, quando analisado isoladamente, pode não representar bem a capacidade real do sangue de transportar oxigênio. Em 461 adultos saudáveis, a concentração de hemoglobina não se associou de forma significativa à capacidade aeróbica, enquanto a massa total de hemoglobina apresentou uma relação mais clara com o VO2 de pico.
O ponto central é simples: a concentração de hemoglobina depende não apenas da quantidade de hemoglobina circulante, mas também de quanto plasma existe no sangue. Duas pessoas podem ter quantidade semelhante de hemoglobina e, ainda assim, concentrações diferentes se uma delas tiver maior volume plasmático. É como diluir a mesma quantidade de uma substância em volumes diferentes de água: a concentração muda, embora a quantidade total permaneça igual.
O que o estudo avaliou
O trabalho de Liu e colaboradores incluiu 461 homens e mulheres saudáveis, com idades entre 18 e 78 anos. Nenhum participante tinha doença crônica diagnosticada, usava medicamentos, fumava ou apresentava obesidade. A concentração de hemoglobina foi medida após 15 minutos de repouso, e os pesquisadores também determinaram a massa total de hemoglobina circulante e o volume plasmático por uma técnica de reinalação de monóxido de carbono.
A capacidade aeróbica foi avaliada por um teste incremental em cicloergômetro até a exaustão, usando o VO2 de pico, que representa a maior quantidade de oxigênio utilizada durante o esforço. Em 417 participantes, a hemoglobina também foi medida imediatamente após o exercício para verificar o efeito da hemoconcentração provocada pelo esforço.
A concentração de hemoglobina não acompanhou a capacidade aeróbica
Nas mulheres, a concentração de hemoglobina variou de 10,1 a 15,0 g/dL; nos homens, de 11,7 a 17,8 g/dL. Apesar dessa ampla variação, não houve associação estatisticamente significativa entre a concentração de hemoglobina e o VO2 de pico em mulheres (P=0,093) ou homens (P=0,165).
Quando os pesquisadores ajustaram a análise pelo volume plasmático, apareceu uma associação positiva com a capacidade aeróbica: r=0,23 nas mulheres e r=0,39 nos homens. A medição feita imediatamente após o exercício também se associou ao VO2 de pico, mas de forma fraca: r=0,15 nas mulheres e r=0,20 nos homens.
A relação foi mais forte quando se analisou a massa total de hemoglobina. A correlação com o VO2 de pico foi de r=0,34 nas mulheres e r=0,53 nos homens. Isso favorece a interpretação de que a quantidade total de hemoglobina circulante representa melhor a capacidade de transporte de oxigênio do que sua concentração em um determinado volume de sangue.
O volume plasmático pode alterar a interpretação do exame
A concentração de hemoglobina pode cair simplesmente porque o plasma aumentou, fenômeno chamado hemodiluição. Nesse cenário, o exame mostra menos hemoglobina por decilitro, mas isso não significa necessariamente que a quantidade total de hemoglobina do organismo tenha diminuído na mesma proporção.
O fenômeno inverso também é possível. Com menor volume plasmático, a concentração pode aumentar por hemoconcentração, sem que tenha ocorrido aumento real da massa de hemoglobina. Por isso, alterações do volume circulante podem influenciar a leitura do resultado.
Os autores chamam atenção para um achado relevante: 20% das mulheres e 5% dos homens do estudo preenchiam os critérios de concentração de hemoglobina usados para definir anemia, apesar de terem sido classificados como saudáveis. Além disso, entre aqueles abaixo dos pontos de corte de 12 g/dL para mulheres e 13 g/dL para homens, o VO2 de pico ficou no percentil 40 ou acima para idade e sexo.
Esses valores correspondem aos pontos de corte adotados para adultos na diretriz da Organização Mundial da Saúde publicada em 2024. O estudo, portanto, questiona a capacidade da concentração de hemoglobina de funcionar sozinha como representação fisiológica da anemia, mas não demonstra que os critérios atuais devam simplesmente ser abandonados.
O estudo não redefine sozinho o diagnóstico de anemia
Há uma diferença entre mostrar que um marcador é imperfeito e demonstrar que outro deve substituí-lo. O estudo foi transversal e avaliou pessoas selecionadas por serem saudáveis. Não investigou uma população de pacientes com causas comuns de anemia, como deficiência de ferro, sangramentos, doenças inflamatórias ou doença renal, nem situações como gravidez.
O VO2 de pico também foi usado como indicador funcional relacionado ao transporte de oxigênio, mas anemia não é definida exclusivamente pelo desempenho aeróbico. Uma pessoa pode apresentar alterações hematológicas clinicamente relevantes sem redução evidente em um teste de esforço, especialmente em quadros leves ou iniciais.
A própria associação entre massa de hemoglobina e VO2 de pico esteve longe de ser perfeita. Nas mulheres, r=0,34 representa uma correlação relativamente modesta. Nos homens, a relação foi maior, com r=0,53, mas ainda existe ampla variação da capacidade aeróbica determinada por outros fatores.
Também não foram apresentados novos pontos de corte de massa de hemoglobina capazes de separar pessoas com e sem anemia. Portanto, o estudo não permite olhar para alguém com hemoglobina abaixo do limite e concluir que se trata apenas de “falsa anemia”. O resultado continua exigindo interpretação clínica e, quando pertinente, investigação da causa.
Massa de hemoglobina é uma medida bem diferente
Um hemograma informa a concentração de hemoglobina em determinado volume de sangue. A massa de hemoglobina tenta responder a outra pergunta: quanta hemoglobina existe no sistema circulatório inteiro?
Para medir essa variável, os pesquisadores usaram uma técnica de reinalação de monóxido de carbono com erro típico de medição igual ou inferior a 1,2%. Embora seja uma metodologia estabelecida em pesquisa, é muito diferente de coletar um tubo de sangue para um hemograma.
Essa diferença tem consequência prática. A concentração de hemoglobina é barata, rápida e disponível rotineiramente. A determinação da massa total de hemoglobina exige equipamento, protocolo e experiência específicos. Mesmo que estudos futuros confirmem sua superioridade em determinadas situações, isso não torna automática sua substituição pelo exame convencional.
O que muda na interpretação do hemograma
O estudo reforça uma ideia útil: um valor baixo de hemoglobina deve ser interpretado dentro do contexto clínico e não como uma medida perfeita e isolada da quantidade total de hemoglobina no organismo. Volume plasmático, sintomas, hematócrito, índices das hemácias e investigação da causa ajudam a entender o que aquele número representa.
Os resultados também explicam por que duas pessoas com a mesma quantidade total de hemoglobina podem apresentar concentrações diferentes. A concentração é uma relação entre quantidade e volume. Se o volume de plasma aumenta, a mesma quantidade fica mais diluída; se diminui, fica mais concentrada.
Os autores concluem de forma mais ampla que a massa de hemoglobina deveria ser considerada para o diagnóstico de anemia na população adulta. Os dados apresentados sustentam melhor a primeira parte do argumento: o volume plasmático pode confundir a interpretação da concentração de hemoglobina e a massa total de hemoglobina se relacionou mais fortemente com a capacidade aeróbica. Demonstrar que essa medida deve substituir a concentração de hemoglobina na prática clínica exigiria estudos em pessoas com anemia real, avaliação das diferentes causas da doença, definição de pontos de corte e demonstração de benefício diagnóstico ou clínico.
