Dieta carnívora é uma abordagem alimentar baseada em alimentos de origem animal. Este site reúne a maior base de referências em português sobre o tema, integrando estudos científicos, relatos clínicos, experiências pessoais, etnografia, antropologia, sustentabilidade e documentários.

Blake Donaldson: carne gordurosa contra a obesidade há mais de um século


Blake Donaldson tratou a obesidade com uma alimentação baseada em carne gordurosa durante mais de quatro décadas.
Seu método começou em 1919, quando percebeu que as dietas de baixa caloria deixavam muitos pacientes com fome, fracos e incapazes de manter o tratamento.

Donaldson trabalhava no New York Post-Graduate Medical School and Hospital, em Nova York. Em 1962, reuniu suas experiências no livro Strong Medicine, no qual descreveu suas ideias sobre obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes e alergias.

O problema das dietas de baixa caloria

Na prática clínica, Donaldson encontrava pessoas que já haviam tentado emagrecer com porções menores e restrição de calorias. Segundo ele, os pacientes sentiam fome, perdiam disposição e frequentemente abandonavam o tratamento.

Donaldson concluiu que não bastava mandar o paciente comer menos dos mesmos alimentos. Era necessário modificar a composição das refeições para preservar a força e reduzir a fome. Em vez de depender apenas da força de vontade, ele passou a concentrar a alimentação em carne, gordura e água.

A visita ao Museu Americano de História Natural


Em busca do que considerava uma alimentação compatível com a história humana, Donaldson visitou o Museu Americano de História Natural. Ali, examinou crânios de antigos povos do Ártico que consumiam principalmente carne, gordura, peixes, medula, raízes e frutas disponíveis durante o curto verão.

Muitos desses crânios apresentavam dentes preservados. Donaldson, porém, também observou crânios de antigos povos Pueblo, cuja alimentação era baseada principalmente em milho grosseiramente moído, e encontrou dentes igualmente conservados em alguns deles.

A conclusão registrada no livro não foi simplesmente que todos deveriam comer apenas carne. Ele passou a defender o uso de alimentos que chamava de “primitivos”, pouco modificados pelo processamento industrial.

Como funcionava a dieta de Donaldson


Donaldson escolheu, de maneira reconhecidamente arbitrária, meia libra de carne gordurosa por refeição, aproximadamente 227 gramas. Depois do preparo, a porção deveria conter cerca de seis onças de carne magra e duas onças de gordura aderida, equivalentes a aproximadamente 170 gramas de carne e 57 gramas de gordura.

A refeição era repetida três vezes ao dia. Carne bovina e cordeiro apareciam com frequência, e Donaldson insistia que a carne não deveria ser excessivamente magra. Ele acreditava que a gordura era necessária para fornecer energia e tornar o protocolo tolerável.

Em sua versão inicial, a dieta não era totalmente carnívora. O paciente podia receber uma pequena porção de fruta madura ou uma batata cozida ou assada sem sal. Também havia café preto ou chá, seis copos de água entre as refeições e uma caminhada de trinta minutos antes do café da manhã.

Nos protocolos mais restritos para obesidade, Donaldson utilizava praticamente carne gordurosa, café preto e água. Farinha, açúcar, álcool, lanches e alimentos consumidos entre as refeições eram retirados.

As regras mais curiosas do tratamento

Algumas orientações de Donaldson parecem particularmente incomuns para os padrões atuais. Seu tratamento não era apresentado como uma recomendação flexível, mas como um conjunto de ordens médicas bastante rígidas.

Seis copos de água, todos antes das cinco da tarde

Donaldson determinava que os pacientes bebessem seis copos de água entre as refeições: três entre o café da manhã e o almoço e três entre o almoço e o jantar.

A parte mais peculiar era o horário. Toda a água deveria ser consumida até as cinco horas da tarde. Depois disso, o paciente deveria evitar beber. O próprio Donaldson admitia não saber exatamente por que essa regra parecia funcionar em sua experiência clínica.

Ele chegou a comparar o treinamento da sede de seus pacientes ao modo como o marechal alemão Erwin Rommel teria condicionado soldados do Afrika Korps a sentir sede apenas em determinados momentos. Trata-se de uma explicação histórica e anedótica, não de uma orientação sustentada pela fisiologia moderna.

Nem mesmo o intervalo para o café era permitido

Donaldson permitia apenas uma pequena xícara de café preto durante as refeições. O café consumido entre elas era proibido.

Ele acreditava que até a pequena quantidade de carboidrato presente no café poderia estimular insulina e interromper a queima da gordura corporal. Hoje, essa explicação parece desproporcional, especialmente quando aplicada ao café sem açúcar, mas revela o grau de rigidez de seu protocolo.

Um chiclete poderia impedir o emagrecimento

Em uma das prescrições reproduzidas em Strong Medicine, Donaldson afirmava que a quantidade de açúcar presente em uma goma de mascar seria suficiente para interromper a perda de peso.

Ele também proibia água gaseificada, sucos, bebidas alcoólicas, frutas, torradas integrais, biscoitos para diabéticos, panquecas, bolos e qualquer produto feito com farinha. Para Donaldson, não havia grande diferença entre o pão branco e os produtos integrais que começavam a ser divulgados como mais saudáveis.

378 refeições consecutivas de costeletas de cordeiro

Uma paciente recebeu a orientação de consumir, durante dezoito semanas, duas costeletas duplas de cordeiro em cada uma das três refeições diárias. Isso correspondia a 378 refeições consecutivas baseadas praticamente no mesmo alimento.

Se precisasse almoçar fora de casa, ela deveria preparar quatro costeletas pela manhã, comer duas no café da manhã e carregar as outras duas frias, embrulhadas em papel-alumínio. Restaurantes deveriam ser evitados durante todo o tratamento.

Se o cheiro da carne causasse náusea, deveria tapar o nariz

Donaldson sabia que preparar costeletas de cordeiro logo cedo poderia ser desagradável. Sua solução não era substituir a refeição: ele orientava a paciente a simplesmente tapar o nariz e continuar.

Essa passagem resume bem seu estilo clínico. O método não era negociado; o paciente deveria se adaptar ao protocolo.

Uma balança, um despertador e um apito policial

Em outra prescrição, Donaldson orientava a paciente a comprar um despertador próprio e levantar-se 45 minutos antes do marido. Ela deveria vestir roupas adequadas ao frio e caminhar trinta minutos antes do café da manhã.

Como a caminhada ocorreria cedo e sem bolsa, Donaldson recomendava que ela comprasse um apito policial e o carregasse visivelmente no pescoço para proteção.

Ele também sugeria o uso de uma balança que medisse onças e, em determinados casos clínicos, até de um moedor elétrico de carne. O consultório acabava prescrevendo não apenas alimentos, mas uma pequena infraestrutura doméstica para seguir o regime.

Familiares podiam falar com o paciente através de um vidro

Donaldson relatou que, em ambiente hospitalar, alguns pacientes eram mantidos sob controle rigoroso para evitar desvios da dieta. Em situações extremas, familiares precisavam conversar através de uma separação de vidro.

A justificativa era impedir que visitantes levassem alimentos escondidos, especialmente amendoins salgados. Donaldson descrevia os parentes como pessoas capazes de comprometer o tratamento ao oferecer pequenas porções aparentemente inofensivas.

A caminhada só poderia ser dispensada por chuva ou neve

A caminhada de trinta minutos antes do café da manhã era tratada como parte central do tratamento. A orientação era caminhar sem parar, exceto quando estivesse chovendo ou nevando.

Donaldson acreditava que os primeiros dez minutos pouco contribuíam e que o efeito real começaria nos vinte minutos finais. Essa precisão não vinha de ensaios controlados, mas de sua interpretação clínica.

O retorno deveria ocorrer antes do décimo quinto dia

Donaldson instruía alguns pacientes a retornar ao consultório após três dias e, depois, a cada quatorze dias. Segundo ele, pessoas com obesidade começariam a “roubar” alimentos no décimo quinto dia caso não fossem novamente examinadas.

A linguagem seria considerada inadequada e estigmatizante atualmente, mas era característica de seu estilo direto e autoritário.

Quais resultados ele relatou

Donaldson escreveu que muitos pacientes perderam, em média, sete libras por mês, aproximadamente 3,2 quilos. Em casos específicos, esperava uma redução de até três libras por semana, cerca de 1,4 quilo.

Os resultados eram acompanhados por pesagens, observações clínicas e relatos dos pacientes. Donaldson dizia que o consumo de carne gordurosa preservava força e disposição de uma maneira que ele não observava nas dietas hipocalóricas.

Em 1953, Alfred Pennington mencionou Donaldson em um artigo publicado no New England Journal of Medicine, ajudando a inserir seu método na história das dietas com forte restrição de carboidratos.

A influência de Stefansson

Donaldson também foi influenciado pelo explorador Vilhjalmur Stefansson, que havia vivido entre povos do Ártico. Stefansson e Karsten Andersen participaram, entre 1928 e 1929, de um experimento no Bellevue Hospital em que consumiram apenas alimentos de origem animal durante aproximadamente um ano.

A alimentação incluía carne, gordura, medula, cérebro, rins e peixes. A experiência reforçou em Donaldson a ideia de que o ser humano poderia viver com uma dieta quase exclusivamente animal, desde que recebesse gordura suficiente.

Ele considerava particularmente perigoso consumir apenas carne magra. Essa preocupação estava relacionada ao fenômeno historicamente chamado de rabbit starvation, no qual uma dieta muito rica em proteína e pobre em gordura pode causar náusea, diarreia e fraqueza.

Donaldson não tratava apenas obesidade


Strong Medicine
não se limitava ao emagrecimento. Donaldson aplicava mudanças alimentares a pacientes com hipertensão, diabetes, problemas cardíacos, cálculos biliares e alergias.

O grau de segurança científica dessas recomendações variava muito. Em alguns casos, ele chegou a prescrever temporariamente dietas sem carne e praticamente sem sal para pacientes com edema grave e insuficiência cardíaca, antes de introduzir a carne gordurosa.

Isso mostra que seu trabalho não era uma defesa simplista de que todas as pessoas deveriam comer exatamente da mesma maneira. Donaldson adaptava o tratamento ao diagnóstico, embora suas explicações e métodos fossem baseados sobretudo na experiência clínica.

Um médico que reconhecia a ausência de provas

Apesar da confiança com que escrevia, Donaldson reconheceu que suas observações não constituíam prova científica. O livro não apresenta um ensaio clínico randomizado, um grupo de controle nem uma análise estatística moderna.

Também não é possível separar o efeito da carne gordurosa das outras mudanças simultâneas: retirada de açúcar, farinha, álcool e lanches, aumento da proteína, restrição de sal, caminhada diária e acompanhamento frequente.

Seu trabalho deve ser interpretado como uma grande coleção de observações clínicas. Os resultados podem gerar hipóteses, mas não demonstram que carne e água sejam superiores ou adequadas para todas as pessoas.

O legado de Blake Donaldson

Donaldson utilizava dietas ricas em carne e gordura décadas antes de Robert Atkins popularizar a restrição de carboidratos. Seu método era incomum, rígido e, em vários pontos, excêntrico até mesmo para sua própria época.

Ao mesmo tempo, ele levantou uma questão que permanece relevante: por que insistir em reduzir porções de alimentos que deixam o paciente com fome, em vez de modificar a alimentação para que comer menos se torne uma consequência da saciedade?

Donaldson não encontrou uma resposta definitiva para a obesidade. Mas sua experiência mostra que a discussão sobre proteína, gordura, carboidratos, fome e adesão clínica é muito mais antiga do que as dietas modernas fazem parecer.

Fonte: https://hdl.handle.net/2027/mdp.39015003228171

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