A ideia de que um β-hidroxibutirato (BHB) baixo em alguém adaptado à dieta cetogênica significa apenas que o corpo passou a “usar cetonas com mais eficiência” não é bem sustentada pelos estudos em humanos. O que os dados disponíveis mostram é mais específico: o cérebro tende a captar mais cetonas quando há mais cetonas circulando. A adaptação ao jejum pode reduzir o uso periférico, especialmente pelo músculo, mas isso não demonstra que o cérebro consiga manter a mesma utilização com concentrações sanguíneas menores.
Essa distinção importa principalmente quando a cetose é buscada por possíveis efeitos neurológicos. Uma concentração baixa de BHB pode coexistir com boa oxidação de gordura e baixo consumo de carboidratos, mas não deve ser automaticamente interpretada como prova de que o cérebro está recebendo a mesma quantidade de cetonas.
O cérebro usa mais cetonas quando elas estão mais disponíveis
Um estudo de 1995 avaliou nove adultos saudáveis antes e depois de 3,5 dias de jejum. A concentração arterial de BHB aumentou e o influxo de BHB para o cérebro subiu mais de dez vezes. Os autores concluíram que a entrada de cetonas no cérebro era amplamente determinada pela quantidade presente no sangue. O estudo não mostrou que a adaptação permitisse ao cérebro obter o mesmo fluxo de cetonas com níveis menores. Hasselbalch et al., 1995.
Em 2002, outro trabalho usou tomografia por emissão de pósitrons para acompanhar o uso cerebral de BHB durante hipercetonemia induzida por infusão. Foram estudadas seis pessoas sem diabetes e seis com diabetes tipo 1. Dentro da faixa avaliada, aproximadamente 0,7 a 1,7 mmol/L, o aumento da disponibilidade de BHB foi acompanhado por maior utilização cerebral, sem sinal de saturação do processo. Blomqvist et al., 2002.
O ponto pode ser imaginado como um reservatório compartilhado. O fígado produz cetonas, elas entram na circulação e diferentes tecidos retiram parte desse combustível. Se a concentração no reservatório está maior, o cérebro recebe mais. Se está menor, não há evidência de que uma suposta “eficiência” cerebral compense automaticamente essa menor disponibilidade.
Mais cetonas também podem substituir parte da glicose cerebral
Em 1996, pesquisadores elevaram agudamente o BHB sanguíneo para uma média de 2,16 mmol/L. A captação cerebral de cetonas aumentou de 1,11 para 5,60 µmol por 100 g de tecido por minuto, enquanto o metabolismo cerebral de glicose caiu de 25,8 para 17,2 µmol por 100 g por minuto. O metabolismo oxidativo global não mudou de forma significativa. O achado indica substituição parcial de glicose por cetonas quando elas se tornam mais disponíveis. Hasselbalch et al., 1996.
Isso ajuda a separar dois conceitos que costumam ser misturados. Uma pessoa pode estar metabolicamente adaptada a oxidar mais gordura e, ainda assim, apresentar BHB relativamente baixo. Essa situação não permite concluir que o cérebro esteja usando muitas cetonas. O uso cerebral depende, entre outros fatores, da disponibilidade circulante.
A adaptação parece poupar cetonas no músculo
O comportamento do músculo ajuda a entender de onde pode ter surgido parte da ideia de “eficiência”. Em 1971, oito participantes foram avaliados após jejum noturno, três dias e 24 dias de jejum. No terceiro dia, o consumo muscular de cetonas aumentou bastante. Depois de 24 dias, porém, os ácidos graxos livres se tornaram o principal combustível extraído pelo músculo, o consumo de cetonas caiu e cinco dos oito participantes chegaram a apresentar liberação líquida de BHB pelo antebraço. Owen e Reichard, 1971.
Assim, a adaptação prolongada não parece transformar o músculo em um consumidor cada vez mais voraz de cetonas. O padrão observado foi quase o oposto: com o jejum prolongado, o músculo passou a depender mais de ácidos graxos, poupando cetonas para outros tecidos.
Um estudo de exercício reforça essa interpretação. Em 21 participantes submetidos a duas horas de exercício moderado, a depuração metabólica das cetonas aumentou cerca de 40% a 50% quando a cetonemia basal estava abaixo de 0,6 mmol/L. À medida que a cetonemia subia, esse estímulo diminuía; acima de 3 a 4 mmol/L, o efeito era abolido ou até invertido. Féry e Balasse, 1986.
Jejum prolongado reduz a depuração das cetonas
Balasse comparou pessoas em jejum prolongado com controles que haviam feito apenas jejum noturno e receberam cetonas por infusão. Em concentrações semelhantes, entre 3 e 10 mmol/L, o grupo em jejum apresentou, em média, 35% menor depuração metabólica das cetonas. Isso mostra que a adaptação modifica o modo como os tecidos periféricos removem cetonas da circulação, e que a diferença não pode ser explicada apenas pela concentração sanguínea. Balasse, 1979.
Esse resultado também evita uma confusão comum. “Usar cetonas de forma mais eficiente” pode significar coisas diferentes. Se a frase quer dizer que alguns tecidos periféricos precisam retirar menos cetonas porque passaram a usar mais ácidos graxos, há dados compatíveis com isso. Se quer dizer que o cérebro consegue receber a mesma quantidade de cetonas apesar de uma concentração sanguínea menor, os estudos citados não sustentam essa conclusão.
O que esses estudos não permitem concluir
Os trabalhos têm limitações importantes. As amostras são pequenas, muitos experimentos envolveram jejum prolongado ou infusão intravenosa de cetonas, e alguns participantes eram obesos ou tinham diabetes tipo 1. Esses cenários não são idênticos ao de alguém que segue uma dieta carnívora ou cetogênica por meses ou anos.
Também não foi estabelecido, com esses estudos, um nível mínimo de BHB necessário para benefícios neurológicos, nem se uma determinada concentração capilar corresponde a um benefício clínico específico. Os experimentos medem transporte, captação e metabolismo; eles não demonstram que “quanto mais BHB, melhor” para qualquer pessoa ou objetivo.
A conclusão mais defensável é mais restrita: BHB baixo não deve ser explicado automaticamente como maior eficiência cerebral após adaptação. Nos estudos humanos disponíveis, a captação cerebral de cetonas aumenta conforme sua disponibilidade circulante. A adaptação parece alterar principalmente o uso periférico, com maior dependência muscular de ácidos graxos em estados de jejum prolongado. Para quem busca cetose por uma finalidade neurológica específica, medir pouco BHB no sangue não é evidência de que o cérebro esteja usando a mesma quantidade de cetonas “mais rápido”.
Fonte: https://www.mostly-fat.com/2026/10/no-youre-not-just-using-ketones-more-efficiently/
