A dieta cetogênica reduziu o T3 sem produzir queda detectável da taxa metabólica de repouso neste pequeno ensaio clínico cruzado. O achado desafia a interpretação de que uma redução isolada de T3 durante a restrição de carboidratos seja necessariamente sinônimo de metabolismo mais lento ou hipotireoidismo.
O que foi estudado
O estudo, publicado em 2022 na PLOS ONE por Stella Iacovides e colaboradores, investigou se uma dieta cetogênica poderia alterar a função tireoidiana e a taxa metabólica de repouso em adultos saudáveis com peso normal.
Tratou-se de um ensaio clínico randomizado, controlado e cruzado. Onze participantes, com idade média de 30 anos e índice de massa corporal médio de 24 kg/m², completaram as duas intervenções. A amostra foi formada por dez mulheres e apenas um homem.
Cada participante seguiu, em ordem aleatória, uma dieta cetogênica e uma dieta rica em carboidratos e pobre em gordura. Como o desenho era cruzado, cada pessoa funcionou como seu próprio controle.
Como o estudo foi feito
As duas dietas foram planejadas para fornecer a mesma quantidade de energia, calculada a partir da ingestão habitual relatada por cada participante. Na dieta rica em carboidratos, a distribuição prevista era de 55% das calorias provenientes de carboidratos, 20% de gordura e 25% de proteína. Na dieta cetogênica, eram 15% de carboidratos, 60% de gordura e 25% de proteína.
Na prática, durante a fase cetogênica, a ingestão média registrada ficou em 11,7% de carboidratos, 64,3% de gordura e 24,5% de proteína. Na fase rica em carboidratos, foram 51,6% de carboidratos, 23,8% de gordura e 22,2% de proteína.
A cetose nutricional foi confirmada por medições frequentes de beta-hidroxibutirato no sangue. Os participantes levaram, em média, nove dias para atingir cetose e permaneceram nessa condição por pelo menos três semanas consecutivas. O beta-hidroxibutirato médio chegou a 1,0 mmol/L durante a dieta cetogênica.
Antes e depois das intervenções, foram medidos TSH, T3 livre, T4 livre, massa corporal e taxa metabólica de repouso. A atividade física também foi acompanhada por questionário, e a razão de troca respiratória foi utilizada para estimar qual combustível estava sendo predominantemente oxidado.
O T3 caiu, mas o metabolismo de repouso não acompanhou a queda
O resultado mais relevante para a discussão sobre dieta cetogênica e tireoide foi a redução do T3. Após a dieta cetogênica, o T3 livre médio foi de 4,1 pmol/L, enquanto após a dieta rica em carboidratos foi de 4,8 pmol/L. A mudança em relação aos valores anteriores à intervenção foi significativamente diferente entre as duas dietas.
Apesar dessa queda, todos os valores de T3 permaneceram dentro da faixa de referência utilizada pelo estudo, de 3,1 a 6,8 pmol/L.
O TSH não apresentou alteração significativa atribuível à dieta. O T4 livre aumentou em relação ao período anterior à dieta cetogênica, mas a magnitude dessa mudança não foi estatisticamente diferente daquela observada na dieta rica em carboidratos.
Ao mesmo tempo, os pesquisadores não detectaram redução significativa da taxa metabólica de repouso com a dieta cetogênica. Esse ponto é importante porque uma interpretação simplificada poderia prever que a queda do T3, considerado o hormônio tireoidiano biologicamente mais ativo, deveria resultar em menor gasto energético de repouso. Isso não foi observado.
Os próprios autores destacaram que uma interpretação baseada apenas na concentração circulante de T3 não explicava os resultados. A atividade dos hormônios tireoidianos também depende da conversão local de T4 em T3, da atividade das desiodases e da ação dos receptores dentro dos tecidos, mecanismos que não foram diretamente avaliados nesse ensaio.
A dieta cetogênica também produziu maior perda de peso
Outro resultado chamou atenção. A massa corporal caiu, em média, 2,9 kg durante a dieta cetogênica, contra aproximadamente 0,4 kg durante a dieta rica em carboidratos.
Essa diferença ocorreu embora as dietas tenham sido planejadas como isocalóricas, a ingestão energética registrada tenha sido semelhante e não tenha sido detectada diferença significativa na atividade física ou na taxa metabólica de repouso.
Os autores levantaram a possibilidade de alterações metabólicas não captadas pelas medições realizadas. Entretanto, o estudo não demonstra a existência de uma “vantagem metabólica” da dieta cetogênica.
A ingestão alimentar foi registrada pelos próprios participantes, a atividade física foi estimada por questionário e não foram medidos todos os componentes do gasto energético diário. Além disso, o estudo não apresentou uma avaliação detalhada da composição da massa perdida capaz de separar gordura, água e tecido magro.
O que isso significa na prática
Os resultados mostram que uma redução do T3 durante cetose nutricional não deve ser interpretada automaticamente como prova de que o metabolismo desacelerou. Neste experimento, o T3 caiu, mas não houve redução estatisticamente detectável da taxa metabólica de repouso, o TSH não se alterou significativamente e os hormônios tireoidianos permaneceram dentro das faixas de referência.
Isso também não significa que qualquer T3 baixo seja irrelevante ou que uma dieta cetogênica não possa interferir na função tireoidiana em determinadas pessoas. O estudo avaliou adultos saudáveis, com peso normal e sem doença tireoidiana conhecida. Portanto, seus resultados não podem ser extrapolados diretamente para pessoas com hipotireoidismo, uso de hormônio tireoidiano, obesidade, restrição calórica prolongada ou outras condições clínicas.
Limitações do estudo
A principal limitação é o tamanho da amostra. Apenas 11 pessoas completaram o protocolo, e a própria estimativa dos pesquisadores indicava que seriam necessários 20 participantes para fornecer poder estatístico adequado para detectar um efeito moderado sobre a taxa metabólica de repouso. Além disso, essa medida estava disponível para apenas nove participantes.
A intervenção também foi curta, a amostra teve forte predominância feminina e a ingestão alimentar não foi controlada por fornecimento direto das refeições. Os registros dietéticos dependiam do relato dos participantes, embora a presença de cetose tenha sido confirmada objetivamente por beta-hidroxibutirato e pela menor razão de troca respiratória.
Por essas razões, a ausência de diferença estatística na taxa metabólica de repouso deve ser entendida como ausência de uma redução detectável neste pequeno estudo, e não como prova definitiva de que a dieta cetogênica nunca reduz o metabolismo.
Em resumo
Este ensaio clínico encontrou uma mudança clara no perfil dos hormônios tireoidianos durante a cetose nutricional: o T3 caiu, enquanto o TSH não apresentou alteração significativa e todos os valores permaneceram dentro das faixas de referência.
Ao mesmo tempo, a queda do T3 não foi acompanhada por redução detectável da taxa metabólica de repouso. O resultado sugere que T3 circulante e velocidade do metabolismo não podem ser tratados como se fossem a mesma variável.
O estudo, contudo, é pequeno e exploratório. Ele fornece evidência de que a dieta cetogênica pode modificar o perfil hormonal da tireoide sem que isso corresponda necessariamente a uma queda mensurável do metabolismo de repouso, mas não estabelece que essa adaptação seja sempre benigna nem comprova uma vantagem metabólica da cetose.
